22/08/2012

Tratado em Defesa do Sonho

Eu acho que a questão do sonho é que nos mantém vivos, 
eu acho que não existe vida sem esperança e a 
esperança tem essa versão do sonho, porque você imaginar 
e agir somente em função do possível, 
eu acho terrivelmente chato.
Betinho

No último mês, precisamente no dia 11 de julho, mais precisamente em um seminário promovido pelo Alto Comissariado da ONU, ouvi uma sentença que costuma me irritar. Foi assim: depois de eu fazer uma breve explanação sobre o tema do dia, insistindo incisivamente em um compromisso global para compartilhamento das responsabilidades na promoção dos Direitos Humanos mais básicos (tal como alimentação) nos países sem capacidade técnica/financeira/pessoal para fazê-lo, veio a maldita sentença. Mais ou menos desse modo: "Que lindo", um sorriso. "Que bom se todos pensassem assim". Sorriso amável. "Precisamos de sonhadores". Um risinho esganiçado. "Agora vamos voltar ao mundo real". Ponto.



É lógico que não foi exatamente assim, o palestrante era um pouco mais educado e sinceramente interessado do que fiz parecer. Mas foi assim que bateu. É assim que bate sempre que isso acontece. E como tem acontecido com frequencia nestes tempos em que o pragmatismo parece ser o único caminho possível - todo o contrário é encarado apenas como uma utopia juvenil irrealizável. Os pragmáticos venceram, esta parece ser a conclusão. Mas eu acredito que não.

Talvez seja por isso Marina Silva me levou novamente às lágrimas, dessa vez durante a Cúpula dos Povos, no Rio. A menina seringueira, filha da Amazônia, que cresceu e se tornou uma das figuras políticas mais importantes da história recente do nosso país, fez um apelo para que ousemos continuar sonhando. Conclamou para que todos, ao invés de pragmáticos, sejamos "sonháticos" - um neologismo que soa bem estranho ao ouvido, mas que no fundo é bem simpático.

"Não foi o pragmatismo que fez Luther King combater o preconceito e construir uma sociedade mais igual, foi o sonho. Não foi pelo pragmatismo que Mandela liderou sulafricanos na luta contra o apartheid, foi pelo sonho. Os milhões de jovens brasileiro que pintaram seus rostos e saíram às ruas para clamar por eleições diretas não estiveram movidos pelo pragmatismo. E sim pelo sonho", disse ela.

É muito difícil ser sonhático em uma realidade tão dura, nua e crua quanto a nossa. Em que nossos ídolos políticos apertam mãos verminosas, jogam a coerência na lama, por míseros segundos de propaganda. Em que somos tomados por furtos, arroubos, ataques fortuitos nas esquinas das ruas e nas esquinas da vida. Mas é exatamente por isso, por mais contraditório, que nossa luta diária tem que ser para que o desânimo, a descrença e o medo não nos vençam. Porque no dia em que isto acontecer, estará tudo acabado.

E quando digo luta é luta mesmo. É resistir aos impulsos que nos empurram ao isolamento e nos tornam reféns dentro de nossos próprios medos: Experimente manter-se firme naquele lado da calçada, mesmo quando o preto descalço estiver alguns metros à frente. Atenda seu Iphone em público. Confie naquele estranho que lhe deu informação. Dê bom dia aos estranhos, aliás.

Ouse viver no Mundo de Alice. Ouse desafiar a lógica racional com toda a sua subjetividade. Ouse discutir política mesmo quando parecer que a política não foi feita para você, homem de bem.

Dê esmola aos mendigos. Se engaje na luta para que não haja mais nenhuma criança nas ruas. Ocupe a calçada da casa do governador. Piche o muro do torturador. E assine a petição pública, online, contra a Usina de Belo Monte - mesmo que te acusem de não levantar a bunda do sofá ou sequer saber diferenciar um índio guarani de um imigrante boliviano (o que, admita, pode ser verdade. Sobretudo nos que diz respeito à sua bunda e ao seu sofá).

Por mais duro que tudo pareça, acho profundamente desolador se perdermos a dimensão do sonho, essa expressão tão bem cunhada por Betinho. Experimente sonhar. Ouse sonhar. Sonhe. É isso que tenho tentado fazer e o que tenho defendido, com unhas e dentes, e alma e coração. Vamos sonhar, minha gente. Até porque por enquanto ainda não encontraram um modo de tarifar nossos sonhos. E nem encontrarão!

Eu acredito em... coincidências. E achar essa imagem foi uma delas. rs

2 comentários:

Ricardo Vieira disse...

Quero viver pra te ver com um sorriso no rosto dizer "eu não falei?!"

Giovana Damaceno disse...

Se não sonhasse não estava nem aqui.
Eu acreditei, de verdade, e cá estou.
Imagine então quando o sonho é coletivo, putz!

Ah, outra coisa, não acredito em coincidência; pra mim, tudo tem uma razão de ser.

Ah, de novo: você é phodda!