14/02/2012

Com muito orgulho?


Este foi o país que deixei para trás. O que encontrei na volta, não reconheci.



Nunca pensei que fosse escrever um texto desses.

É preciso fazer esta ressalva inicial para que nenhum desavisado pense que não sou eu o autor. Mas, sim, pela primeira vez na vida senti uma ponta de vergonha por estar no Brasil, viver neste país, ser brasileiro. Foi na sexta, voltando do Chile, pisando em terras tupiniquins. Talvez tenha sido o contraste com o que vivi em minha semana chilena. Talvez não seja apenas isso.

Bem, vamos aos fatos. Eles são auto-explicativos:

1. Descer no aeroporto de Guarulhos foi um choque de realidade que eu não poderia prever. Depois de sair de um belo e organizadíssimo Aeroporto de Santiago, me deparei com aquilo que os jornais brasileiros martelam em nossas cabeças há alguns anos – e, sinceramente, nunca havia compreendido com exatidão: longos minutos de espera, dentro do avião, na pista, aguardando pela liberação do “tráfego”; troca de aeronave na última hora; terminal superlotado e quente; a única funcionária, coitada, berrando para que os passageiros se dirigissem à fila (não exagero no berrando); confusão, confusão e mais confusão. E, sobretudo, desrespeito conosco, com turistas, com as pessoas que estavam ali. Desrespeito por toda parte.

2. O pior fato de todos. O que mais entristeceu e humilhou. Em pleno Rio de Janeiro, revista seletiva para o casal de negros que passava pela sala da Receita Federal. Se você é do tipo que prefere acreditar que não existe mais preconceito no Brasil, que somos todos iguais, que vivemos em uma democracia racial, lamento dizer que esse seu país utópico não existe. No Chile não há negros (se existem, são pouquíssimos. Uma versão que ouvi por lá é de que os escravos vindos da África não resistiram ao frio). Pois bem, no Chile fomos respeitados e inclusive admirados. Aqui, passamos por constrangimento no aeroporto. Não cabe entrar em detalhes. Apenas é importante registrar: por sermos negros passamos por revista diferenciada dos demais naquela noite – que sequer foram revistados, aliás. É triste demais que isso aconteça em casa.

3. Na saída do aeroporto, o táxi!!! Triste ver como se aproveitam daqueles que vão passar uma temporada na cidade. Maldita mania de querer levar vantagem. Para ir à Vila Isabel, queriam que eu desembolsasse R$ 85. Não, claro. Se fosse este valor, argumentei, pegava um ônibus na pista. Não era um turista, percebeu. Trocamos de taxista. Negociamos um pouco mais. No fim, a corrida saiu por R$ 60. E cairia mais se tivéssemos insistido. Mas, quer saber?, depois disso tudo, me rendi. Em quinze minutos estávamos na rua barão de Cotegipe. Em casa, enfim.  Perplexo.

Não foi a alta de organização que doeu. O terminal quente é o de menos. Doi é o desrespeito, a discriminação, a “esperteza”. Doi que tudo isso aconteça aqui, logo aqui, neste lugar que tanto amo e que tanto proclamo meu amor.

Depois de uma viagem incrível, tive a impressão de que, ao embarcar para o Chile, deixei um Brasil para trás e encontrei outro quando voltei.

Talvez eu é que tenha mudado. Talvez não seja apenas isso.

Tomara, isto sim, é que este nosso país mude.




* Os que me conhecem sabem. Mas isso aqui é internet, né? Não é só quem me conhece que me lê. Então deixa eu dizer: amo o Brasil, minhas cores, minha bandeira. Sou um eternamente apaixonado pelo Rio de Janeiro, carioca por adoção, quero viver pra sempre nesta cidade. Os fatos que listei não alteram meu sentimento sobre meu território. Apenas aguçam minha percepção sobre isso aqui e me dão ainda mais gás para lutar por um país verdadeiramente justo, livre e em progresso.

04/02/2012

Ela


Sexta-feira, 03 de fevereiro

23h10

Faltam apenas 12 horas. E enquanto cuido dos últimos e mínimos detalhes (a mala, a máquina, o livro), me recordo que nunca escrevi sobre Ela aqui, neste blog, para vocês. Evidentemente já falei da Bia em alguns posts. Mas um sobre Ela, só sobre Ela, só para Ela, nunca.

