06/09/2011

Reflexões sobre a guerra particular

Na última semana, assisti mais uma vez o ótimo documentário “Notícias de uma guerra particular”, de João Moreira Salles e Kátia Lund. O filme é um soco no estômago menos pelo que é dito e mais por quem diz. Não são estudiosos teorizando sobre a violência. São policiais, traficantes e moradores falando da guerra a partir de seus ângulos.

O documentário é direto, franco, não aponta culpados nem indica soluções. Apenas escancara uma realidade vivenciada nos morros do Rio de Janeiro a partir das falas de quem vive essa realidade, em qual lado do front esteja. Quero propor, então, algumas reflexões a partir do filme. São pequenos pontos que fui anotando enquanto assistia ao longa e gostaria de compartilhar. 

O texto está dividido em cinco pontos: Mulheres, Criminalização da Pobreza, Motivações, O Mito CV e Os Discursos. Inicialmente iria publicar este texto em partes. Fui desaconselhado. É grande, mas acho que não está cansativo. Os cinco pontos, de qualquer forma, podem ser lidos de forma independente, se não for possível lê-los de uma vez. Vamos lá:

* Por vezes serei um pouco irresponsável na utilização de termos e conceitos aqui. Os mais xiitas podem ficar bravos com o emprego de expressões como “direito de significar” ou mesmo com o uso indiscriminado da palavra “guerra”, só para ficar em dois exemplos. São questões problemáticas, admito. Eu mesmo sou crítico ao emprego do conceito de guerra para se falar do confronto entre Estado x Poder Paralelo. Mas aqui usei algumas dessas palavras/conceitos para simplificar e também reproduzi para ficar em consonância com o discurso dos personagens do filme. Espero que não fira os ouvidos (ou olhos) mais sensíveis.



1. MULHERES: salta-me aos olhos a força do feminino nas comunidades periféricas dominadas pela violência. Já havia presenciado no Borel, onde trabalho, ao ouvir os relatos das mulheres da favela tijucana. No filme, isso fica ainda mais claro. 

Quando os policiais pegam um moleque, supostamente “bandido”, são elas que vão atrás, não desgrudam dos homens de farda, para garantir que eles levem o garoto em segurança à delegacia. “Se não formos atrás, eles levam lá pra cima e matam”, relata uma. Então elas perseguem os PMs, brigam, obstruem sua passagem, xingam... encontram força sabe-se lá de onde para resistir aos arbítrios e impedir que aconteça o “mal maior”. 

Também são essas mulheres que sobem o morro correndo para impedir que seus irmãos, maridos, vizinhos sejam julgados pelo poder paralelo. Impedem a execução, clamam por justiça, conseguem evitar o pior. É impressionante. É comovente. É desafiador.


2 – CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA: o problema maior não é o tráfico, não são as drogas, não é a violência. O problema é a favela, é ela que precisa ser controlada. Ela representa o perigo, ela representa a desordem. Tem que segurar o morro.                

Logo de cara, o filme traz um dado, dito por um dos entrevistados: há estimativas de que haja 100 mil bandidos no Rio, a maioria deles em favelas. Logo mais, já pro fim do filme, uma outra fala: “São dois milhões de pessoas morando em favelas no Rio, como você controla esse povo todo?”. Há uma discrepância entre os tais 100 mil bandidos e os dois milhões de habitantes das favelas. Se todos esses supostos bandidos morarem em favelas, são apenas 5% da população. O número é infinitamente menor, acredito. Mas mesmo que seja este mesmo, são CINCO POR CENTO. 

Lembro-me de um artigo do Jailson de Souza e Silva, que até utilizei em minha monografia, em que ele citava que o número de universitários da Maré (1,67% da população em 2000) era maior que o de traficantes – apesar da comunidade ser definida, na mídia e pelo Estado, apenas como um dos redutos mais perigosos do tráfico carioca. Um tipo de discurso que interessa a quem (vamos lembrar que todo discurso tem caráter de construção social, já dizia Foucault) e serve a que interesses, a que tipo de política? A resposta vem da boca do chefe da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro na época, Hélio Luz, um dos entrevistados para o filme:         

“Nós fazemos a segurança do Estado (...) Temos que manter os excluídos sob controle. Vivemos numa sociedade injusta e a polícia garante essa sociedade injusta”, disse ele, de forma nua e crua. Nem é preciso dizer que foi exonerado pouco tempo depois...


