29/12/2011

O Ano 11

(há uma série de links perdidos em todo o texto. Dezenas, para falar a verdade. Deu muito trabalho. Fico agradecido se você olhar pelo menos um, rs.)

Eis o resumo do ano que se passou:

Vi Hair e quis ser hippie. Vi Janelle Monàe, Seu Jorge, Caetano e Racionais, Stevie Wonder. Vi Woody Allen, O Palhaço, os Lindos Lábios de Camila Pitanga.


Conheci Mari, Isis (direto do Acre), Lívia e . Conheci Pankinha, a quem já havia sido apresentado por Eliane Brum um ano antes, mas que passei a chamar de amigo.

Chorei como poucas vezes havia chorado. De saudade. De medo. De amor. Do mundo racista. De alegria também. De histórias bobas contadas na tela – e de outras nem tão bobas assim narradas nos telejornais.

Escrevi, pois este é o meu ofício, minha paixão, minha arte. Escrevi no jornal uma das reportagens que mais me deram orgulho nestes poucos anos de repórter, nos relatórios sem fim do novo trabalho, no blog, que tem sido meu maior refúgio nestes tempos metamórficos.

Experimentei os sopros de novidade da metrópole tropical: os sambas nas quadras, o por do sol na praia, os papos nos botequins. Experimentei dizer não, brigar pelo que acredito, fazer cara feia. E gostei.


Foi um ano cheio. Mas apenas um avant-première do que se aproxima. 2012, este sim, será um ano de profundas mudanças. A começar pelo casamento, a continuar pelo Mestrado, e por aí vai. Espero sobreviver a ele. Espero que seja parecido com o que se passou, em que tanto vi, mudei, conheci, chorei, escrevi, experimentei, descobri, ri, amei, dancei, beijei, bebi...

Vivi!

(Ei! Os links perdidos não são apenas os três ou quatro que estão na cara, não! Procura mais! rs)

23/12/2011

Eu acredito em Papai Noel

De repente o telefone toca:

- Alô. Jader?
- Sim.
- Jader, é a Roberta.
- Diga, Roberta!
- Você perdeu sua carteira na Lapa?
- Perdi. 
- Então... encontraram sua carteira, acharam um cartão [de visitas] meu dentro dela, e me ligaram para te encontrar. Anota aí o número do cara. O nome dele é Mauro.

Assim começou minha semana de Natal. Era uma segunda-feira de manhã. Cerca de 72 horas antes havia perdido todos os meus documentos e cartões após sair da "festa da firma", no Circo Voador. Quem já perdeu um documento sabe o transtorno que é:  entre ir à delegacia registrar ocorrência e ligar para o banco para cancelar o cartão, reina a preocupação de que alguém pode estar naquele exato momento se passando por você. Perder a identidade é uma metáfora brutal do estado em que você se sente em momentos como este.

Mas os documentos foram parar na mão de uma jovem, a filha do Mauro. Que encaminhou ao pai. Que ligou para Roberta. E a boa nova, enfim, chegou até mim. CPF, RG, Título de Eleitor, Cartão de Débito, Cartão de Loja. Tudo de volta. Quando as esperanças já tinham ido embora. Quando eu já tinha chorado. Já tinha questionado tudo. Por conta de uma simples carteira.

E eis que apareceu o Mauro. Quem é Mauro? Um engenheiro que trabalha numa oficina de botes em uma esquina movimentada no Centro do Rio. Simples, um pouco de graxa aqui e ali, surge com a carteira nas mãos e sedento por contar suas histórias. Sim, é um homem de histórias. Daquelas comuns que de tão comuns são extraordinárias.

Mauro é um super-herói à brasileira. Conta de quando devolveu os pertences de outras doze pessoas, usando a mesma tática que utilizou para me encontrar; conta dos quatro garotos afundados no álcool que tirou da rua, mesmo "sem trabalhar com o social"; conta das lições que passou para a filha sobre honestidade e o sentido de se colocar no lugar do outro; conta até de uma fila de hospital que furou graças às suas despretensiosas benfeitorias. Um herói à brasileira, repito.

Desta vez, foi meu bom velhinho. Dele, ganhei dois presentes. O primeiro e mais óbvio, a carteira (minha Identidade de volta!). O segundo é um pouco mais subjetivo. Pode ser expresso na frase que Mauro me disse ao encerrar nossa breve conversa:

"Nós nascemos para fazer o que? Para fazer o bem e nada mais".

Podem acreditar, ainda existem homens. A bondade ainda persiste. A luta dura não flexiona o caráter. Pode acreditar, Papai  Noel existe!

----------

Este é meu post número 100 no blog. 100 posts, 35 meses, 259 comentários, mais de 9.000 views. Obrigado a todos vocês que passaram por aqui! Obrigado em especial ao grande amigo Ricardo Vieira, que engrandeceu este espaço com dois posts "tops de linha" (ou seriam três? rs); à titia Giovana Damaceno, com seus comentários assíduos em mais de 90% das postagens; e ao gigante Gabriel Araújo, que foi o grande impulso para que eu fizesse esse blog - nem sei se ele mesmo sabe disso, rs.
Que venham mais 100, mais 35, mais 259, mais 9.000! Feliz Natal a todos!

10/12/2011

Pavilhão de Espelhos - Roberta Sá


Mais uma boa música.
Roberta Sá está de volta. Ainda bem...


Pavilhão de Espelhos

video


Não, eu não me arrependi de nada
Vida voa e o tempo é outro já

Você mudou e eu também
Tô aqui só pra saber que existe saudade
Ainda bem

Como num pavilhão de espelhos,
Eu te vejo multiplicada em mil
Eu vim aqui pra ver você
Solta, vestida de lua na nuvem
Dança como se dançasse pra ninguém,
Ou só pra mim
Ainda bem

Sim, eu sei que vieram chuvas
Noites cheias de céu vazio e vão
Cruzei o mar, estrada além
Tô aqui pra ver se ainda bate, pulsa
Ainda bem

Como num pavilhão de espelhos,
Eu te vejo multiplicada em mil
Eu vim aqui pra ver você
Solta, vestida de lua na nuvem
Dança como se dançasse pra ninguém,
Ou só pra mim
Ainda bem

Sim, eu sei que vieram chuvas
Noites cheias de céu vazio e vão
Cruzei o mar, estrada além
Tô aqui pra ver se ainda bate, pulsa
Ainda bem

01/12/2011

Então é... carnaval?!

(Trecho atualizado no fim do texto)

Eu na Sapucaí em 2008

Enquanto os Jingle Bells e as canções natalinas de Simone embalam o fim de ano nestas terras tupiniquins, é outro som tem rodado à exaustão na minha vitrola ultimamente: samba. Sambas-enredo do Carnaval Carioca de 2012, para ser exato.

Os que rotineiramente acompanham este blog sabem o quanto gosto de carnaval. Antes mesmo de me apaixonar pelo samba, já era fã da festa momesca em seu estilo mais tradicional. Acompanho os desfiles das agremiações cariocas desde cedo. Lembro com perfeição do título de minha amada Mocidade Independente de Padre Miguel em 1996, quando ainda tinha oito anos. Da alegoria que me fascinou com Adão e Eva da forma com que vieram ao mundo, do samba (ah, o samba!) que proclamava que a Mocidade seria a bomba a explodir naquele carnaval para levantar nosso astral.

Desde aí, acompanho com bastante atenção o carnaval. Xinguei a Viradouro por ter roubado (com méritos!) o bi da Mocidade em 97; me encantei com os sapos que abriam passagem um grande Villa Lobos em Padre Miguel; vaiei a Imperatriz, como toda a Sapucaí, por seu "desfile técnico" que a levou ao tricampeonato; deslumbrado, assisti ao magnífico Grande Circo Místico e a posterior saída do mestre e ídolo Renato Lage - e no meio disso, uma arrasadora e iluminada Mangueira, que invadiu o Nordeste, cabra da peste; vibrei com Paulo Barros e sua ousada irreverência; chorei pela decadência da minha escola; lamentei por cada segundo perdido pelo Salgueiro que fazia um desfile magnânimo exaltando o cinema nacional; e assisti, enfim, o maior espetáculo da Terra duas vezes ao vivo: 2008 e 2009.