Por onde começar? Já falei sobre o amor aqui. Sobre o poder do amor e de como ele é central em minha vida. Seria bom então começar esse texto dizendo que hoje o amor para mim tem um nome. Chama-se Ana Biatriz Barbosa de Souza Paixão. Bia, para os íntimos. Amor, para mim.

Sim, Biatriz com “i” como só Ela é. Linda como só Ela é. Teimosa como só Ela. O amor da minha vida... só Ela. Foram tantos os momentos, é tanto o que sinto, que este texto nem deveria ter começado, porque certamente ele vai ficar muito aquém dEla.

Mas topei o desafio. Imposto por mim mesmo, logo esclareço. Porque não foi Ela que pediu. Ela sequer lê esse blog. Amanhã no hotel – ou domingo, já no Chile – terei que contar a Ela que tem um texto sobre Ela no meu blog. E aí Ela provavelmente vai dizer que lê depois. E vai demorar alguns dias para ler. Talvez leia. Só talvez.

Sabe amor à primeira vista? Então, não foi assim com a gente. Sabe aquelas loucuras de amor, tipo viajar horas a fio só para vê-la antes de embarcar para uma longa viagem? Também não teve. E noites tórridas de paixão? Tampouco. Nada disso teve.

Teve o que então, Jader? O que sustentou por (quase) seis anos, ora? Por que acha que vai sustentar pelos próximos 70?

Teve conquista. Teve carinho. Teve risos. Abraços. Saudades. Encontros. Teve aquela vez que perdemos o último ônibus em Itatiaia e tivemos que pedir carona à Nova Dutra. Amasso. Carícia. Desejo. Uma viagem de 10 horas e um dia inteiro à base de Passatempo. Teve briga. Teve choro. Reconciliações. E as noites acampados, as fogueiras que vararam a madrugada. Teve Santíssimo. Altar. Toca. Dúvidas. Silêncios. Respostas. E o primeiro beijo, beijo de verdade, justo no meio da “multidão”, nós que prezávamos tanto pela discrição. Teve amor. Muito amor. Tanto amor que até duvidaram que pudéssemos viver só de amor. Que até inventaram que não vivíamos só de amor. Decepções. Reconquistas. Desculpas. Beijos. Um furo antes mesmo do nada. O empurrão da Iza. O “chega pra lá” no Jo. Teve de tudo. Na esquina. Na praça. No cinema. Ah, teve tanta coisa, amor!

O dia em que pedi para seu pai. O meu “de acordo com as conformidades”. As roupas que eu nunca soube combinar. As horas e horas no telefone. A lan house que quase nos separou.  Os presentes bem bolados. O aniversário ausente. Os aniversários presentes. As crises sempre superadas. Os beijos que ninguém via. As músicas que descobrimos juntos. A Eva Wilma a nos emocionar. O BMB. Ah, o BMB!

A sua última mensagem, que me chega agora. Obrigado, eu, por tudo que aprendi. Obrigado, eu, por esses seis anos. Obrigado por todas as descobertas – e por todas as renúncias. Chegamos, amor. Chegamos onde tínhamos desenhado já naquele 07 de maio de 2006. Porque sabíamos desde o início. Sabíamos desde aquela noite. Eu sabia, você sabia.

E vivemos com tal intensidade, mas sem pressa. Tudo foi ao seu tempo. O que foi e o que ainda não foi. Sem pressa porque sabíamos que não ia acabar a qualquer momento. E é essa certeza que vai nos levar ao altar. Não só como um momento formal, protocolar, para cumprir aquilo que Deus, a Igreja, a Família, a Moral e os Bons costumes nos mandam. Hoje – quando comecei este texto era amanhã, mas agora, meu Deus!, já é hoje – vamos consagrar esse amor, sacramentar, declarar ao mundo, testemunhar que é ele que nos redime, que nos faz homens, que nos faz um. A partir de hoje, mais que em qualquer outro momento, seremos sinal deste amor que nos une. De tanto amar, nos transformaremos nele. Tal qual Francisco, que de tanto amar, se tornou semelhante à coisa amada. Seremos o amor.