3 - MOTIVAÇÕES: outra questão suscitada no documentário é sobre as motivações para a entrada do jovem no tráfico. É um desejo de transformação social coletiva ou apenas necessidade econômica individual? Essa questão também se fez latente nos protestos que acontecem na Inglaterra: os jovens estão nas ruas porque querem mudar a sociedade injusta ou apenas querem se incorporar à sociedade do consumo, de onde hoje são excluídos? As duas questões, distintas, apontam para um mesmo fato: a sociedade é desigual e isso acaba sendo gerador de tais movimentos, de uma forma ou de outra. Mas vamos pensar um pouco mais especificamente sobre o tráfico.            

No filme, vemos alguns dos “soldados” do tráfico reclamarem das injustiças do mundo e de como a favela é discriminada e desassistida. Acreditam que o tráfico ajuda a mudar essa realidade, ao garantir ao menos que algumas das necessidades dos moradores serão atendidas (a oferta de gás e medicação para a população são os exemplos mais clássicos). Eles estariam, desse modo, ocupando um espaço que o Poder Público não ocupa. Suprindo uma lacuna que o Estado deixou.

Por outro lado, os discursos revelam um desejo de “significar”: entram no tráfico para serem respeitados, para poderem comprar tênis da Nike, para que as garotas (do morro e do asfalto) olhem para eles, afinal “as cocotas ficam doidas quando veem um cara com arma”. Sem acesso à escola, ao mercado de trabalho formal, à “porta da frente” da sociedade do consumo, optam pela “via alternativa”.       

Não é simples pensar essa questão. Corre-se o risco de romantizar essas histórias e isso definitivamente não contribui para refletir sobre o quadro. E existe outro ponto importante que gostaria de considerar ainda neste tópico: para além das questões de mudança social nas comunidades ou ascensão econômica individual, o crescimento das facções mudou o caráter do tráfico e a guerra, outrora entre o poder paralelo e o poder “oficial” (por negligente que fosse), se transforma sobretudo numa disputa de poder, de ocupação de territórios. 

As favelas se transformam, mais que nunca, em campos de batalhas de facções rivais e os moradores são, sem dúvida, os que mais saem perdendo. E essa guerra entre facções também é um fator motivador, uma vez que ao ingressar nessa guerra, o jovem pertence a um grupo, faz parte de uma comunidade e batalha pela supremacia deste seu grupo. O Estado, para não perder o costume, se torna ainda mais ausente (é possível?) e utiliza a violência entre as facções como justificativa para não entrar nessas comunidades.        

Então, acho que as motivações para a entrada dos jovens no tráfico precisam ser vistas a partir desses três aspectos: são causas sociais, econômicas e políticas (no sentido de disputa de poder). Complexo. Bem complexo.


4 – O MITO CV: todos sabemos a história de criação do Comando Vermelho. Os presos políticos e os presos comuns que, postos num mesmo espaço, conceberam uma das principais organizações não governamentais (rs) da história recente do estado do Rio. A mistura explosiva teria resultado em lideranças com forte crítica política ao Estado e também bastante eficientes em práticas consideradas criminosas. Mas o CV cresceu, se tornou uma mega estrutura e enquanto a face “criminosa” ainda assusta a sociedade, o viés político ficou em segundo plano. Se perdeu? Acabou? Nunca houve? É, mais uma vez, romantizar a história e transformar bandidos em heróis populares?   

Não sei e nem quero entrar nessa discussão. Só se sabe que com o crescimento, a organização criou ídolos e admiradores, sobretudo entre aqueles garotos com desejo de significar, como falei acima. E o que acontece é que tudo é CV. Os garotos dizem: “Sou CV”, “CVRL”, “Vermelhooo”. Muitos sequer já chegaram perto da organização. Outros, mesmo que façam parte, nem desconfiam de como o Comando surgiu, quem eram seus líderes.

A questão é outra: ser do Comando Vermelho concede uma posição de destaque. Os garotos querem dizer que são CV, como se significasse que pertencem a uma linhagem real, são puro sangue, mangalarga. Assim como estudar na PUC ou morar no Leblon, ser Comando Vermelho concede status. Simples assim.