E a todos esses momentos, inesquecíveis para mim, tenho certeza, de antemão, que em breve se juntará outro: espero que todos reservem as noites de 19 e 20 de fevereiro em seus calendários pois está para vir o maior carnaval dos últimos (muitos) anos na Sapucaí. Anotem o que digo. E justifico:

20/11/2011

A festa da raça!

Há dois anos, escrevi neste espaço sobre o Dia da Consciência Negra. Mas era um post carregado de indignação, que convidava à reflexão, brigava contra os hipócritas e os racistas. Hoje resolvi escrever novamente, sobre o mesmo tema. Mas o tom é outro: celebração.

Não que algum avanço significativo tenha ocorrido de dois anos para cá. Um avanço aqui e ali, um retrocesso acolá, ainda somos uma nação hipocritamente racista. Contudo, o dia de hoje é de festa. Festa que também pode se expressar na contestação, claro. Mas não.

Hoje quero só celebrar Zumbi, cantar Martinho, exaltar Abdias. Recordar de negros e negras que construíram - e ainda constroem - esse país, que lutaram - e ainda lutam - por um Brasil com justiça racial, que são fonte de inspiração diária para mim.

Homenagearei todos eles com o poeta Luis Carlos da Vila, que em conjunto com Jonas e Rodolpho, compôs um dos melhores sambas-enredo de todos os tempos. Um dos mais belos hinos de celebração da cultura negra deste país. Que essa Kizomba seja nossa Constituição! O curioso é que a nossa luta, mais de vinte anos depois, continua sendo para que que o "apartheid" se destrua... 

Valeu Zumbi! Valeu Joaquim Barbosa! Valeu Dandara! Valeu Abdias Nascimento! Valeu Milton Santos! Valeu Tia Ciata! Valeu Martinho da Vila! Valeu Anastácia! Valeu!




Kizomba, a festa da raça - Vila Isabel (1998)



Valeu Zumbi!
O grito forte dos Palmares
Que correu terras, céus e mares
Influenciando a abolição (Zumbi, valeu!)
Zumbi valeu!
Hoje a Vila é Kizomba
É batuque, canto e dança
Jongo e maracatu

Vem menininha pra dançar o caxambu

Ôô, ôô, Nega Mina
Anastácia não se deixou escravizar
Ôô, ôô Clementina
O pagode é o partido popular

O sacerdote ergue a taça
Convocando toda a massa
Neste evento que congraça
Gente de todas as raças
Numa mesma emoção

Esta Kizomba é nossa Constituição

Que magia
Reza, ajeum e orixás
Tem a força da cultura
Tem a arte e a bravura
E um bom jogo de cintura
Faz valer seus ideais
E a beleza pura dos seus rituais

Vem a Lua de Luanda
Para iluminar a rua
Nossa sede é nossa sede
De que o "apartheid" se destrua


- - - - - 


Ao longo destes quase três anos de blog, postei alguns textos e/ou notas relacionadas ao tema. Se quiser conferir, é só escolher:







09/11/2011

O Axé de Gadú

Maria Gadú está realmente um degrau acima das outras artistas de sua geração. E falo isso com a maior isenção, porque todos os que me conhecem um pouco sabem que meu coração bate mesmo é por outra cantora dessa nova era: a potiguar-carioca Roberta Sá.

Mas Gadú, que gosto bastante também, é impressionante! Cantora, compositora, musicista. E tudo isso maravilhosamente bem, acima da média. A primeira vez que fui a um show dela, saí boquiaberto e com uma aposta: estou vendo o "nascimento" de uma daquelas que será eterna. Sigo com este palpite...

Esta semana, e eis o motivo deste post, a cantora lançou na internet uma faixa de seu novo álbum (Axé Acapella, o nome da faixa). E daí veio a constatação expressa na primeira frase deste texto: além de tudo, essa garota se mostrou de tal sensibilidade para captar e transformar em arte o sopro que está no ar, o vento ainda fraco que sinto bater no rosto, o cheiro de batidão que também tenho sentido a tempos, um grito abafado que insiste em gritar.

O ritmo, como destaca o crítico Mauro Ferreira, do ótimo blog Notas Musicais, é diferente do  pop contemporâneo que tem marcado a carreira de Gadú até aqui. A música, cita ele, flerta com "sons da cena indie paulista". 

Para ser justo, a música é de autoria de Dani Black e Luisa Maita - dois dos amigos que formam uma trupe de artistas talentosíssimos encabeçada por Gadú. Foram eles que captaram e é Gadú quem nos transmite, em uma das melhores músicas que ouvi nos últimos anos.

Enfim, é só apertar o play e concordar (ou não) comigo...




Axé Acapella
Autoria: Dani Black e Luisa Maita
Interpretação: Maria Gadú

Pararam pra reparar?
Estão Ouvindo esse som?
Pulsando seco no ar
Merece nossa atenção
Preparem bem os sensores
Para poder captar
Parem usinas motores
Para ouvirmos bater
Dum! Dum! Dum!
Seu clamar

Som de corte pungente mundo doente além da conta
Sangra lucro imediato mas a cura de fato não aponta
Em uma remota viela a voz de uma santa faz menção
Um Axé Acappella feroz insinua o batidão

Pararam pra reparar?
Estão ouvindo esse som?
Reparem não vai parar
Diante a tal condição
Jogos de egos gigantes
Sem dar sossego à fatal pulsação
Que segue até seu furor
Torna-se ensurdecedor
Dum! Dum! Dum!
Seu clamar

Chega de jogar confete de botar enfeite achar desculpas
É guerra é dente por dente e rasga somente carne crua
Rouco um cantor se esgoela sozinho em meio a uma multidão
Um Axé Acappella feroz insinua o batidão...

E se bater vai matar!
E se bater vai tremer!
Não sobrará mais que o leito de um rio
Que escorre a prenda de um passado sombrio
Enquanto o homem não acorda
Idiota! Nem nota!
Se enforca com a corda da própria tensão
E um Axé feito Acappela
Vai se transformando num batidão

Aí é choro doído é sonho moído é fim de trilha
Já mortalmente ferido um lobo banido da matilha
Silente um bom Deus vela a terra sagrada da ingratidão

Um Axé Acappella feroz insinua o batidão!

02/11/2011

Memórias de um futuro em construção


Apresentador: (em tom lacônico) Tiroteio deixa mortos no Jacarezinho. (de repente, o tom fica eufórico) E nós fomos a primeira equipe a chegar! As imagens que vocês vão ver são exclusivas!

Escutei o monólogo enquanto passava em um trailler no fim de uma tarde. Não me atentei para o canal, mas a voz do apresentador não era totalmente desconhecida (suspeito que os apresentadores desses programas espreme-que-sai-sangue que enchem as grades das TVs brasileiras façam curso de locução em um mesmo local, tamanha a semelhança). 

Levei certo choque com o tom do apresentador, ao vibrar com a "exclusividade" da emissora na cobertura da tragédia.

Lembrei de Bourdieu, em suas ásperas críticas às práticas jornalísticas na TV, sobretudo com relação à desenfreada busca pelo furo. Mas também quando relata a recorrência no jornalismo dos fatos-ônibus.

Pensei em Kellner, que havia acabado de ler, o livro ainda em minha mochila, com suas observações sobre a cultura da mídia e seus efeitos para a conformação de certos padrões e ideologias em nossa vida social.

Recordei, ainda, com bastante carinho, das horas a fio de discussões junto a meus colegas de faculdade sobre o papel da imprensa na sociedade e sua predileção pelas notícias trágicas, sua insensibilidade nas barbáries, sua gananciosa corrida pela audiência.

As aulas de jornalismo na faculdade, ao menos aquelas boas aulas, eram sempre regadas a polêmicas e muita discussão. Em geral, era um exercício de crítica à mídia - críticas tão ácidas que acho que Benjamim, Adorno e outros teóricos de Frankfurt iriam se orgulhar.

Lembrar da faculdade foi o que me tirou da indignação que o apresentador me causou.

Entramos na faculdade, todos nós, com vontade de mudar o mundo, como é comum aos estudantes de jornalismo. Mas estávamos sedentos por descobrir as ferramentas e instrumentos necessários para fazer essa mudança, a partir de nosso "lugar" de jornalistas.