É difícil terminar esse texto. Entre tantas outras coisas mais importantes, como o nó que começa a se formar na garganta, é difícil porque já alternei tanto o estilo dele, andei por tantas as pessoas (primeira, segunda, terceira, do plural, singular, e quais outros existir) que não sei se alguém resistiu até aqui. Talvez só você. Ou, voltando ao estilo original, talvez apenas Ela tenha resistido até o fim deste post. Mas não importa, é para Ela que este texto existe. Para declarar o meu amor, para tornar perene esta declaração, para dizer que não existe mais vida possível para mim sem Ela.

Mas disso (tudo), desconfio que Ela já saiba.

08/01/2012

Miriam Leitão e as Cotas

"Acusar de promover o racismo o primeiro esforço anti-racista após 118 anos do fim da escravidão é uma distorção inaceitável"

Que boa surpresa encontrei ao ler um artigo da jornalista Miriam Leitão sobre as Cotas Raciais. Não tenho muito o que dizer, Miriam diz tudo, com uma lucidez que poucas vezes vi nas discussões sobre o tema (e olha que já vi muitas discussões, participei de algumas delas).
Vou postar aqui três textos da jornalista - que, confesso, admiro muito quando foge de suas eventuais análises econômicas (o artigo O Menino Azul é magnífico exemplo do que digo). Fosse eu o editor de O Globo, tiraria Miriam do Panorama Econômico e a colocaria num lugar privilegiado para falar apenas das questões do Rio, dos povos, da sociedade. Pessoalmente, acho que se sai melhor. Mas certamente o editor tem bons motivos para mantê-la em Economia, rs.

Enfm, lá vai. Clique em Mais informações, leia os artigos e se surpreenda também:

29/12/2011

O Ano 11

(há uma série de links perdidos em todo o texto. Dezenas, para falar a verdade. Deu muito trabalho. Fico agradecido se você olhar pelo menos um, rs.)

Eis o resumo do ano que se passou:

Vi Hair e quis ser hippie. Vi Janelle Monàe, Seu Jorge, Caetano e Racionais, Stevie Wonder. Vi Woody Allen, O Palhaço, os Lindos Lábios de Camila Pitanga.


Conheci Mari, Isis (direto do Acre), Lívia e . Conheci Pankinha, a quem já havia sido apresentado por Eliane Brum um ano antes, mas que passei a chamar de amigo.

Chorei como poucas vezes havia chorado. De saudade. De medo. De amor. Do mundo racista. De alegria também. De histórias bobas contadas na tela – e de outras nem tão bobas assim narradas nos telejornais.

Escrevi, pois este é o meu ofício, minha paixão, minha arte. Escrevi no jornal uma das reportagens que mais me deram orgulho nestes poucos anos de repórter, nos relatórios sem fim do novo trabalho, no blog, que tem sido meu maior refúgio nestes tempos metamórficos.

Experimentei os sopros de novidade da metrópole tropical: os sambas nas quadras, o por do sol na praia, os papos nos botequins. Experimentei dizer não, brigar pelo que acredito, fazer cara feia. E gostei.


Foi um ano cheio. Mas apenas um avant-première do que se aproxima. 2012, este sim, será um ano de profundas mudanças. A começar pelo casamento, a continuar pelo Mestrado, e por aí vai. Espero sobreviver a ele. Espero que seja parecido com o que se passou, em que tanto vi, mudei, conheci, chorei, escrevi, experimentei, descobri, ri, amei, dancei, beijei, bebi...

Vivi!

(Ei! Os links perdidos não são apenas os três ou quatro que estão na cara, não! Procura mais! rs)

23/12/2011

Eu acredito em Papai Noel

De repente o telefone toca:

- Alô. Jader?
- Sim.
- Jader, é a Roberta.
- Diga, Roberta!
- Você perdeu sua carteira na Lapa?
- Perdi. 
- Então... encontraram sua carteira, acharam um cartão [de visitas] meu dentro dela, e me ligaram para te encontrar. Anota aí o número do cara. O nome dele é Mauro.

