01/12/2011

Então é... carnaval?!

(Trecho atualizado no fim do texto)

Eu na Sapucaí em 2008

Enquanto os Jingle Bells e as canções natalinas de Simone embalam o fim de ano nestas terras tupiniquins, é outro som tem rodado à exaustão na minha vitrola ultimamente: samba. Sambas-enredo do Carnaval Carioca de 2012, para ser exato.

Os que rotineiramente acompanham este blog sabem o quanto gosto de carnaval. Antes mesmo de me apaixonar pelo samba, já era fã da festa momesca em seu estilo mais tradicional. Acompanho os desfiles das agremiações cariocas desde cedo. Lembro com perfeição do título de minha amada Mocidade Independente de Padre Miguel em 1996, quando ainda tinha oito anos. Da alegoria que me fascinou com Adão e Eva da forma com que vieram ao mundo, do samba (ah, o samba!) que proclamava que a Mocidade seria a bomba a explodir naquele carnaval para levantar nosso astral.

Desde aí, acompanho com bastante atenção o carnaval. Xinguei a Viradouro por ter roubado (com méritos!) o bi da Mocidade em 97; me encantei com os sapos que abriam passagem um grande Villa Lobos em Padre Miguel; vaiei a Imperatriz, como toda a Sapucaí, por seu "desfile técnico" que a levou ao tricampeonato; deslumbrado, assisti ao magnífico Grande Circo Místico e a posterior saída do mestre e ídolo Renato Lage - e no meio disso, uma arrasadora e iluminada Mangueira, que invadiu o Nordeste, cabra da peste; vibrei com Paulo Barros e sua ousada irreverência; chorei pela decadência da minha escola; lamentei por cada segundo perdido pelo Salgueiro que fazia um desfile magnânimo exaltando o cinema nacional; e assisti, enfim, o maior espetáculo da Terra duas vezes ao vivo: 2008 e 2009.

E a todos esses momentos, inesquecíveis para mim, tenho certeza, de antemão, que em breve se juntará outro: espero que todos reservem as noites de 19 e 20 de fevereiro em seus calendários pois está para vir o maior carnaval dos últimos (muitos) anos na Sapucaí. Anotem o que digo. E justifico:



Marquês de Sapucaí: a casa do show

Tenho para mim que este ano a Beija-Flor venceu a disputa, com justiça, não apenas por seus próprios méritos, mas sobretudo pela falta de qualquer outro concorrente. A única agremiação que poderia desbancá-la era o Salgueiro. Mas aconteceu aquela tragédia. Além a União da Ilha, que fez o melhor desfile de 2011, mas não disputou o campeonato por conta da outra tragédia (esta maior) que se abateu na Cidade do Samba.

Em 2012, será diferente. O conjunto de enredos enredos é muito bom. Acima da média dos últimos dez anos. Dos últimos vinte, talvez. A exceção certamente está com a Porto da Pedra, eterna candidata ao Acesso, por razões que misturam preconceito e pouca força política, mas que esse ano faz jus a esse seu destino sempre premeditado. As demais, com louvor maior aqui ou ali, prometem: a coroação do Rei do Sertão pela Tijuca; o Cordel Branco e Encarnado do Salgueiro; o Canto Livre de Angola, entoado pela Vila; a deliciosa aventura musical da São Clemente; o "amado" Jorge e o "cândido" Portinari de Imperatriz e Mocidade; e a Portela, que certamente levará o Povo na Rua a cantar as Festas da Bahia. 

Logo do enredo do Salgueiro: nível altíssimo

Enfim, acho que as escolas começam a conciliar a busca pelo patrocínio que viabilize apresentações grandiosas, neste grande espetáculo midiático e comercial que o carnaval também se tornou, e enredos à altura da festa. Todas as escolas contarão com algum tipo de patrocínio. Hoje isso é imprescindível. Mas não venderam seu corpo (ou sua alma) pelos milhões dos patrocinadores. Souberam garantir a verba e também algo autoral e criativo em seu carnaval. Um bom exemplo é a União da Ilha. Vai receber um gordo patrocínio do governo inglês para falar sobre Londres, sede das Olimpíadas de 2012, mas Alex de Souza conseguiu desenvolver um enredo muito bom, intitulado "De Londres ao Rio: Era uma vez... uma Ilha", um convite para que botemos molho inglês na feijoada, misturaremos chá com cachaça. Divertidíssimo. Carnavalesco!