Eu me recordo de quando fomos apresentados a Foucault. Sexta-feira à noite, quinto período, Cultura das Mídias. Uma professora jovem com um texto indecifrável nas mãos. Levamos para casa, lemos, e na semana seguinte voltamos com um pedido: traduza. E parágrafo por parágrafo, a "trinta mãos", traduzimos. E dali em diante, e pela primeira e única vez em quatro anos, a sala não ficou vazia em nenhuma sexta-feira daquele semestre. 

McLuhan, apresentado alguns anos antes, também nos encantou com suas reflexões sobre as ferramentas enquanto extensão do homem. Era fascinante. Da mesma forma, entusiasmados ficamos quando o Observatório de Imprensa tornou-se material semanal de aula e as discussões geradas no programa eram reproduzidas naturalmente em sala. Ou ainda quando produzimos nosso primeiro curta-metragem profissional. Boas lembranças!

Era uma turma diferenciada, sem dúvidas. Que ensaiou uma "greve" para aquisição dos laboratórios, mas nunca conseguiu organizar um churrasco sequer durante todo o tempo de faculdade.

Os caminhos naturalmente se separaram e, quase um ano após a última aula, mantenho contato constante com poucos - ainda que fale esporadicamente com a maior parte. Alguns estão na TV, outros na rádio, em assessorias, impressos, ou ainda encontrando seu lugar no mundo.

Neste último grupo me incluo. Talvez esteja solitário até. Não estou na TV. Não estou no rádio. No impresso. Tampouco em assessoria. Quando alguém me pergunta o que estou fazendo, em geral demoro cinco minutos para tentar explicar - e não tenho certeza se a pessoa entendeu.

Estou procurando meu lugar no mundo. Descobrindo qual é o meu mundo. Às vezes acho que é mais pra lá, depois tenho certeza que é pra cá, e sigo tentando descobrir.

Sou jornalista. É o que sei e muito me orgulho. Há alguns dias, quando no cartório me perguntaram sobre qual a minha profissão, não exitei em responder. Porém, mais que isso ainda não sei. Estou descobrindo, vivendo pra descobrir, experimentando.

Quem sabe um dia eu não descubro? Se é do lado de Bonners, Barcellos, Morenos e Padrões ou do lado de Kellners, Foucaults e Benjamins. Ou talvez de lado nenhum. Do lado da Bia, apenas, porque não? 

Esse não é um momento de certezas. Para mim, é um momento de dúvidas. E, hoje, são essas dúvidas que me movem. 

Pra onde? 

Pra frente...

18/10/2011

O Palhaço

Da série meticoacritico.com:

A trupe de Selton Mello


Finalmente assisti o aclamado filme O Palhaço, escrito, dirigido e protagonizado por Selton Mello. E, de cara, faço um alerta: não espere nada demais do longa. Ele é simples. Bem simples. E por isso é encantador!

O roteiro bem construído, o elenco afinado, a direção inspirada, a fotografia belíssima, tudo é favorável ao longa, que entrou na categoria hors concours do Festival do Rio. O filme conta a história de um palhaço em crise de identidade. "Eu faço o povo rir, mas quem é que vai me fazer rir?", questiona Benjamim a certa altura, numa cena de incrível sensibilidade.

Rodado em estilo road movie, o filme diverte desde os primeiros minutos e envolve o espectador por trazer à cena pequenos dramas de um trupe circense, igual à tantas outras que ainda hoje resistem Brasil a fora. A escassez de público, as dificuldades financeiras, as trapaças, o fim que se aproxima (e inevitavelmente uma hora vai chegar), está tudo ali.

Do elenco, não há um grande destaque: Paulo José e Selton Mello emocionam e fazem rir na pele de pai e filho, o elenco de apoio está bem entrosado e as participações especiais são, todas, enriquecedoras - com destaque para Moacyr Franco, que protagoniza o que talvez seja um dos momentos mais divertidos da fita.

E se Selton Mello é apenas correto ao achar o tom certo de seu palhaço, na direção do longa ele se mostra um gigante. E brilha. Este é seu segundo filme como diretor - o primeiro, Feliz Natal, também foi bastante elogiado, mas ainda não vi - e Selton consegue imprimir uma marca bem particular à sua obra.

Quer seja pelas tomadas que captam as reações do respeitável público, pelo ritmo do filme que não cai em um segundo sequer, por alguns ângulos bem criativos ao longo dos 88 minutos ou pela feliz harmonia do elenco. Ou ainda pela belíssima cena final, gravada em um plano-sequência bem interessante, a todo momento sente-se a mão firme e segura do diretor. Como amador que sou, não são em todos os filmes que percebo a interferência do diretor na construção da narrativa. Neste, o Selton-diretor sobra em cena.

E fora o que já ressaltei,  destaca-se também a trilha sonora, que remete ao circo, como não poderia deixar de ser, mas tem boas nuances, transitando bem entre as cenas mais alegres e aqueles mais reflexivas, além de fazer uma justa homenagem à nossa música popular. Aliás, o longa é uma obra de exaltação da cultura popular e faz isso com maestria!

Enfim, um filme imperdível, por sua beleza, singeleza e por trazer a boa comédia de volta às telas do cinema nacional (depois de algumas bombas recentes). Estreia dia 28 de outubro no circuito comercial e se eu fosse você garantiria logo um lugar.


Trailer do filme


Em suma: Faço coro ao grande crítico Pablo Villaça, quando diz que o Brasil já tem seu candidato ao Oscar 2013. Acho que seria indicado tranquilamente ao prêmio de roteiro original. Ainda na briga por fotografia (belíssima), direção (inspirada) e, claro, melhor filme estrangeiro.
Parabéns ao Selton Mello. Filme simples e encantador!


14/10/2011

Tempus Fugit!


Minha vida é um brevíssimo segundo
Minha vida é um só dia que escapa e que me foge
Santa Terezinha do Menino Jesus

Todas as vezes que episódios como o ocorrido na Praça Tiradentes acontecem, me pego pensando em quanto tudo é tão estúpido. A moça acordou cedo, como todos os dias, tomou café, se despediu dos filhos, foi trabalhar. E não voltou mais. O jovem passava pela rua, talvez para ir à banca de jornais, e de repente tudo acabou.

A vida é estúpida. Um breve instante entre duas eternidades, para os crentes. Um breve vácuo entre dois nadas, creem os céticos. Breve, sob qualquer dos pontos de vista.

Por isso o "Carpe Diem", tão exaustivamente repetido que se tornou clichê, segue como uma das expressões mais fortes e verdadeiras que conheço. Viver o dia é, de fato, o grande desafio. Assim, permitam-me uma pequena reflexão - ou conjunto de clichês, como preferirem. Funciona como (auto-) exortação:


Deixemos o orgulho de lado, paremos de nos preocupar com causas insignificantes, rejeitemos a ira, o rancor, todos os sentimentos que destroem, nos livremos das amarras do preconceito, e vamos viver! Viver é também tudo isso, irão questionar. Pondero: compreendo, mas é mais que isso. E por vezes estamos nos perdendo nisso, que, se faz parte, certamente não é a razão de estarmos aqui.
Estamos aqui, e acredito cada vez mais nesta verdade, para sermos (e fazermos) felizes. O resto, já diria a presidenta, são ossos do ofício.


Gonzaguinha dizia que ela era bonita, uma doce ilusão. Einstein, que era muito para ser insignificante. João Guimarães Rosa a definia de um modo um pouco mais sofisticado: ela quer da gente é coragem! Eu sigo insistindo que ela é estúpida: mal começa, termina. Abruptamente começa, abruptamente termina. 

A escolha, como sempre, é nossa: ou vivo intensamente este segundo, ou deixo passar. E ela passa. Levantamos, vamos trabalhar, voltamos para casa. E ela passa. Lemos Foucault, estudamos quinze horas por dia, nos perdemos em nossos mestrados e doutorados. E ela passa. Viramos a noite com o trabalho que levamos para casa, levantamos cedo para ir ao jornaleiro, escolhemos a calçada da direita - a da Praça é perigosa -, passamos em frente àquele bistrô de sempre. E de repente tudo acaba.

