11/03/2013

Religião libertadora

É engraçado, mas todas as vezes que vou à Volta Redonda, o meu lugar, tenho a vontade de postar um trecho de uma canção religiosa em algum dos meus perfis nas redes sociais. Chego na casa de meus pais, abro o velho livro, já um pouco surrado, dos cânticos que entoávamos em uma época não tão distante, e fico escolhendo canções para recordar; cantarolo uma, redescubro outra e sempre me maravilho com a beleza, a riqueza e a força do que cantava.


Talvez seja o fato de que algumas das minhas melhores lembranças de infância estão ligadas à amada Comunidade São Francisco de Assis (foto acima): os ensaios do coral, a catequese, as reuniões de liturgia, o pique-esconde, as mangas que brotavam no pátio, os primeiros amores e pequenos namoricos. Mas acho que não é só isso: voltar à Volta Redonda e cantar novamente aqueles cantos me faz reencontrar com algo muito profundo de mim mesmo. É ali que recordo, enquanto folheio o livro e lembro das melodias com minha mãe,   a essência da crença que me move, o fundamento do meu cristianismo, da minha devoção à Francisco, da minha esperança que não morre. Ali encontro o sentido da minha fé - e o sentido de Igreja que vivo, em particular.

Esses dias vi uma entrevista em que um bispo era duramente questionado: acredita em um igreja eclesial ou eclesiástica? A primeira categoria refere-se à uma igreja enquanto povo de Deus, enquanto comunidade de fieis que lhe dá uma face, uma identidade; já a segunda sugere uma igreja mais institucionalizada, centrada na Tradição e no Magistério, que enxerga no clero - sobretudo o clero romano, a alta hierarquia apostólica -  o seu pilar de sustentação (em um diálogo recente, uma metáfora ajudou a deixar mais claras essas essas duas concepções de igreja. A cabeça é Cristo, há consenso. O coração é o clero e nós, o povo, somos os membros? Ou nós, o clero incluído, somos o coração? Igreja eclesiástica ou eclesial?)

Pois bem, amigos, eu nasci em uma Comunidade Eclesial de Base. Poderia eu ter outro sentido de igreja que não esta: da base, do chão, do povo amado por Deus? Igreja é povo que se organiza, gente oprimida buscando a libertação, reza a canção. Meu assombro se dá  ao me deparar com músicas como essa que citei, no velho livro surrado lá de casa, e perceber tão fortemente que foi esta religião (ópio?) que forjou parte decisiva de minha identidade. Meu ethos social, político, afetivo... é carregado de um cristianismo de pé no chão e dedo esfolado; de preferência radical pelos pobres; uma igreja que entende seu papel no mundo não apenas como uma missão religiosa, não apenas em um sentido místico, mas também como um ator político que não pode ficar inerte frente a um planeta tão desigual e desumano. Se somos o coração desta igreja, quando sofremos é Ela mesma quem sofre; se somos a imagem de Cristo (Mt 25, 40), quando choramos é Ele que chora. 

Vou passar às canções, foram elas que motivaram esse texto, darei a elas (e não às minhas abstrações) o protagonismo deste post. Vejam bem, foram estas canções que cantei durante minha infância, adolescência e juventude. Na igreja! Na companhia de amigos, em grupos de jovens e mini-jovens. Em casa, com a família. E aí pense se não responde em parte eu ser quem sou hoje...

[Cataloguei outras dezenas de canções. Poderia me estender aqui por horas a fio, mas acho que a mostra a seguir é representativa. Dividi as canções em quatro grupos, que abrigam quatro dimensões distintas da minha vida e do que acredito: a igreja e o povo de Deus como atores políticos deste mundo; o amor como mandamento supremo e a figura de Deus enquanto pai, acima de outras representações; a fé e esperança, outras duas virtudes teologais, que nos movem em direção ao reino, no céu e na terra; e a religião como instrumento de libertação. É longo, mas ficaria feliz se quem chegou até aqui conseguir concluir a leitura.]


- À luta!

É Jesus este Pão de igualdade,
viemos pra comungar,
com a luta sofrida de um povo
que quer, ter voz , ter vez, lugar.

*
Retalhos de nossa historia bonitas vitórias que
meu povo tem. Palmares, Canudos, Cabanas
são lutas de hoje e de ontem tambem. Ô, ô, 
ô, ô, recebe Senhor.

*
Nos olhos dos pobres, no rosto do mundo. 
Eu vejo Francisco perdido de amor, 
É índio, operário, é negro, é latino,
jovem, mulher, lavrador e menor 

Canta Francisco, com a voz dos pobres,
Tudo que atreveste a mudar!

*
Que a Eucaristia
apresse o dia por nós esperado:
De irmãos libertados
de toda a injustiça e de todo o pecado

*
Jesus, vem, liberta de toda prisão, 
e quebra as cadeias da velha opressão!

*
Lavradores e operários, todo o povo lutador

Trazendo nas mãos os frutos, e as marcas de sofredor

A vida e a luta ofertamos, no altar de Deus criador

Glorificado seja, bendito seja

Jesus redentor!

*
De braços erguidos a Deus ofertamos,
Aquilo que somos e tudo que amamos.
Os dons que nos temos compartilharemos.
Aqueles que sofrem, sorrir os faremos.

*
Eras tu, Senhor Jesus, 
escondido no Irmão?

*
Seu nome é Jesus Cristo e passa fome
E grita pela boca dos famintos
E a gente quando vê passa adiante
Às vezes pra chegar depressa a igreja

Seu nome é Jesus Cristo e está sem casa
E dorme pelas beiras das calçadas
E a gente quando vê aperta o passo
E diz que ele dormiu embriagado

Entre nós está e não O conhecemos
Entre nós está e nós O desprezamos 


- O amor! 

