23/12/2011

Eu acredito em Papai Noel

De repente o telefone toca:

- Alô. Jader?
- Sim.
- Jader, é a Roberta.
- Diga, Roberta!
- Você perdeu sua carteira na Lapa?
- Perdi. 
- Então... encontraram sua carteira, acharam um cartão [de visitas] meu dentro dela, e me ligaram para te encontrar. Anota aí o número do cara. O nome dele é Mauro.

Assim começou minha semana de Natal. Era uma segunda-feira de manhã. Cerca de 72 horas antes havia perdido todos os meus documentos e cartões após sair da "festa da firma", no Circo Voador. Quem já perdeu um documento sabe o transtorno que é:  entre ir à delegacia registrar ocorrência e ligar para o banco para cancelar o cartão, reina a preocupação de que alguém pode estar naquele exato momento se passando por você. Perder a identidade é uma metáfora brutal do estado em que você se sente em momentos como este.

Mas os documentos foram parar na mão de uma jovem, a filha do Mauro. Que encaminhou ao pai. Que ligou para Roberta. E a boa nova, enfim, chegou até mim. CPF, RG, Título de Eleitor, Cartão de Débito, Cartão de Loja. Tudo de volta. Quando as esperanças já tinham ido embora. Quando eu já tinha chorado. Já tinha questionado tudo. Por conta de uma simples carteira.

E eis que apareceu o Mauro. Quem é Mauro? Um engenheiro que trabalha numa oficina de botes em uma esquina movimentada no Centro do Rio. Simples, um pouco de graxa aqui e ali, surge com a carteira nas mãos e sedento por contar suas histórias. Sim, é um homem de histórias. Daquelas comuns que de tão comuns são extraordinárias.

Mauro é um super-herói à brasileira. Conta de quando devolveu os pertences de outras doze pessoas, usando a mesma tática que utilizou para me encontrar; conta dos quatro garotos afundados no álcool que tirou da rua, mesmo "sem trabalhar com o social"; conta das lições que passou para a filha sobre honestidade e o sentido de se colocar no lugar do outro; conta até de uma fila de hospital que furou graças às suas despretensiosas benfeitorias. Um herói à brasileira, repito.

Desta vez, foi meu bom velhinho. Dele, ganhei dois presentes. O primeiro e mais óbvio, a carteira (minha Identidade de volta!). O segundo é um pouco mais subjetivo. Pode ser expresso na frase que Mauro me disse ao encerrar nossa breve conversa:

"Nós nascemos para fazer o que? Para fazer o bem e nada mais".

Podem acreditar, ainda existem homens. A bondade ainda persiste. A luta dura não flexiona o caráter. Pode acreditar, Papai  Noel existe!

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Este é meu post número 100 no blog. 100 posts, 35 meses, 259 comentários, mais de 9.000 views. Obrigado a todos vocês que passaram por aqui! Obrigado em especial ao grande amigo Ricardo Vieira, que engrandeceu este espaço com dois posts "tops de linha" (ou seriam três? rs); à titia Giovana Damaceno, com seus comentários assíduos em mais de 90% das postagens; e ao gigante Gabriel Araújo, que foi o grande impulso para que eu fizesse esse blog - nem sei se ele mesmo sabe disso, rs.
Que venham mais 100, mais 35, mais 259, mais 9.000! Feliz Natal a todos!

8 comentários:

Anônimo disse...

Muito legal Jader!Enquanto existir pessoas honestas como o Mauro existirá sempre Papai Noel.Grande abraço e um Feliz Natal!

Ricardo Vieira disse...

Adorei! Muito bom, um dos meus preferidos! Parabéns, amigo, que venham muitos outros textos. Tô na audiência!

Giovana Damaceno disse...

Por isso insisto em dizer que ainda acredito no ser humano. Apesar de tudo o que se vê por aí e que nos causa certa preguiça, há esperança!

Parabéns, Jader. Você e o Ricardo são grandes orgulhos da titia. Feliz tudo pra você!

Gabriel Araujo disse...

Haha
Que história! Dessas que valem a pena dividir com o mundo (afinal esta é a possibilidade que se tem com um blog).
Não sabia dessa minha participação. Senti orgulho (no mais natalino dos sentidos) por que seu blog é um dos MUITO BONS dentre os que existem por aí!

Fernanda Sayão disse...

Você perdeu a carteira; eu perdi o celular. Dia 23, antevéspera de natal. Meu papai noel foi um taxista.
Ok, o aparelho já não deve valer R$ 10, mas a minha conta de telefone agradeceu bastante. Ainda vale a pena acreditar...

Andressa disse...

é... sempre vale a pena acreditar! Quem foi que disse que o mundo está perdido?!
E que venham ainda mais historias!

Eliane Brum disse...

Adorei, Jader! Você é um cara muito sortudo. Perde a carteira e ganha um monte de coisas. E ainda por cima tem um amigo como o Ricardo :) Parabéns, de vez em quando vou passar por aqui. Abração

Thayra Azevedo ♥ disse...

Sempre com textos inspiradores e maravilhosos! Leio sempre seus posts, mesmo que eu não os comente.
Aproveito para desejar as maiores felicidades do mundo. Que sua estrela brilhe sempre mais... que Deus te leve aos lugares altos e que no alto ilumine cada vez mais pessoas.
Felicidades, sempre! Beijos