E então, vivemos?

03/10/2011

Eu fui!

Quero ser bem sucinto porque o que menos importa aqui é o que vou falar (se estiver com o tempo curto, vá direto aos vídeos, é o melhor do post).

Aos poucos que ainda não sabem, fui ao Rock in Rio. Lembro-me do festival de 2001, dez anos atrás, que acompanhei de casa enquanto via minhas primas saírem de Vitória (ES) para curtirem do festival. Agora foi a minha vez!

E tive o prazer de assistir aqueles que estão sendo considerados dois pontos altos do festival (junto com outros sensacionais, como Metallica, Sepultura, Erasmo, Coldplay, etc.): Janelle Monáe e Stevie Wonder.

Bem, do Stevie todos já esperavam um grande show. Ele, uma entidade da música mundial, só tinha vindo ao Brasil uma única vez, há 16 anos, e é de uma qualidade musical rara. Mas o cara se superou. Pensem em um bom show. Agora multipliquem pelo número de hits que Stevie tem. Somem a quantidade de grammys que já ganhou*. Adicione 100 mil pessoas. Pronto, chegou perto.

Agora, Janelle Monáe, com todo respeito ao Stevie, foi a dona da noite. Arrebatador, assim foi o show da menina de apenas 26 anos que, de ilustre desconhecida, incendiou o público já em seu número inicial: Dance or Die (em tradução literal, Dance ou Morra). Dançamos, claro. E dançamos muito, pulamos, vibramos. Foi incrível, ao final de cada música a Cidade do Rock vinha abaixo, com palmas efusivas, gritos, vivas, uma  catarse coletiva. O show foi irretocável, pois além da voz impecável, com alcance incrível, Janelle dança, atua e até pinta (literalmente!) em cena. 

E o melhor veio no fim da noite: os dois gigantes juntos no palco. Janelle e Stevie Wonder em um dueto que certamente entra para a história do festival. Quinta-feira foi dia de música preta, bebê!

* Stevie Wonder é o maior colecionador de Grammys história, com 25 prêmios.


(a seguir, três vídeos: o primeiro de Janelle; o segundo de Stevie; o terceiro, com os dois juntos. O primeiro vídeo é bem longo, mas não deixe de ver!)

Janelle e o fim apoteótico de seu show

Stevie fez história aqui

E a noite termina perfeita, com os dois no palco

27/09/2011

Lula e a ira do andar de cima


Lula, silêncio por favor. Os da Casa Grande estão irritados.

Assim um jornalista argentino termina seu artigo sobre a posição da imprensa brasileira em relação ao título de Doutor Honoris Causa recebido por Lula essa semana. Explico: o ex-presidente foi escolhido por unanimidade para receber a homenagem pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris - o Sciences-po. O instituto é um dos mais prestigiados do mundo e em seus 140 anos já abrigou “a nata da elite francesa”, como os ex-presidentes Jacques Chirac e François Mitterrand. Apenas 15 pessoas já haviam sido contempladas com a honraria e Lula foi o primeiro latino-americano a recebê-la.

Enfim, imaginam a histeria por aqui, não é? Porque o torneiro mecânico não se contentou em ser presidente. Foi presidente, tirou 30 milhões da miséria, saiu com 80% de popularidade, se tornou prestigiado em todo o mundo. E isso irrita. Irrita porque, parafraseando-o, esse país não foi pensado para ser governado pelos que estão no andar de baixo. E quem ousa desafiar essa regra não pode ficar impune.

Em uma entrevista coletiva concedida pelo diretor do instituto, Richard Descoings, a primeira pergunta, vinda de um grande e respeitado jornal brasileiro, foi a seguinte: “Por que Lula e não Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor, para receber uma homenagem da instituição?”. Não é mentira. Está no site do jornal. A pergunta seguinte, também de jornalistas brasileiros, questionava do motivo de um prêmio entregue a alguém que se orgulhava de nunca ter lido um livro. Em seguida, no mesmo tom: “Por que premiam a um presidente que tolerou a corrupção?”. O nível continuou o mesmo e outro coleguinha brasileiro foi ao ponto, usando-se de ironia: seria essa premiação do Lula parte da política de ação afirmativa do Sciences Po?

O Brasil avançou muito nesses oito anos, mas parte da elite brasileira segue estagnada, sem ter movido um músculo, dado um passo sequer rumo à superação da pior das mazelas e misérias de uma nação, o preconceito. Separei quatro comentários de leitores à notícia da premiação de Lula. Ilustram bem o que digo. Vejam:

1 - “Gostaria de saber quanto o metalúrgico/enganador está pagando para receber "eçças" honrarias. Pois não tem outra explicação” 

2 - “O mais novo símbolo do Brasil, um jegue”

3 - “Ovacionar uma toupeira dessas, é o fim da picada”

4 - “Vou tirar o meu título da parede e deixar só o de pós-doutorado. Se até o Lula (...) é doutor, me sinto diminuído”

Não são críticas políticas, apenas. Estas são legítimas e precisam ser feitas (na dúvida, leiam meu último post). Os comentários dos leitores, as perguntas dos jornalistas, as reações em alguns círculos sociais, demonstram um ranço preconceituoso que ainda persiste e um ódio de classes longe de ser superado.

Eu tenho orgulho. Independente de posição política – ou mesmo da avaliação que se faça sobre seu governo – tenho orgulho de viver em um país que elegeu para o cargo máximo da República um retirante saído do Nordeste em pau-de-arara, torneiro mecânico e líder metalúrgico, fundador do maior partido de massas da América Latina. Isso é prova de um povo maduro, que soube que somente um dos seus poderia entender suas dores. E isso, repito, me enche de orgulho. 

Por fim, deixo o próprio Lula dar uma resposta a tanto preconceito. É uma resposta-desabafo. Esse vídeo é indispensável. Espero que vocês tenham paciência de ver até o fim. Um grande amigo, quando viu, soltou essa: “cara, sempre fiquei pensando se conseguiria explicar ao meu filho o que significou eleger o Lula presidente do Brasil. Para ele compreender a dimensão do que significa, agora já sei o que fazer: vou mostrar esse vídeo”. É exatamente isso.

(Lula fala adevogado. Fala "autoestima por si mesmo". Como alguns
devem se contorcer assistindo esse vídeo. Quem esse "anarfa" pensa que é?!)

22/09/2011

Sobre os Diferentes e os Antagônicos...


Em política, tem que se tomar cuidado com o que se diz. Agora o mais novo alvo de seu próprio palavrório é o PSOL...

Há menos de um ano, Jefferson Moura, candidato do partido ao Governo do Estado e atual presidente da sigla, criticava duramente o "ex-Gabeira", em referência ao abandono de princípios ideológicos de seu oponente, o Verde Fernando Gabeira. Ao mesmo tempo, Plínio de Arruda chamava sua adversária Marina Silva de "eco-capitalista", colocando em polos opostos suas candidaturas, no que tange à temática ambiental.

Agora estarão todos eles no mesmo palanque para tentar eleger Marcelo Freixo prefeito do Rio: Jefferson, Plínio, o ex-Gabeira e a eco-capitalista. Vão usar o mantra "unir-se aos diferentes para combater os antagônicos" tão utilizado por Lula para justificar o injustificável (Sarney, Jader e etc)?

A questão aí é: quem são os diferentes? E quem são os antagônicos? Essa separação se dá por questões programáticas ou pragmáticas? O Gabeira que era antagônico na eleição passada pode ser apenas diferente nesta? Ou nunca foi antagônico? E agora, José?

21/09/2011

Saudades de quem não conheci (por Ricardo Vieira)

Compartilho mais uma vez este espaço com meu amigo Ricardo Vieira, autor do post recordista de visualizações neste blog. Desta vez é um texto de caráter mais intimista - mas igualmente emocionante. E cá ficou eu a pensar: que apurada técnica de escrita tem esse rapaz! rs



Saudades de quem não conheci
(Ricardo Vieira)

João Carlos Vieira

Tinha meus 13, 14 anos. Na saída do colégio peguei carona com um amigo e sua mãe. Veio a tradicional pergunta: “Você é filho de quem?”. Ela não conhecia meus pais, por isso lembrei: “dizem que eu pareço muito com meu tio, que já faleceu”. Ela olhou pelo retrovisor, tomou um susto e quase parou no meio da rua. “Nossa, deu até arrepio”, “o sorriso é igual”.