Assim começou minha semana de Natal. Era uma segunda-feira de manhã. Cerca de 72 horas antes havia perdido todos os meus documentos e cartões após sair da "festa da firma", no Circo Voador. Quem já perdeu um documento sabe o transtorno que é:  entre ir à delegacia registrar ocorrência e ligar para o banco para cancelar o cartão, reina a preocupação de que alguém pode estar naquele exato momento se passando por você. Perder a identidade é uma metáfora brutal do estado em que você se sente em momentos como este.

Mas os documentos foram parar na mão de uma jovem, a filha do Mauro. Que encaminhou ao pai. Que ligou para Roberta. E a boa nova, enfim, chegou até mim. CPF, RG, Título de Eleitor, Cartão de Débito, Cartão de Loja. Tudo de volta. Quando as esperanças já tinham ido embora. Quando eu já tinha chorado. Já tinha questionado tudo. Por conta de uma simples carteira.

E eis que apareceu o Mauro. Quem é Mauro? Um engenheiro que trabalha numa oficina de botes em uma esquina movimentada no Centro do Rio. Simples, um pouco de graxa aqui e ali, surge com a carteira nas mãos e sedento por contar suas histórias. Sim, é um homem de histórias. Daquelas comuns que de tão comuns são extraordinárias.

Mauro é um super-herói à brasileira. Conta de quando devolveu os pertences de outras doze pessoas, usando a mesma tática que utilizou para me encontrar; conta dos quatro garotos afundados no álcool que tirou da rua, mesmo "sem trabalhar com o social"; conta das lições que passou para a filha sobre honestidade e o sentido de se colocar no lugar do outro; conta até de uma fila de hospital que furou graças às suas despretensiosas benfeitorias. Um herói à brasileira, repito.

Desta vez, foi meu bom velhinho. Dele, ganhei dois presentes. O primeiro e mais óbvio, a carteira (minha Identidade de volta!). O segundo é um pouco mais subjetivo. Pode ser expresso na frase que Mauro me disse ao encerrar nossa breve conversa:

"Nós nascemos para fazer o que? Para fazer o bem e nada mais".

Podem acreditar, ainda existem homens. A bondade ainda persiste. A luta dura não flexiona o caráter. Pode acreditar, Papai  Noel existe!

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Este é meu post número 100 no blog. 100 posts, 35 meses, 259 comentários, mais de 9.000 views. Obrigado a todos vocês que passaram por aqui! Obrigado em especial ao grande amigo Ricardo Vieira, que engrandeceu este espaço com dois posts "tops de linha" (ou seriam três? rs); à titia Giovana Damaceno, com seus comentários assíduos em mais de 90% das postagens; e ao gigante Gabriel Araújo, que foi o grande impulso para que eu fizesse esse blog - nem sei se ele mesmo sabe disso, rs.
Que venham mais 100, mais 35, mais 259, mais 9.000! Feliz Natal a todos!

10/12/2011

Pavilhão de Espelhos - Roberta Sá


Mais uma boa música.
Roberta Sá está de volta. Ainda bem...


Pavilhão de Espelhos



Não, eu não me arrependi de nada
Vida voa e o tempo é outro já

Você mudou e eu também
Tô aqui só pra saber que existe saudade
Ainda bem

Como num pavilhão de espelhos,
Eu te vejo multiplicada em mil
Eu vim aqui pra ver você
Solta, vestida de lua na nuvem
Dança como se dançasse pra ninguém,
Ou só pra mim
Ainda bem

Sim, eu sei que vieram chuvas
Noites cheias de céu vazio e vão
Cruzei o mar, estrada além
Tô aqui pra ver se ainda bate, pulsa
Ainda bem

Como num pavilhão de espelhos,
Eu te vejo multiplicada em mil
Eu vim aqui pra ver você
Solta, vestida de lua na nuvem
Dança como se dançasse pra ninguém,
Ou só pra mim
Ainda bem

Sim, eu sei que vieram chuvas
Noites cheias de céu vazio e vão
Cruzei o mar, estrada além
Tô aqui pra ver se ainda bate, pulsa
Ainda bem

01/12/2011

Então é... carnaval?!