Outra questão é que as escolas perceberam, enfim, que quanto mais "comunidade" houver na pista, mais grandioso será o desfile - e isso devemos à Beija-Flor, que foi megacampeã nos últimos anos com 80% de seus componentes oriundos de Nilópolis e poucas alas postas à venda comercialmente (segundo Laíla, o sonho é um dia fazer um desfile 100% comunidade). Assim, as escolas buscam patrocínio, hoje, para viabilizar o máximo de fantasias possíveis para a comunidade. Isso dá força ao desfile. Então, ao mesmo tempo que se vê uma elitização nas arquibancadas, na pista o efeito é inverso. Recentemente, já houve uma onda muito forte de gringos e "estrangeiros" na avenida, hoje o cenário começa a se reverter.

Em resumo: o patrocínio, que outrora foi temido pela possibilidade de descaracterizar o carnaval (e esse era um risco real), hoje acabou se tornando um mecanismo para que a escola leve sua comunidade para a avenida. Não porque o presidente da escola seja bonzinho e ame sua comunidade. Mas porque descobriu que esse é um caminho para a vitória (é só ver quantos pontos foram perdidos nos últimos anos em evolução e harmonia, por exemplo). As escolas estão aprendendo a lidar com o sucesso comercial do carnaval. Demoraram, mas estão aprendendo. E isso é bom para nós.


Ao lado de André Diniz, Arlindo venceu com uma obra-prima na Vila

Sobretudo para nós amantes do samba. E é justamente neste quesito que o desfile do ano que vem reserva as melhores emoções. A safra de sambas-enredo de 2012 é sensacional. É isso mesmo: sensacional. Os sambas, em sua maioria, são muito bons, sendo que há pelo menos duas obras-primas. Os bons enredos desencadearam em excelentes sambas. No CD oficial tem uma sequencia, da faixa 3 à 7, que é de tirar o fôlego (e digo isso prematuramente, porque ainda não me apaixonei pelo samba da Imperatriz, a faixa 8, que todos dizem ser muito bom).

Vila Isabel e Portela têm os melhores sambas em disparado. O da Vila toca fundo, é vibrante, evoca à negra vocação de nossa alma, tem um contracanto estupendo, uma melodia muito gostosa e letra irrepreensível. Já o da Portela talvez seja o melhor samba dos últimos dez anos. É uma poesia, tem uma forma muito particular, três refrões, lembra os grandes sambas das eras de ouro do carnaval. 

Mas outros sambas também são ótimos, ainda que um degrau abaixo: Salgueiro, Mangueira, Mocidade e,  minha maior surpresa, a São Clemente, que possui um refrão-chiclete, vivo, pra cima, a cara da escola, com um "bububu no bobobó" que certamente vai levantar a avenida. Tem ainda Unidos da Tijuca, Beija Flor, Imperatriz e União da Ilha, todos com bons sambas. Grande Rio foi a que mais decepcionou e Porto da Pedra, repito, está lá embaixo - com um enredo medíocre, os compositores tiveram que se esforçar muito para produzirem algo que está abaixo da média. Renascer de Jacarepaguá fecha a lista com um samba normal, mas bom. 

Destaque para a gravação do samba da Mangueira - que os mais xiitas não gostaram - por ter um forte apelo comercial e poder significar a volta do samba-enredo para as paradas de sucesso das rádios. 


Primeiras fantasias de Louzada na Mocidade entusiasmam

Outro destaque é minha Mocidade, que vai surpreender em 2012 (podem anotar também!). Padre Miguel tem seu melhor carnavalesco desde a saída de Renato Lage, o único dentre todos que passaram - e tenho maior respeito por Chico Spinoza - que realmente tem cacife e se situa no time dos grande carnavalescos contemporâneos. Foi campeão pela Mangueira, campeão pela Vila e campeoníssimo liderando a Comissão de Carnaval da Beija-Flor por três anos. Este ano, também venceu na Vai-Vai, em São Paulo. Desenvolveu um enredo belíssimo sobre Portinari, as fantasias comerciais, postas à venda, estão lindas, e tem um samba super inspirado de Diego Nicolau a seu favor. Minha aposta: Mocidade volta no Sábado das Campeãs. Entre as três primeiras.