Eu sei que parece. Aliás, sei disso a minha vida inteira. Ele morreu aos vinte e poucos anos, vítima de violência, e eu não tive oportunidade de conhecê-lo. Mas a sensação não é essa. Hoje, mais do que nunca, sinto saudades.

Só eu sei o orgulho e o peso dessa semelhança. Em determinado momento de sua vida, minha avó trocou definitivamente o Rico pelo Joãozinho. Poder aliviar de alguma forma a dor de uma mãe que perde um filho era reconfortante, na mesma medida que dava medo. Simplesmente por ser uma pessoa que eu nunca fui.

Para alguns, nossa semelhança vai além dos traços físicos. Boa gente, segundo todos que o conheceram, ele sempre foi uma espécie de espelho pra mim. E o reflexo sempre foi nítido.

Já com meus vinte e tantos, ainda penso em meu tio, como... tio mesmo. Ainda o imagino mais velho, ainda o respeito. O difícil é conter a curiosidade.

Quantas, e quantas vezes, não imaginei como teria sido a vida se estivesse aqui conosco? Seria meu tio preferido, seus filhos seriam meus melhores amigos, ou talvez eu pudesse ser padrinho de um deles. Quem sabe não trabalharíamos juntos? Quem sabe não jogaríamos futebol no mesmo time? Ou contra. Seria ótimo. Ele estaria lá na minha formatura. E quando os pais dele partiram, eu daria força e ele teria me dado, porque eu precisei. A família seria unida.

O sonho bom não condiz com a realidade. A verdade é que a vida não é do jeito que a gente idealiza. E se o João estivesse vivo, é pouco provável que as coisas fossem assim. A vida seria melhor, eu acredito nisso, mas da forma como eu descrevi... dificilmente. Outra verdade é que se morte chegasse precocemente pra qualquer outro parente, a sensação seria a mesma.

É mais cômodo sentir saudade de quem não está mais por aqui.

Família é família, e problemas não são exclusividade da minha. Independente deles eu torço por quem me viu crescer e cresceu comigo. Os rumos seguem sendo tomados e eu não estou aqui pra julgar ninguém. Cada um sabe onde o próprio calo aperta. Não guardo mágoa e espero - de coração - não magoar ninguém. Continuo tendo o maior respeito por cada um. Acho que seria assim que o tio João agiria.

Saudades tio, saudades família.

14/09/2011

Em 20 anos tudo pode mudar. Ou não.

Na esteira de uma ideia do portal G1, recebi por email uma sugestão do que seria a capa do site do Diário do Vale daqui a vinte anos: em 2031, portanto. É engraçado. Bem engraçado, aliás!
Apesar de não conter ofensas graves a ninguém ou à alguma entidade, optamos por publicar mantendo o anonimato. Espero que vocês gostem. Se vir alguma piada mais grosseira, que lhe afete de alguma maneira, antecipadamente peço desculpas e sugiro que pule para a próxima notícia. (lamento por meus dois ou três leitores fora de Volta Redonda. Acho que esse post só terá graça para quem vive - ou viveu - no Sul Fluminense).





P.S.: Observem os detalhes. As notícias principais, o que está em destaque é bem engraçado. Mas a imagem é fenomenal pelos pequenos detalhes, as notícias menores. Para quem acompanha o dia a dia da região, e especialmente quem está ligado no site do Diário, algumas coisas são espetaculares, como o tema do Espaço Aberto do dia, a notícia de Angra e o guarda que descobriu a cura para o Alzheimer. Enfim, se divirtam...

13/09/2011

O Cativeiro (por Eliane Brum)

Sempre quis publicar um texto da Eliane Brum neste espaço. Para quem não conhece, Eliane é uma das jornalistas mais premiadas do Brasil e posso dizer sem medo de errar que possui, hoje, o melhor texto da imprensa brasileira. Não conheço todos os jornalistas Brasil a fora, mas basta conhecer Eliane para ter certeza que é o supra-sumo da arte de narrar o cotidiano.
Atualmente, Eliane tem uma coluna semanal no site da revista Época e acabou de lançar seu primeiro livro de ficção, Uma Duas. É também documentarista e foi uma das dez jornalistas, de diferentes partes do mundo, convidadas pela ONG Médico Sem Fronteiras para escrever um livro internacional sobre os quarenta anos de atuação da entidade.
Mas tem algo mais sobre a Eliane Brum (e dessa informação só quem já teve o prazer de desfrutar de sua presença pode dizer): ela hipnotiza. É impossível sair indiferente de uma palestra sua (e já participei de duas). Você sai encantado, maravilhado, agradece a Deus mil vezes por ter escolhido ser jornalista - se é que é uma escolha. Pode parece exagero. Mas para a nossa felicidade, não é.
Enfim, escolhi esse texto porque fui um dos que mais me impactou dentre todos os que já li. Ele pode ser encontrado no livro A vida que ninguém vê, uma coletânea das melhores crônicas-reportagens publicadas na coluna de mesmo ano no jornal gaúcho Zero Hora. A obra foi vencedora do Prêmio Jabuti em 2007. E o texto que escolhi é arrasador. Espero que gostem...




O Cativeiro




O Zoológico de Sapucaia do Sul abrigou um dia um macaco chamado Alemão. Em um domingo de sol, Alemão conseguiu abrir o cadeado e escapou. Ele tinha o largo horizonte do mundo à sua espera. Tinha as árvores do bosque ao alcance de seus dedos. Tinha o vento sussurrando promessas em seus ouvidos. Alemão tinha tudo isso. Ele passara a vida tentando abrir aquele cadeado. Quando conseguiu, virou as costas. Em vez de mergulhar na liberdade, desconhecida e sem garantias, Alemão caminhou até o restaurante lotado de visitantes. Pegou uma cerveja e ficou bebericando no balcão. Os humanos fugiram apavorados.

Por que fugiram?

O macaco havia virado um homem.

O perturbador desta história real não é a semelhança entre o homem e o macaco. Tudo isso é tão velho quanto Darwin. O aterrador é que, como homem, o macaco virou as costas para a liberdade. E foi ao bar beber uma.

Um zoológico serve para muitas coisas, algumas delas edificantes. Mas um zoológico serve, principalmente, para que o homem tenha a chance de, diante da jaula do outro, certificar-se de sua liberdade. E da superioridade de sua espécie. Pode então voltar para o apartamento financiado em 15 anos satisfeito com a vida. Abrir as grades da porta contente com seu molho de chaves e se aboletar no sofá em frente à TV. Acorda na segunda-feira feliz para o batente. Feliz por ser homem. E por ser livre.

Há duas maneiras de se visitar um zoológico: com ou sem inocência. A primeira é a mais fácil. E a única com satisfação garantida. A outra pode ser uma jornada sombria para dentro do espelho. Sem glamour e também sem volta.

Acompanhe, se quiser.

O babuíno sagrado tem um nome comum. Beto. À espreita, lá onde os olhos se misturam com a mente, há o mais perigoso tipo de fúria. A da importância. Beto dá voltas e mais voltas na jaula, esmurra as grades. Atira comida e fezes nos visitantes. Espanca a companheira se ela não faz tudo o que ele quer. Não admite que emita um som sem a sua permissão. Não deixa que arrede pé sem a sua complacência. Se o faz, Beto cobre-a de tapas. Se a tiram de perto dele, Beto piora. Começa a arrancar pedaços do próprio corpo. Durante as crises, Beto toma dez miligramas de Valium por dia.

Os tigres-de-bengala são reis de fantasia. Têm voz, possuem músculos, são magníficos. Mas nascidos em cativeiro, já chegaram ao mundo sem essência. São um desejo que nunca se tornará. Adivinham as selvas úmidas da Ásia, mas nem sequer reconhecem as estrelas. Quando o sol escorrega sobre a região metropolitana, são trancafiados em furnas de pedra, claustrofóbicas. De nada servem as presas a caçadores que comem carne de cavalo abatido em frigorífico. De nada serve a sanha a quem dorme enrodilhado, exilado não do que foi, mas do que poderia ter sido. E que jamais será.

