21/09/2011

Saudades de quem não conheci (por Ricardo Vieira)

Compartilho mais uma vez este espaço com meu amigo Ricardo Vieira, autor do post recordista de visualizações neste blog. Desta vez é um texto de caráter mais intimista - mas igualmente emocionante. E cá ficou eu a pensar: que apurada técnica de escrita tem esse rapaz! rs



Saudades de quem não conheci
(Ricardo Vieira)

João Carlos Vieira

Tinha meus 13, 14 anos. Na saída do colégio peguei carona com um amigo e sua mãe. Veio a tradicional pergunta: “Você é filho de quem?”. Ela não conhecia meus pais, por isso lembrei: “dizem que eu pareço muito com meu tio, que já faleceu”. Ela olhou pelo retrovisor, tomou um susto e quase parou no meio da rua. “Nossa, deu até arrepio”, “o sorriso é igual”.

Eu sei que parece. Aliás, sei disso a minha vida inteira. Ele morreu aos vinte e poucos anos, vítima de violência, e eu não tive oportunidade de conhecê-lo. Mas a sensação não é essa. Hoje, mais do que nunca, sinto saudades.

Só eu sei o orgulho e o peso dessa semelhança. Em determinado momento de sua vida, minha avó trocou definitivamente o Rico pelo Joãozinho. Poder aliviar de alguma forma a dor de uma mãe que perde um filho era reconfortante, na mesma medida que dava medo. Simplesmente por ser uma pessoa que eu nunca fui.

Para alguns, nossa semelhança vai além dos traços físicos. Boa gente, segundo todos que o conheceram, ele sempre foi uma espécie de espelho pra mim. E o reflexo sempre foi nítido.

Já com meus vinte e tantos, ainda penso em meu tio, como... tio mesmo. Ainda o imagino mais velho, ainda o respeito. O difícil é conter a curiosidade.

Quantas, e quantas vezes, não imaginei como teria sido a vida se estivesse aqui conosco? Seria meu tio preferido, seus filhos seriam meus melhores amigos, ou talvez eu pudesse ser padrinho de um deles. Quem sabe não trabalharíamos juntos? Quem sabe não jogaríamos futebol no mesmo time? Ou contra. Seria ótimo. Ele estaria lá na minha formatura. E quando os pais dele partiram, eu daria força e ele teria me dado, porque eu precisei. A família seria unida.

O sonho bom não condiz com a realidade. A verdade é que a vida não é do jeito que a gente idealiza. E se o João estivesse vivo, é pouco provável que as coisas fossem assim. A vida seria melhor, eu acredito nisso, mas da forma como eu descrevi... dificilmente. Outra verdade é que se morte chegasse precocemente pra qualquer outro parente, a sensação seria a mesma.

É mais cômodo sentir saudade de quem não está mais por aqui.

Família é família, e problemas não são exclusividade da minha. Independente deles eu torço por quem me viu crescer e cresceu comigo. Os rumos seguem sendo tomados e eu não estou aqui pra julgar ninguém. Cada um sabe onde o próprio calo aperta. Não guardo mágoa e espero - de coração - não magoar ninguém. Continuo tendo o maior respeito por cada um. Acho que seria assim que o tio João agiria.

Saudades tio, saudades família.

4 comentários:

Gabriel Benevides disse...

Grande Ricardo Vieira, o soneca ou Ricardinho, o que o Jader escreve lá em cima é verdade, é bom ler seus textos, você tem o Dom da escrita.
Não conheci seu tio para dizer que você e ele tinham em comum o "boa gente", mas se todos dizem, é verdade. Tão boa gente que tento me espelhar em você várias vezes na vida em vários momentos. Parabéns pra você, e para você também Jader, sempre legal compartilhar o espaço com "boa gente".

João Eduardo disse...

Se falam que voce se parecia com ele,de fato,mesmo sem o ter conhecido,posso afirmar que era uma pessoa muito boa!Quer seja a semelhança ou diferença, tenho certeza que seu tio está em algum lugar, muito orgulhoso de seu sobrinho !Parabens Ricão!

Renata Vieira disse...

Meu amor, mais uma vez orgulhosa do meu irmãozinho... Vc conseguiu soltar o choro que estava preso aqui por tudo que está acontecendo. Só posso concordar e te adimirar, cada vez mais... Te amo mais do que tudo nesse mundo!

Denize Ornelas disse...

Lindo texto, Rico!