(Trecho atualizado no fim do texto)

Eu na Sapucaí em 2008

Enquanto os Jingle Bells e as canções natalinas de Simone embalam o fim de ano nestas terras tupiniquins, é outro som tem rodado à exaustão na minha vitrola ultimamente: samba. Sambas-enredo do Carnaval Carioca de 2012, para ser exato.

Os que rotineiramente acompanham este blog sabem o quanto gosto de carnaval. Antes mesmo de me apaixonar pelo samba, já era fã da festa momesca em seu estilo mais tradicional. Acompanho os desfiles das agremiações cariocas desde cedo. Lembro com perfeição do título de minha amada Mocidade Independente de Padre Miguel em 1996, quando ainda tinha oito anos. Da alegoria que me fascinou com Adão e Eva da forma com que vieram ao mundo, do samba (ah, o samba!) que proclamava que a Mocidade seria a bomba a explodir naquele carnaval para levantar nosso astral.

Desde aí, acompanho com bastante atenção o carnaval. Xinguei a Viradouro por ter roubado (com méritos!) o bi da Mocidade em 97; me encantei com os sapos que abriam passagem um grande Villa Lobos em Padre Miguel; vaiei a Imperatriz, como toda a Sapucaí, por seu "desfile técnico" que a levou ao tricampeonato; deslumbrado, assisti ao magnífico Grande Circo Místico e a posterior saída do mestre e ídolo Renato Lage - e no meio disso, uma arrasadora e iluminada Mangueira, que invadiu o Nordeste, cabra da peste; vibrei com Paulo Barros e sua ousada irreverência; chorei pela decadência da minha escola; lamentei por cada segundo perdido pelo Salgueiro que fazia um desfile magnânimo exaltando o cinema nacional; e assisti, enfim, o maior espetáculo da Terra duas vezes ao vivo: 2008 e 2009.

E a todos esses momentos, inesquecíveis para mim, tenho certeza, de antemão, que em breve se juntará outro: espero que todos reservem as noites de 19 e 20 de fevereiro em seus calendários pois está para vir o maior carnaval dos últimos (muitos) anos na Sapucaí. Anotem o que digo. E justifico:

20/11/2011

A festa da raça!

Há dois anos, escrevi neste espaço sobre o Dia da Consciência Negra. Mas era um post carregado de indignação, que convidava à reflexão, brigava contra os hipócritas e os racistas. Hoje resolvi escrever novamente, sobre o mesmo tema. Mas o tom é outro: celebração.

Não que algum avanço significativo tenha ocorrido de dois anos para cá. Um avanço aqui e ali, um retrocesso acolá, ainda somos uma nação hipocritamente racista. Contudo, o dia de hoje é de festa. Festa que também pode se expressar na contestação, claro. Mas não.

Hoje quero só celebrar Zumbi, cantar Martinho, exaltar Abdias. Recordar de negros e negras que construíram - e ainda constroem - esse país, que lutaram - e ainda lutam - por um Brasil com justiça racial, que são fonte de inspiração diária para mim.

Homenagearei todos eles com o poeta Luis Carlos da Vila, que em conjunto com Jonas e Rodolpho, compôs um dos melhores sambas-enredo de todos os tempos. Um dos mais belos hinos de celebração da cultura negra deste país. Que essa Kizomba seja nossa Constituição! O curioso é que a nossa luta, mais de vinte anos depois, continua sendo para que que o "apartheid" se destrua... 

Valeu Zumbi! Valeu Joaquim Barbosa! Valeu Dandara! Valeu Abdias Nascimento! Valeu Milton Santos! Valeu Tia Ciata! Valeu Martinho da Vila! Valeu Anastácia! Valeu!




Kizomba, a festa da raça - Vila Isabel (1998)



Valeu Zumbi!
O grito forte dos Palmares
Que correu terras, céus e mares
Influenciando a abolição (Zumbi, valeu!)
Zumbi valeu!
Hoje a Vila é Kizomba
É batuque, canto e dança
Jongo e maracatu

Vem menininha pra dançar o caxambu

Ôô, ôô, Nega Mina
Anastácia não se deixou escravizar
Ôô, ôô Clementina
O pagode é o partido popular

O sacerdote ergue a taça
Convocando toda a massa
Neste evento que congraça
Gente de todas as raças
Numa mesma emoção