Anos atrás, um de seus bisavôs galgou a escada do tratador e espiou para além dos muros. Foi o mais longe que um deles chegou. São poderosos, os tigres-de-bengala. Mas quando chega a hora de serem confinados na caverna escura de sua escravidão, viram as costas para a Lua que aponta como promessa e marcham para a jaula. Alquebrados, submissos, como o mais vil animal da floresta.

A ursa-de-óculos é chamada de Peposa. Como se brinquedo fosse. O filho se chama Rayban, também muito engraçadinho. Quando nasceu Rayban, ela fez o que as mães costumam fazer: ensinou a ele a arte da resignação. Pegou-o pela orelha e carregou-o até as entranhas da furna na hora marcada. Hoje, Rayban vai por sua conta. Mas, todos os dias, Rayban desafia a mãe, se esgueira e testa o cadeado. Sem jamais ter aspirado o perfume gelado da cordilheira de seus ancestrais, Rayban não adivinha o que há do outro lado. Mas intui. E por ser criança ainda não desistiu de buscar.

Pinky vive só. Os outros elefantes, Nely e Mohan, caíram no fosso e sucumbiram. O fosso é a prisão dos elefantes. Mohan viveu seis anos acorrentado porque o cativeiro de sua espécie ainda não estava pronto. Quando o soltaram, durou três meses. Morreu tentando alcançar a liberdade. Ou apenas um dos cães que perambulam por lá e são achados aos pedaços. Dos três, Nely sempre foi a mais indomável. Dezenove anos atrás, matou um visitante. Um mineiro de Criciúma que comemorava a aposentadoria. Recém-liberto da solidão trevosa das minas de carvão, ele montou sobre Nely. Ela o derrubou sobre o chão e esmagou sua cabeça. Tão parecidos em sua tragédia, a elefanta e o homem.

Foram três as vezes em que Nely mergulhou no fosso. Numa delas, perdeu parte da barriga e uma mama na queda. Não desistiu. Morreu na terceira, tentando. Como nunca esquece, a elefanta Pinky assimilou o exemplo. E convenceu-se de que implacável é a punição para quem ousa dar um passo além do permitido.

A revelação dessa visita subversiva ao zoológico é que, no cativeiro, os animais se humanizam. O cárcere lhes arranca a vida, o desejo e a busca. E mais e mais vão se parecendo com os homens que os procuram na certeza de um álibi. Perigosa é a pergunta.

O que aconteceria se você encontrasse a chave do cadeado invisível de sua vida? O que aconteceria se você saltasse sobre o fosso de sua rotina? O que aconteceria se você desse o passo da elefanta?

Bem, talvez seja melhor caminhar até o balcão e beber uma.

06/09/2011

Reflexões sobre a guerra particular

Na última semana, assisti mais uma vez o ótimo documentário “Notícias de uma guerra particular”, de João Moreira Salles e Kátia Lund. O filme é um soco no estômago menos pelo que é dito e mais por quem diz. Não são estudiosos teorizando sobre a violência. São policiais, traficantes e moradores falando da guerra a partir de seus ângulos.

O documentário é direto, franco, não aponta culpados nem indica soluções. Apenas escancara uma realidade vivenciada nos morros do Rio de Janeiro a partir das falas de quem vive essa realidade, em qual lado do front esteja. Quero propor, então, algumas reflexões a partir do filme. São pequenos pontos que fui anotando enquanto assistia ao longa e gostaria de compartilhar. 

O texto está dividido em cinco pontos: Mulheres, Criminalização da Pobreza, Motivações, O Mito CV e Os Discursos. Inicialmente iria publicar este texto em partes. Fui desaconselhado. É grande, mas acho que não está cansativo. Os cinco pontos, de qualquer forma, podem ser lidos de forma independente, se não for possível lê-los de uma vez. Vamos lá:

* Por vezes serei um pouco irresponsável na utilização de termos e conceitos aqui. Os mais xiitas podem ficar bravos com o emprego de expressões como “direito de significar” ou mesmo com o uso indiscriminado da palavra “guerra”, só para ficar em dois exemplos. São questões problemáticas, admito. Eu mesmo sou crítico ao emprego do conceito de guerra para se falar do confronto entre Estado x Poder Paralelo. Mas aqui usei algumas dessas palavras/conceitos para simplificar e também reproduzi para ficar em consonância com o discurso dos personagens do filme. Espero que não fira os ouvidos (ou olhos) mais sensíveis.



1. MULHERES: salta-me aos olhos a força do feminino nas comunidades periféricas dominadas pela violência. Já havia presenciado no Borel, onde trabalho, ao ouvir os relatos das mulheres da favela tijucana. No filme, isso fica ainda mais claro. 

Quando os policiais pegam um moleque, supostamente “bandido”, são elas que vão atrás, não desgrudam dos homens de farda, para garantir que eles levem o garoto em segurança à delegacia. “Se não formos atrás, eles levam lá pra cima e matam”, relata uma. Então elas perseguem os PMs, brigam, obstruem sua passagem, xingam... encontram força sabe-se lá de onde para resistir aos arbítrios e impedir que aconteça o “mal maior”. 

Também são essas mulheres que sobem o morro correndo para impedir que seus irmãos, maridos, vizinhos sejam julgados pelo poder paralelo. Impedem a execução, clamam por justiça, conseguem evitar o pior. É impressionante. É comovente. É desafiador.


2 – CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA: o problema maior não é o tráfico, não são as drogas, não é a violência. O problema é a favela, é ela que precisa ser controlada. Ela representa o perigo, ela representa a desordem. Tem que segurar o morro.                

Logo de cara, o filme traz um dado, dito por um dos entrevistados: há estimativas de que haja 100 mil bandidos no Rio, a maioria deles em favelas. Logo mais, já pro fim do filme, uma outra fala: “São dois milhões de pessoas morando em favelas no Rio, como você controla esse povo todo?”. Há uma discrepância entre os tais 100 mil bandidos e os dois milhões de habitantes das favelas. Se todos esses supostos bandidos morarem em favelas, são apenas 5% da população. O número é infinitamente menor, acredito. Mas mesmo que seja este mesmo, são CINCO POR CENTO. 

Lembro-me de um artigo do Jailson de Souza e Silva, que até utilizei em minha monografia, em que ele citava que o número de universitários da Maré (1,67% da população em 2000) era maior que o de traficantes – apesar da comunidade ser definida, na mídia e pelo Estado, apenas como um dos redutos mais perigosos do tráfico carioca. Um tipo de discurso que interessa a quem (vamos lembrar que todo discurso tem caráter de construção social, já dizia Foucault) e serve a que interesses, a que tipo de política? A resposta vem da boca do chefe da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro na época, Hélio Luz, um dos entrevistados para o filme:         

“Nós fazemos a segurança do Estado (...) Temos que manter os excluídos sob controle. Vivemos numa sociedade injusta e a polícia garante essa sociedade injusta”, disse ele, de forma nua e crua. Nem é preciso dizer que foi exonerado pouco tempo depois...


3 - MOTIVAÇÕES: outra questão suscitada no documentário é sobre as motivações para a entrada do jovem no tráfico. É um desejo de transformação social coletiva ou apenas necessidade econômica individual? Essa questão também se fez latente nos protestos que acontecem na Inglaterra: os jovens estão nas ruas porque querem mudar a sociedade injusta ou apenas querem se incorporar à sociedade do consumo, de onde hoje são excluídos? As duas questões, distintas, apontam para um mesmo fato: a sociedade é desigual e isso acaba sendo gerador de tais movimentos, de uma forma ou de outra. Mas vamos pensar um pouco mais especificamente sobre o tráfico.            

No filme, vemos alguns dos “soldados” do tráfico reclamarem das injustiças do mundo e de como a favela é discriminada e desassistida. Acreditam que o tráfico ajuda a mudar essa realidade, ao garantir ao menos que algumas das necessidades dos moradores serão atendidas (a oferta de gás e medicação para a população são os exemplos mais clássicos). Eles estariam, desse modo, ocupando um espaço que o Poder Público não ocupa. Suprindo uma lacuna que o Estado deixou.

