24/07/2011

Coadjuvante de luxo

Juro solenemente que não pretendo fazer nada de bom

Sinto que, para falar deste assunto, preciso começar do começo. Mas prometo ser o mais breve quanto possível, afinal isso aqui é um blog. Por mais que o tema mereça, não posso escrever aqui um tratado.

Aconteceu no fim do ano 2000 (ou seria no início de 2001?). O fato é que aos doze anos recebi o primeiro exemplar. Incentivado por uma prima, comecei a me aventurar pela leitura de meu primeiro livro. E gostei.

O segundo, lido pouco depois, também me agradou – não tanto quanto o primeiro, deve confessar. E então veio o terceiro, com todas as suas nuances, suas surpresas, seus viratempos. Aí, sim, nasceu o fascínio.

Hoje, dez anos depois de abrir a primeira página de Harry Potter, sinto-me na obrigação de narrar um pouco da aventura de assistir seu “último capítulo”. Mais que isso: de fazer um registro do quão importante a série criada por Joanne Kathleen Rowling foi para mim.

Sou da geração que cresceu junto com as obras. Livro por livro, ano por ano, filme por filme, os mesmos dilemas, as mesmas angústias. Não sei se há precedentes na história literária, ou se um dia haverá fenômeno parecido.

Para você, que agora me lê, talvez isso faça pouco sentido. É só um livro, dizem alguns. Um livro infantil, constatam outros. Com um universo completamente frágil, finaliza orgulhoso um terceiro. E talvez seja mesmo tudo isso. Mas não é apenas isso.

Nestes últimos meses, estudiosos têm reconhecido a série como um fenômeno cultural, o que me deixa muito feliz por colocar a obra de Rowling em seu devido lugar. Tal qual os Beatles ou os Hippies ajudam a entender suas gerações, entender HP pode nos dar uma pista sobre a sociedade contemporânea e os valores cultivados pelos jovens desta geração. São os especialistas que dizem, não eu.

O que eu digo apenas é que, num plano muito mais pessoal, sei o que HP representa para mim (e desconfio sobre o que ele queira dizer para uma geração).

Como eu, creio que muitos tomaram gosto pela leitura a partir de J. K. Rowling[1]. Aprendemos com Dumbledore algumas das lições que foram importantes para momentos-chave de nossas vidas[2]. Mergulhamos em algumas culturas e filosofias apreendidas de diversas partes do mundo[3]. Entendemos, desde cedo, o quão destrutivos podem ser sentimentos como o preconceito e a intolerância[4]. Reforçamos, por fim, aquela crença que já havia sido pregada por Jesus, Gandhi, Che, Francisco de Assis e tantos outros: a verdadeira revolução, o sentimento mais nobre, aquilo que realmente pode salvar o mundo... é o amor[5].

Assistir o oitavo filme de Harry Potter significou o fim de um ciclo. Um ciclo em que me tornei uma pessoa melhor. Não por causa dos livros, claro. Por causa da minha mãe, dos meus amigos de faculdade, de tantas obras que li depois de HP, das missas, da Bia, das minhas vivências profissionais, de meus relacionamentos e de uma porção de outras coisas que não cabem aqui (já disse, é um post, não um tratado).

Mas sei que HP tem uma posição destacada neste acúmulo de experiências que vivi nos últimos dez anos. Se não foi protagonista das minhas mudanças (este papel não abro mão de ser executado por mim mesmo), foi ao menos um coadjuvante de luxo. Daqueles que às vezes roubam a cena e dão mais emoção ao filme, fazendo com que ele valha um pouco mais a pena. Um coadjuvante, enfim, que faz toda a diferença.

Acho que é bem capaz de você ter chegado ao fim do texto (agora sim quase um tratado) sem ter realmente entendido o que significa HP pra mim. Lamento que minhas palavras não sejam tão mágicas quanto as de Joanne – e até aceito que continue achando que se trata apenas de “um livro infantil com universo extremamente frágil”.

No entanto, aos poucos dos meus leitores que vão me entender plenamente, aqueles que também reviram sua adolescência ao findar dos créditos de HP7-2, que se emocionaram com cada diálogo da última película, só gostaria de dizer algo: somos privilegiados! Uma geração que desperta para o mundo através da leitura tem o mundo nas mãos. Parabéns a todos. Obrigado Joanne Kathleen Rowling. Palavras são uma inesgotável fonte de magia.

Mal feito, feito.



Para os trouxas, essse texto chegou ao fim
(se você não entendeu ou sentiu alguma ofensa pela palavra ‘trouxa’ ali em cima, acho que não vai querer ler. Para quem estiver interessado, resolvi aprofundar algumas questões sinalizadas no texto).

[1] Harry Potter foi o primeiro livro da vida de mais de 80% de deus leitores. Eu faço parte desta estatística, embora na escola sempre tenha gostado de ler e escrever (principalmente).