Esta Kizomba é nossa Constituição

Que magia
Reza, ajeum e orixás
Tem a força da cultura
Tem a arte e a bravura
E um bom jogo de cintura
Faz valer seus ideais
E a beleza pura dos seus rituais

Vem a Lua de Luanda
Para iluminar a rua
Nossa sede é nossa sede
De que o "apartheid" se destrua


- - - - - 


Ao longo destes quase três anos de blog, postei alguns textos e/ou notas relacionadas ao tema. Se quiser conferir, é só escolher:







09/11/2011

O Axé de Gadú

Maria Gadú está realmente um degrau acima das outras artistas de sua geração. E falo isso com a maior isenção, porque todos os que me conhecem um pouco sabem que meu coração bate mesmo é por outra cantora dessa nova era: a potiguar-carioca Roberta Sá.

Mas Gadú, que gosto bastante também, é impressionante! Cantora, compositora, musicista. E tudo isso maravilhosamente bem, acima da média. A primeira vez que fui a um show dela, saí boquiaberto e com uma aposta: estou vendo o "nascimento" de uma daquelas que será eterna. Sigo com este palpite...

Esta semana, e eis o motivo deste post, a cantora lançou na internet uma faixa de seu novo álbum (Axé Acapella, o nome da faixa). E daí veio a constatação expressa na primeira frase deste texto: além de tudo, essa garota se mostrou de tal sensibilidade para captar e transformar em arte o sopro que está no ar, o vento ainda fraco que sinto bater no rosto, o cheiro de batidão que também tenho sentido a tempos, um grito abafado que insiste em gritar.

O ritmo, como destaca o crítico Mauro Ferreira, do ótimo blog Notas Musicais, é diferente do  pop contemporâneo que tem marcado a carreira de Gadú até aqui. A música, cita ele, flerta com "sons da cena indie paulista". 

Para ser justo, a música é de autoria de Dani Black e Luisa Maita - dois dos amigos que formam uma trupe de artistas talentosíssimos encabeçada por Gadú. Foram eles que captaram e é Gadú quem nos transmite, em uma das melhores músicas que ouvi nos últimos anos.

Enfim, é só apertar o play e concordar (ou não) comigo...




Axé Acapella
Autoria: Dani Black e Luisa Maita
Interpretação: Maria Gadú

Pararam pra reparar?
Estão Ouvindo esse som?
Pulsando seco no ar
Merece nossa atenção
Preparem bem os sensores
Para poder captar
Parem usinas motores
Para ouvirmos bater
Dum! Dum! Dum!
Seu clamar

Som de corte pungente mundo doente além da conta
Sangra lucro imediato mas a cura de fato não aponta
Em uma remota viela a voz de uma santa faz menção
Um Axé Acappella feroz insinua o batidão

Pararam pra reparar?
Estão ouvindo esse som?
Reparem não vai parar
Diante a tal condição
Jogos de egos gigantes
Sem dar sossego à fatal pulsação
Que segue até seu furor
Torna-se ensurdecedor
Dum! Dum! Dum!
Seu clamar

Chega de jogar confete de botar enfeite achar desculpas
É guerra é dente por dente e rasga somente carne crua
Rouco um cantor se esgoela sozinho em meio a uma multidão
Um Axé Acappella feroz insinua o batidão...

E se bater vai matar!
E se bater vai tremer!
Não sobrará mais que o leito de um rio
Que escorre a prenda de um passado sombrio
Enquanto o homem não acorda
Idiota! Nem nota!
Se enforca com a corda da própria tensão
E um Axé feito Acappela
Vai se transformando num batidão

Aí é choro doído é sonho moído é fim de trilha
Já mortalmente ferido um lobo banido da matilha
Silente um bom Deus vela a terra sagrada da ingratidão

Um Axé Acappella feroz insinua o batidão!

02/11/2011

Memórias de um futuro em construção


Apresentador: (em tom lacônico) Tiroteio deixa mortos no Jacarezinho. (de repente, o tom fica eufórico) E nós fomos a primeira equipe a chegar! As imagens que vocês vão ver são exclusivas!