Por outro lado, os discursos revelam um desejo de “significar”: entram no tráfico para serem respeitados, para poderem comprar tênis da Nike, para que as garotas (do morro e do asfalto) olhem para eles, afinal “as cocotas ficam doidas quando veem um cara com arma”. Sem acesso à escola, ao mercado de trabalho formal, à “porta da frente” da sociedade do consumo, optam pela “via alternativa”.       

Não é simples pensar essa questão. Corre-se o risco de romantizar essas histórias e isso definitivamente não contribui para refletir sobre o quadro. E existe outro ponto importante que gostaria de considerar ainda neste tópico: para além das questões de mudança social nas comunidades ou ascensão econômica individual, o crescimento das facções mudou o caráter do tráfico e a guerra, outrora entre o poder paralelo e o poder “oficial” (por negligente que fosse), se transforma sobretudo numa disputa de poder, de ocupação de territórios. 

As favelas se transformam, mais que nunca, em campos de batalhas de facções rivais e os moradores são, sem dúvida, os que mais saem perdendo. E essa guerra entre facções também é um fator motivador, uma vez que ao ingressar nessa guerra, o jovem pertence a um grupo, faz parte de uma comunidade e batalha pela supremacia deste seu grupo. O Estado, para não perder o costume, se torna ainda mais ausente (é possível?) e utiliza a violência entre as facções como justificativa para não entrar nessas comunidades.        

Então, acho que as motivações para a entrada dos jovens no tráfico precisam ser vistas a partir desses três aspectos: são causas sociais, econômicas e políticas (no sentido de disputa de poder). Complexo. Bem complexo.


4 – O MITO CV: todos sabemos a história de criação do Comando Vermelho. Os presos políticos e os presos comuns que, postos num mesmo espaço, conceberam uma das principais organizações não governamentais (rs) da história recente do estado do Rio. A mistura explosiva teria resultado em lideranças com forte crítica política ao Estado e também bastante eficientes em práticas consideradas criminosas. Mas o CV cresceu, se tornou uma mega estrutura e enquanto a face “criminosa” ainda assusta a sociedade, o viés político ficou em segundo plano. Se perdeu? Acabou? Nunca houve? É, mais uma vez, romantizar a história e transformar bandidos em heróis populares?   

Não sei e nem quero entrar nessa discussão. Só se sabe que com o crescimento, a organização criou ídolos e admiradores, sobretudo entre aqueles garotos com desejo de significar, como falei acima. E o que acontece é que tudo é CV. Os garotos dizem: “Sou CV”, “CVRL”, “Vermelhooo”. Muitos sequer já chegaram perto da organização. Outros, mesmo que façam parte, nem desconfiam de como o Comando surgiu, quem eram seus líderes.

A questão é outra: ser do Comando Vermelho concede uma posição de destaque. Os garotos querem dizer que são CV, como se significasse que pertencem a uma linhagem real, são puro sangue, mangalarga. Assim como estudar na PUC ou morar no Leblon, ser Comando Vermelho concede status. Simples assim.


5 – OS DISCURSOS: me impressiona, ainda, a semelhança entre os discursos dos soldados do tráfico e os soldados da PM. Em determinada sequência do filme, o repórter pergunta: “e qual é a sensação quando você mata o ‘inimigo’?”. Primeiro o bandido: normal, às vezes tem até comemoração. Depois, o policial: é sensação de dever cumprido.              

Em uma palestra que assisti recentemente, o comandante geral das UPPs, coronel Robson, falava disso, comparando um funk proibidão ao filme Tropa de Elite (I). É cruel e revelador. Quem viu o filme (quem não viu?) vai se lembrar da cena final, em que André é considerado policial de verdade por executar, a sangue frio, o inimigo. O funk falava algo neste sentido também, não me recordo a letra. Mas é esse o espírito.           
Ambos os lados vão para a batalha vestidos com a capa da insensibilidade. Ambos acreditam estarem indo para uma guerra. Matar inimigos são apenas ossos do ofício. No caso do bandido, os inimigos são os policiais ou mesmo outros bandidos, de facções rivais. No caso do policial, os inimigos são os bandidos.               

Afinal, “homens de preto, qual é sua missão? Subir pela favela e deixar corpo no chão!”. O grito de guerra, entoado pelos de farda, também vale para os descamisados. Em meio a tantas aparentes diferenças, os dois lados do front de batalhas se igualam – e não só em seus objetivos. Nas favelas do Rio de Janeiro, nas batalhas cariocas transmitidas em forma de espetáculo mundo afora, a tragédia se dá em tons dramáticos: são pobres matando pobres. Jovens matando jovens. Preto morrendo e preto matando. Cada um sob sua farda, portando seu emblema, vai eliminando seu rival, tão oposto, tão parecido! É ou não é de fato uma grande tragédia?


(Um  agradecimento especial à titia Giovana Damaceno, que revisou esse texto e me deu coragem para publicar!)

12/08/2011

Salve a Mocidade (a primeira vez ninguém esquece)

“Quem nasce na Vila nem sequer vacila ao abraçar o samba”
Noel Rosa

Não nasci em Vila Isabel, bairro onde hoje moro. Talvez por isso vacilei ao abraçar o samba. Mas eis que em um primeiro de maio, em 2008, Beth Carvalho me trouxe à luz – e desde então o samba faz parte de mim.

O samba é meio sobrenatural. Religião, na raiz da palavra, tem a missão de “ligar”. Os homens uns aos outros, e também à transcendência. Não seria heresia dizer, portanto, que o samba também é minha religião. O pai do prazer, o filho da dor, é o grande poder transformador.

Bem, faço todo esse prólogo para explicitar um pouco do que o samba representa para mim. E sobretudo para lhes contar, logo em seguida, que no último fim de semana fui a um dos grandes templos do samba carioca: a quadra da minha amada Mocidade Independente de Padre Miguel.

(Desde 1995 sou Mocidade. Pode parecer contraditório ser fanático torcedor de uma escola de samba desde os sete anos, exaltar todos os seus hinos, saber de cor os enredos das últimas décadas, se emocionar com suas passagens pela avenida, e só me apaixonar pelo ritmo em si mais de uma década depois. E talvez seja uma contradição mesmo. Eu sou uma. Todos somos.)

Quem me conhece sabe que tipo de emoções a visita à quadra de minha escola pode me proporcionar. Acompanhe se quiser:

13:20 – Chego à estação de trem. Minha primeira

vez sobre trilhos também. A composição vai partir apenas 13h47.

13:48 – Entro no trem e sei que agora será quase uma hora de viagem ao meu destino. Até lá, ansiedade (cabe dizer que a viagem de trem daria uma crônica à parte. Deixo para a próxima).

15:00 – Peço a benção a todos os deuses do samba. Cartola e Mestre André à frente. Hora de entrar na quadra. Alô meu povão de Padre Miguel...

15:34 – Já de posse da feijoada, a primeira grande emoção: Ziriguidum 2001 entoado no palco. Na mesa à minha frente, um senhor dribla sua deficiência visual, dribla sua dificuldade em pronunciar palavras, e canta. E chora. E me arrepia.

16:00 – Ainda no palco, a banda toca sambas-enredo de várias escolas. Muitos torcedores destas escolas estão na quadra. Impossível não fazer uma analogia com o quão impensável seria executar um hino de exaltação ao Vasco em uma festa do Flamengo...

16:20 – Ouço a primeira... deixa pra lá!

16:30 – A bateria da Beija Flor chega à quadra e é reverenciada como vencedora do carnaval carioca. Impossível não fazer analogia...

17:00 – Uma família se senta na minha mesa. Dois casais, quatro Independentes. Me dizem um sincero seja bem vindo. Enfim, duas horas depois, me sinto inteiramente em casa.

17:16 – Não preciso conhecer nenhuma outra escola, nenhum outro povo, nenhum outra quadra. Não existe mais quente, estou certo!

18:10 – Estrelinha da Mocidade, a escola mirim, dá show ao som de O Grande Circo Místico. Outra lembrança inevitável: Renato Lage e tudo que ele representa para essa geração que aprendeu a gostar de carnaval (e a ser Mocidade) através da magia que ele fez na avenida. Saudades!