[2] Através de Dumbledore, J.K. inseriu um pouco da ‘filosofia’ que rege a série. Listei aqui uma série de frases, que em sequência podem parecer apenas uma sequência de clichês. Mas são lições valiosas, sobretudo para quem está em um período de formação, no início da adolescência e juventude. Veja só: “Em breve nós teremos que escolher entre o que é facil e o que é certo”; “São as nossas escolhas, Harry, que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades”; “Não faz diferença quem a pessoa é ao nascer, mas o que ela vai ser ao crescer”; “Não vale a pena mergulhar nos sonhos e esquecer de viver”; “A verdade é uma coisa bela e terrível, por isso deve ser tratada com grande cautela”; “Você acha que os mortos que amamos realmente nos deixam?”; “A indiferença e o abandono muitas vezes causam mais danos do que a aversão direta”; “Você não está entendendo? O próprio Voldemort criou seu pior inimigo, como fazem os tiranos em todo o mundo! Você tem ideia do medo que os tiranos sentem do povo que eles oprimem? Todos eles percebem que, um dia, entre suas muitas vítimas, com certeza haverá uma que rebelará e revidará!”; e minha preferida: “[É real ou está acontecendo apenas em minha mente?] Claro que isso está acontecendo em sua mente, Harry, mas por que isto significaria que não é real?”

[3] Um dos grandes segredos de HP foi a capacidade de JK trazer para os livros aspectos relevantes de diversas culturas diferentes. À uma fabula já conhecida (a base da história de Harry não é absolutamente nova), ela adicionou detalhes que dialogam com culturas de todas as partes do globo – e à despeito de uma crítica voraz de certos setores cristãos, não é preciso muito aprofundamento para perceber que a autora claramente permeia a série de valores e metáforas do cristianismo, especialmente no desfecho da saga.

[4] Os livros têm teor político muito forte. Sobretudo a partir do quinto, quando a trama fica mais adulta, e o regime de Voldemort se aproxima cada vez mais do nazismo. O vilão é o próprio Adolf Hitler e sua crença na supremacia dos sangues-puros está em paralelo com as teorias sobre a “raça ariana”. A sua derrota, no fim, representa a derrota de regimes totalitários, dos fundamentalismos e intolerâncias. HP aponta para a diversidade, para a convivência harmoniosa entre os diferentes, e essa talvez seja uma das lições mais valiosas da série.

[5] Porque a lição mais forte, sem dúvida, é sobre o poder do amor. Sobre como o amor é a ferramenta mais poderosa. Harry, ainda bebê, sobrevive graças ao amor de sua mãe, que dá sua vida por ele. Voldemort (o mal) é destruído por esse mesmo amor. É o amor que impede o vilão de tocar Harry. É o amor pelos amigos que impede o herói de ser possuído. É o amor pelo filho que faz outra mãe (Narcisa) salvar mais uma vez a vida de Harry. É o amor, mais uma vez, a grande diferença entre o herói e o vilão, aquele que nunca amou ou foi amado. Na batalha final, é o amor que vence o mal, enfim. De volta à Dumbledore, ele reitera a todo tempo: “Você está protegido por sua capacidade de amar” ou ainda “Não tenha pena dos mortos, Harry. Tenha pena dos vivos e, acima de tudo, daqueles que vivem sem amor”.Já havia feito um post aqui no blog sobre a “Revolução do Amor”. Acredito mesmo que este é o sentimento e a prática mais revolucionária entre todas. E agora talvez deva incluir HP na lista daqueles personagens que tão bem fizeram ao mundo ao pregar esta revolução.

5 comentários:

Tássila Maia disse...

Eu te entendo Jader!! haushuahsua tb cresci com HP e é uma coisa mto gratificante ter experimentado essa magia dos livros... ainda nao vi o filme... estou ansiosa!!

Anônimo disse...

Dá gosto de ler, companheiro. Por isso que você é um potter-miguxo! Abração!

c i n t i a disse...

Peeerfect!!!
Já fiz um post parecido há um tempo atrás, mas o meu virou um tratado... rsrrs!

Fiquei em dúvida sobre sua explicação no n. [5]. Vc diz que "É o amor pelo filho que faz outra mãe (Belatriz) salvar mais uma vez a vida de Harry" mas não verdade não seria Narcisa Black Malfoy que salvou a vida de Harry? (Ela queria saber se seu filho, Draco, estava vivo e em troca deixaria ele ali, fingindo-se de morto).

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Se quiser ler a minha postagem, taí:
http://blogdasibucs.blogspot.com/2007/12/ando-muito-potteriana-ultimamente.html

Jader Moraes disse...

Putz... troquei a Narcisa pela Belatriz, é verdade!
Valeu pela correção, Cíntia! rs

Giovana Damaceno disse...

Vivi um pouco de HP por conta do meu filho e foi uma das melhores aventuras que ele me levou a curtir.
Dumbledore é meu personagem favorito - se é que é possível favoritar alguém da saga. Mas a sabedoria dele é notável e me levou, mesmo adulta, a muitas reflexões.
Parabéns pelo texto, Jader. É uma excelente avaliação do conjunto da obra de JK. Estou recomendando a amigos.
Beijos da titia que muito se orgulha.