Escutei o monólogo enquanto passava em um trailler no fim de uma tarde. Não me atentei para o canal, mas a voz do apresentador não era totalmente desconhecida (suspeito que os apresentadores desses programas espreme-que-sai-sangue que enchem as grades das TVs brasileiras façam curso de locução em um mesmo local, tamanha a semelhança). 

Levei certo choque com o tom do apresentador, ao vibrar com a "exclusividade" da emissora na cobertura da tragédia.

Lembrei de Bourdieu, em suas ásperas críticas às práticas jornalísticas na TV, sobretudo com relação à desenfreada busca pelo furo. Mas também quando relata a recorrência no jornalismo dos fatos-ônibus.

Pensei em Kellner, que havia acabado de ler, o livro ainda em minha mochila, com suas observações sobre a cultura da mídia e seus efeitos para a conformação de certos padrões e ideologias em nossa vida social.

Recordei, ainda, com bastante carinho, das horas a fio de discussões junto a meus colegas de faculdade sobre o papel da imprensa na sociedade e sua predileção pelas notícias trágicas, sua insensibilidade nas barbáries, sua gananciosa corrida pela audiência.

As aulas de jornalismo na faculdade, ao menos aquelas boas aulas, eram sempre regadas a polêmicas e muita discussão. Em geral, era um exercício de crítica à mídia - críticas tão ácidas que acho que Benjamim, Adorno e outros teóricos de Frankfurt iriam se orgulhar.

Lembrar da faculdade foi o que me tirou da indignação que o apresentador me causou.

Entramos na faculdade, todos nós, com vontade de mudar o mundo, como é comum aos estudantes de jornalismo. Mas estávamos sedentos por descobrir as ferramentas e instrumentos necessários para fazer essa mudança, a partir de nosso "lugar" de jornalistas.

Eu me recordo de quando fomos apresentados a Foucault. Sexta-feira à noite, quinto período, Cultura das Mídias. Uma professora jovem com um texto indecifrável nas mãos. Levamos para casa, lemos, e na semana seguinte voltamos com um pedido: traduza. E parágrafo por parágrafo, a "trinta mãos", traduzimos. E dali em diante, e pela primeira e única vez em quatro anos, a sala não ficou vazia em nenhuma sexta-feira daquele semestre. 

McLuhan, apresentado alguns anos antes, também nos encantou com suas reflexões sobre as ferramentas enquanto extensão do homem. Era fascinante. Da mesma forma, entusiasmados ficamos quando o Observatório de Imprensa tornou-se material semanal de aula e as discussões geradas no programa eram reproduzidas naturalmente em sala. Ou ainda quando produzimos nosso primeiro curta-metragem profissional. Boas lembranças!

Era uma turma diferenciada, sem dúvidas. Que ensaiou uma "greve" para aquisição dos laboratórios, mas nunca conseguiu organizar um churrasco sequer durante todo o tempo de faculdade.

Os caminhos naturalmente se separaram e, quase um ano após a última aula, mantenho contato constante com poucos - ainda que fale esporadicamente com a maior parte. Alguns estão na TV, outros na rádio, em assessorias, impressos, ou ainda encontrando seu lugar no mundo.

Neste último grupo me incluo. Talvez esteja solitário até. Não estou na TV. Não estou no rádio. No impresso. Tampouco em assessoria. Quando alguém me pergunta o que estou fazendo, em geral demoro cinco minutos para tentar explicar - e não tenho certeza se a pessoa entendeu.

Estou procurando meu lugar no mundo. Descobrindo qual é o meu mundo. Às vezes acho que é mais pra lá, depois tenho certeza que é pra cá, e sigo tentando descobrir.

Sou jornalista. É o que sei e muito me orgulho. Há alguns dias, quando no cartório me perguntaram sobre qual a minha profissão, não exitei em responder. Porém, mais que isso ainda não sei. Estou descobrindo, vivendo pra descobrir, experimentando.

Quem sabe um dia eu não descubro? Se é do lado de Bonners, Barcellos, Morenos e Padrões ou do lado de Kellners, Foucaults e Benjamins. Ou talvez de lado nenhum. Do lado da Bia, apenas, porque não? 

Esse não é um momento de certezas. Para mim, é um momento de dúvidas. E, hoje, são essas dúvidas que me movem. 

Pra onde? 

Pra frente...