18:30 – E as baianas, no canto do salão, fazem sua festa, depois de terem feito bonito na cozinha. Elas e outros integrantes da escola começam a se montar. Em instantes, Mocidade entra em cena.

18:40 – Expectativa: bateria se posicionando no palco. Adrenalina alta. Lá vem a bateria da Mocidade Independente!

19:06 – A bateria já arrepia tocando Parabéns para Você, amigo. E o que veio a seguir é impossível de ser descrito. O Mestre André sempre dizia / Ninguém segura a nossa bateria / Padre Miguel é a capital / Da escola de samba que bate melhor no carnaval...

20:10 – Me despeço depois de uma hora de show da bateria nota 10. A Beija Flor se prepara para subir ao palco, encerrando a noite com chave de ouro. Mas minha noite não precisa de mais nada a uma hora dessas. O sonho já havia virado realidade. Meu batismo estava completo. Mais do que nunca, pude cantar com imensa verdade: sou Independente, sou Raiz também, sou Padre Miguel, Sou Vila Vintém...


05/08/2011

Meninos do Borel

Quando ele nasceu, a guerra já havia começado há pelo menos 15 anos. Oficialmente, ela nem existe mais. Mas o menino ainda vive a guerra, que nunca foi dele e que ele não escolheu participar.

Para os Meninos do Borel ir à Casa Branca é mais que simplesmente atravessar os poucos metros que separam as duas comunidades, vizinhas. É cruzar um muro simbólico (e, portanto, real) construído sob a lógica de uma guerra que, é importante repetir, os garotos não pediram para entrar, nem ao menos sabem seus reais motivos. Só sabem que é prudente ficar do Lado de Cá do muro.

“Vai que eles ainda estão olhando”, levanta um. “Se eu subir, vão me hostilizar”, acredita outro. “Lá são todos ‘alemão’”, sentencia um terceiro. Medo, dúvidas, temor do que existe do Lado de Lá – e de como o Lado de Cá vai reagir à travessia.

Mas alguns meninos resolveram desafiar a ordem imposta seja lá por quem. Decidiram caminhar alguns metros, cruzar as fronteiras, derrubar o muro. E então, neste processo, descobriram muitos outros muros erguidos para eles. E resolveram derrubar também.

Uma marretada e, bum!, a indiferença começa a ir para o chão. Outra marreta e colocaram o funk no último volume. Mais uma marreta e, pasme!, começaram a “invadir” um Rio de Janeiro que aparentemente não havia sido construído para eles: foram a cinemas, museus, teatros, até mesmo (olha que audácia!) pontos turísticos. Mexeram com as pessoas nas ruas, escandalizaram os mais "puros" e bradaram aos construtores e, sobretudo, aos mantenedores do mito da cidade partida: "Vocês vão ter que me engolir!"

E são tantos os muros erguidos, são tantas as marretas, são tantos os meninos... que não sei onde isso vai dar. Incendiarão a cidade? Unirão os rivais? Tomarão o poder? Não há quem saiba, afinal. Só sei que é bonito de se ver.

Em sua principal obra, Guimarães Rosa profetiza que “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Hermano Vianna, o antropólogo de sabedoria ímpar, traduz para a contemporaneidade a frase de Rosa: a periferia vai virar centro. Os meninos do Borel, mais simples, apenas desejam que essa divisão na faça mais sentido. Periferia e centro, favela e cidade, Borel e Casa Branca passem a ser a uma coisa só. Por que não?

29/07/2011

Ele não é comum (por Ricardo Vieira)

Peço licença ao meu amigo Jader Moraes para usar o espaço de seu blog. Sei que não tenho a mesma facilidade com as palavras, mas é por uma boa causa, por um bom assunto. Sei que o próprio Jader iria gostar de saber e de propagar a postura elogiável do Dedé. Espero que os visitantes daqui não se decepcionem, o Jader volta logo. Boa leitura.

Veio, viu e...

O repórter perguntou: “O que você diria para os jogadores que estão começando, para um dia chegarem a ser como você, como um vencedor?”. “Vencedor, eu? Falta muita coisa ainda”. Foi a resposta, sem nenhum tipo de arrogância, do Dedé, que aos 23 anos chega à Seleção Brasileira e que até ontem estava torcendo pelo Brasil com a camisa pirata, já que a oficial “não tinha condições de comprar”.

Na continuação da resposta, um conselho que ouviu de um ex-jogador, Élson, seu treinador nas categorias de base: “Não desperdice o seu dia, aproveite cada treinamento. Faça render”. Dedé sabe ouvir, por isso tem muito a crescer na seleção. Com Júnior Baiano (independente do que você pense dele, bagagem ele tem) também aprendeu muito, desde posicionamento até modo de agir. Baiano se esforçou pelo sucesso de Dedé. Agradecido, tomou a atitude como lição de vida, que leva e repassa para os mais novos.

Lembro-me de sua namorada dizendo que os meninos que vinham dos juniores no Vasco eram grandes amigos de Dedé. Achei curioso. Em um clube recheado de jogadores badalados como Felipe, Zé Roberto (ano passado) entre outros, o cara fica amigo da molecada? Esse é o Dedé, que o Brasil vai conhecer melhor agora. Mas os amigos do Parque das Ilhas já o conhecem há anos. São os mesmos. Desde que Dedé começou a aparecer no futebol, desde que entrou no Volta Redonda, desde que entrou na Escolinha do Nelson, desde que jogou no Sepinho (peço perdão se a grafia estiver errada) eles já estavam ali do lado dele, os mesmos amigos. Sinal de caráter.

A vida dele mudou, tenho certeza. Ele nunca me disse, mas é óbvio que mudou. Se há alguns anos ele não podia comprar a camisa da seleção, hoje se junta ao milionário esquete canarinho. Se há alguns anos ele jogava com a chuteira doada por Felipe Melo (de quem também tem muita gratidão), hoje, com papéis invertidos, agracia os meninos do Voltaço. Se há alguns anos ele era apaixonado pela menina bonita do bairro, hoje... hoje continua apaixonado. Tem em Patrícia um porto seguro. É possível notar em suas palavras que agradecem o apoio incondicional de sua namorada.

Dedé hoje virou orgulho de uma cidade com mais de 250 mil habitantes, de uma torcida com cerca de oito milhões de membros. Mas para Dona Lena (Maria Helena Vital da Silva), o pequeno Anderson (ele não se chama André) já é motivo de orgulho faz tempo. Ela comemorou cada defesa do goleiro (“bom goleiro, por sinal”, segundo o próprio) no futebol de salão. Deve ter acompanhado com angústia as idas e vindas ao Rio, quando ainda era garoto e imaturo, na sua primeira chance no Fluminense. Imagino que tenha dado colo após a primeira dispensa do Tricolor. Posso até vê-la enlouquecendo com o susto na tentativa frustrada de ir jogar no Udinese, em que Dedé, com seus 18, 19 anos, se viu sozinho e outra vez dispensado (com apenas três treinamentos) na Itália. Também vejo a raiva dela quando uma infundada acusação de indisciplina quase o tirou do Volta Redonda.

Mas posso imaginar o orgulho quando o filhão foi eleito o terceiro melhor zagueiro do Campeonato Carioca de 2009. A esperança na chegada ao Vasco. O medo de outra dispensa e sensação de dever cumprido quando o jogador se estabeleceu no clube carioca. Mas como boa mãe, felicidade mesmo deve ser quando o ‘meninão’ bate um prato de inhame, ou de quiabo, feito com todo carinho pela Dona Lena.

A trajetória, cheia de percalços, é comum no meio do futebol. Dedé não é comum. Ele não se iludiu, não se deixou levar. Tem gratidão. E aprendeu lições importantes com os erros (talvez esse seja o aspecto mais difícil de ser encontrado em um meio repleto de ‘reincidentes’).

É uma alegria e um orgulho (confesso) conhecer e poder dizer que já joguei (uma peladinha, mas tá valendo) com um jogador de seleção. Torço de coração, para que não perca a essência e que continue enchendo de orgulho a Dona Lena, a Patrícia, o Gleidson, o Joãozinho, o André, o Ricardo, a Lívia, o Felipe, o Jader...

“Vencedor, eu?”. É, você mesmo. Boa sorte

Ricardo Vieira