Para um amante do carnaval, acho que 2012 será realmente um ano de ouro. A Sapucaí também está ganhando nova cara e mais 13 mil pessoas assistirão aos desfiles depois da reforma, com o desenho inicialmente pensado por Niemeyer sendo respeitado. O carnaval só tem a ganhar com isso. A "nova Sapucaí" vai estrear em grande estilo, em ano inesquecível.

Isso não é fechar os olhos para o muito que falta para termos o carnaval dos sonhos: mais respeito dos empresários e dirigentes com os fazedores da festa - artistas, profissionais, comunidades; maior popularização dos ingressos para que o povo tenha acesso ao desfile; ajustes na transmissão pela TV, que fica aquém do que o espetáculo produz; etc. Apenas, apesar de tudo isso, nutro esperanças e expectativas para o ano que começa. 

Que os deuses do carnaval permitam que Assim Seja.


A grande vedete do carnaval 2012: o samba da Portela.


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Atualização - 17 de fevereiro


Semana de carnaval, véspera dos desfiles, já tenho alguns palpites que gostaria de compartilhar. O primeiro: Vila Isabel e Salgueiro são minhas favoritas para o carnaval deste ano. Ambas as escolas tem enredos ótimos, dois dos melhores carnavalescos de todos os tempos e uma comunidade vibrante (a Vila, por exemplo, distribui todas as suas fantasias para a comunidade). O ponto de desequilíbrio para a escola de Noel é o samba, que como eu disse é magistral. Mas o do Salgueiro também é bom. 


Tenho também que rever minha posição sobre a Mocidade. Não retiro nada do que disse sobre Louzada, a riqueza do enredo, a beleza do samba. Mas a verdade é que minha querida Verde e Branco ficou dez anos parada no tempo, estacionou. Então tem que correr muito para chegar às que hoje estão no primeiro time. Este ano, acredito, é o do ressurgimento, a escola vai fazer bonito na avenida, emocionar. Disputa uma volta nas campeãs, mas entre os três primeiros acho que foi uma previsão otimista demais. De qualquer forma, há de se registrar: como disse o filho do artista, é muito corajoso a Mocidade bancar um enredo sobre Portinari mesmo sem patrocínio. Dá orgulho!


Outra aposta continua a mesma: o carnaval este ano será o melhor dos últimos anos. O mais disputado, o mais alegre, o mais cultural, o mais Carnaval. Nas ruas e na avenida. Eu vou botar meu bloco na rua. Vem?


5 comentários:

Gabriel Araujo disse...

"Batuque o coração que a gente é carnaval"

Arrepiou o coração do "sambador" (sambista amador) a parte das memórias carnavalescas...

Daniel Rangel disse...

Salve, salve o Carnaval do Rio! Salve, salve a Mocidade! Belíssimo texto Jader!

Obs.: O abre-alas de 1996 da Mocidade foi o da Criação (as mãos de Deus criando o universo). O carro do adão e eva era o terceiro, vindo depois do carro da "fauna e flora"...

Jader Moraes disse...

Falha minha, Daniel, rs.

Corrigido!

André Pinheiro disse...

Grande Jader!!!

Ainda não ouvi o CD com os sambas do ano que vem, mas ouvi o da Viradouro (Grupo de Acesso) e gostei muito. Gostei porque fala de Nelson Rodrigues e Fluminense, mas porque o samba também tem qualidade tanto na letra quanto na melodia. E certamente será mais uma música da torcida tricolor.
Parabéns pelo Blog, pelos textos e pelo mestrado.
E ainda espero trabalhar com você.

Claudia (Dão) disse...

Jader, só agora descobri que não havia apostado na Unidos... Enfim....
Que pena..