5 – OS DISCURSOS: me impressiona, ainda, a semelhança entre os discursos dos soldados do tráfico e os soldados da PM. Em determinada sequência do filme, o repórter pergunta: “e qual é a sensação quando você mata o ‘inimigo’?”. Primeiro o bandido: normal, às vezes tem até comemoração. Depois, o policial: é sensação de dever cumprido.              

Em uma palestra que assisti recentemente, o comandante geral das UPPs, coronel Robson, falava disso, comparando um funk proibidão ao filme Tropa de Elite (I). É cruel e revelador. Quem viu o filme (quem não viu?) vai se lembrar da cena final, em que André é considerado policial de verdade por executar, a sangue frio, o inimigo. O funk falava algo neste sentido também, não me recordo a letra. Mas é esse o espírito.           
Ambos os lados vão para a batalha vestidos com a capa da insensibilidade. Ambos acreditam estarem indo para uma guerra. Matar inimigos são apenas ossos do ofício. No caso do bandido, os inimigos são os policiais ou mesmo outros bandidos, de facções rivais. No caso do policial, os inimigos são os bandidos.               

Afinal, “homens de preto, qual é sua missão? Subir pela favela e deixar corpo no chão!”. O grito de guerra, entoado pelos de farda, também vale para os descamisados. Em meio a tantas aparentes diferenças, os dois lados do front de batalhas se igualam – e não só em seus objetivos. Nas favelas do Rio de Janeiro, nas batalhas cariocas transmitidas em forma de espetáculo mundo afora, a tragédia se dá em tons dramáticos: são pobres matando pobres. Jovens matando jovens. Preto morrendo e preto matando. Cada um sob sua farda, portando seu emblema, vai eliminando seu rival, tão oposto, tão parecido! É ou não é de fato uma grande tragédia?


(Um  agradecimento especial à titia Giovana Damaceno, que revisou esse texto e me deu coragem para publicar!)

4 comentários:

Anônimo disse...

Pelo amor de Deus, de coração, não entenda como uma crítica. O texto dá gosto de ler e é uma discussão muito válida. Mas vendo isso tudo, amigo, fica uma sensação de mais do mesmo do cacete.
Cético, duvido ver alguma mudança, só exposições diferentes do problema. Esperançoso, torço pra você dizer que estou enganado.
Abraço e parabéns. Ricardo.

Jader Moraes disse...

Ricardo (não sei com qual Ricardo estou falando, mas desconfio, rs), realmente não tem nenhuma proposição colocada no texto, que não tem intenção de propor mudanças ou intervenções.
Talvez eu peque por isso. São apenas reflexões. Nada mais que isso, reflexões e inquietações que estiveram em ebulição enquanto assistia o longa e coloquei no papel - na tela, aliás.
Mas valeu pela provocação. "Reflexões sobre a guerra particular - Parte II", vamos construir?

Gabriel Araujo disse...

Deixa eu dar um pitaco? Acho que o Ricardo quis dizer que O FILME é mais do mesmo... tudo o que voce disse foi uma "descrição opinativa" (rs) do filme e realmente "não tem intenção de propor mudanças ou intervenções... Ao mesmo tempo acredito que o simples fato de expor o problema já é válido, tanto o filme (não assisti mas imagino que seja bom) quanto o seu texto cumprem esse papel.. afinal países que "resolveram" seus problemaas de segurança não esconderam o que acontecia. muito pelo contrário, mostraram como forma de conscientizar e hoje em dia a consciencia coletiva mudou os costumes. (um dos países do qual estou falando é a suécia onde a consciencia dos moradores é algo de impressionar, chega a ser até meio chato rsrs)

Giovana Damaceno disse...

Bom, os pitacos que deveria dar já os dei quando da revisão do texto. Só gostaria de opinar quanto à proposição e reflexão. O texto, pelo que observei desde sempre é de reflexão. O próprio títuli define isos. E precisamos muito refletir nesta e em N outras questões sociais que estão pipocando abaixo do nosso nariz e que a gente apenas assiste, como a namoradeira da janela. Quem sabe se refletirmos conseguimos sair da zona de conforto de observadores reclamões? Beijo, Jader, e parabéns!