Obrigado senhor 
porque És meu amigo
Por que sempre comigo tu estás a falar

*
Confiei no teu amor e voltei, 
Sim, aqui é meu lugar!

*
O que é preciso para ser feliz?
Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou 
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu

*
Um certo dia, à beira mar
Apareceu um jovem Galileu
Ninguém podia imaginar
Que alguém pudesse amar do jeito que ele amava
Seu jeito simples de conversar
Tocava o coração de quem o escutava

E seu nome era Jesus de Nazaré
Sua fama se espalhou e todos vinham ver
O fenômeno do jovem pregador
Que tinha tanto amor

*
Vem, e eu mostrarei que o meu caminho te leva ao pai
Guiarei os passos teus e junto a ti hei de seguir

*
Senhor, Tu me olhaste nos olhos
A sorrir, pronunciaste meu nome!


- A esperança no amanhecer!

Quando o dia da paz renascer
Quando o Sol da esperança brilhar
Eu vou cantar

Quando o povo nas ruas sorrir
E a roseira de novo florir
Eu vou cantar

Quando as cercas cairem no chão
Quando as mesas se encherem de pão
Eu vou cantar

Quando os muros que cercam os jardins, destruídos
Então os jasmins vão perfurmar

Vai ser tão bonito se ouvir a canção
Cantada de novo
no olhar da gente a certeza de irmãos
reinado do povo

*
Quero entoar um canto novo de alegria
Ao raiar daquele dia de chegada em nosso chão
Com meu povo celebrar a alvorada, minha gente libertada,
Sonhar não foi em vão

*
Virá o dia em que todos 
ao levantar a vista, 
veremos nesta terra 
reinar a liberdade

*
Irá chegar um novo dia
Um novo céu, uma nova terra, 
um novo mar
E nesse dia, os oprimidos,
Numa só voz a liberdade irão cantar!


- A religião libertadora!

É por causa do meu povo machucado 
que acredito em religião libertadora!
É por causa de Jesus ressuscitado 
que acredito em religião libertadora!

*
Nesta mesa da irmandade,
a nossa comunidade
se oferece a ti, Senhor.
Nosso sonho e nossa luta,
nossa fé, nossa conduta,
te entregamos com amor.

Novo jeito de sermos igreja
nós buscamos, Senhor, na tua mesa

*
Deus chama a gente pra um momento novo
de caminhar junto com o seu povo.
É hora de transformar o que não dá mais
Sozinho, isolado, ninguém é capaz.

Por isso vem
entra na roda com a gente também
Você é muito importante
Vem!

*
Somos gente nova vivendo a união,
Somos povo semente de uma nova nação
Somos gente nova vivendo o amor,
Somos comunidade, povo do senhor

Vou convidar os meus irmãos trabalhadores:
Operários, lavradores, biscateiros e outros mais.
E juntos vamos celebrar a confiança
Nossa luta na esperança de ter terra, pão e paz

Vou convidar os índios que ainda existem,
As tribos que ainda insistem no direito de viver.
E juntos vamos reunidos na memória,
Celebrar uma vitória que vai ter que acontecer

Convido os negros, irmãos no sangue e na sina;
Seu gingado nos ensina a dança da redenção.
De braços dados, no terreiro da irmandade,
Vamos sambar de verdade, enquanto chega a razão


Por hoje é isso. Deus nos abençoe!

8 comentários:

Gabriel Araujo disse...

Igreja Eclesial. Coração! Que bom chegar a essa conclusão.

A Comunidade São Francisco de Assis é um dos lugares nos quais eu chego em VR e me sinto totalmente em casa. Não preciso nem tirar os sapatos pra entrar hehe.

A seleção musical tá muito boa. Me fez dar uma voltinha no tempo. Incluiria outras que falam do encontro pessoal com Jesus (você sitou "A Barca"!), mas com uma finalidade libertadora e prática, tipo "Vem eu mostrarei".

Jader Moraes disse...

Estar na São Francisco é estar em casa mesmo, também sinto isso!

E, claro, incluí "vem e eu mostrarei" também. São tantas canções, mas essa de fato é especial. Até porque fala de um Deus tão amoroso, que vai guiar nossos passos e seguir junto conosco... adoro sentir esse abraço de pai! rs

Unknown disse...

Primo amei o post! Ao reler e "cantarolar" essas músicas que também fazem parte da minha história/memória, reafirmo que religião é algo cultural!Algumas músicas fazem parte de nossas almas e parecem canção de ninar, nos embalam em lembranças que nos remetem a quem realmente somos....é sempre bom visitar o nosso passado para resignificarmos nosso presente e olharmos para o futuro!!

Ane disse...

Pois é... olha você aí me fazendo pensar outra vez - e quando não?! Sim, o velho livro surrado de cânticos... se o seu é "antigo", imagina o meu, que é de 1979... Claro que chorei ao encontrar aqui os versos de "vai ser tão bonito se ouvir a canção..." A reflexão elaborada aqui é linda, é inteligente, é corajosa, é delicada, é permeada pela fé - ou seja, é uma reflexão totalmente Jader. Só se não te conhecesse, garoto... Você sabe, o que mantenho em mim (do rito, da ligação inicial) são as três missas por ano. Mas não são elas que definem minha incondicional forma de estar no mundo como alguém que crê. Em Deus, acima de todas as coisas. Ainda estou lá, no meu colégio católico, guiada por Champagnat, sob as bênçãos de Maria. Sobrevive aqui um coração Mariano, e certamente ele me sustenta através dos dias - à parte minha religião, da qual me orgulho, da qual não me envergonho, e a qual me ensina cotidianamente a respeitar todas as crenças. Somos de um tempo, apesar do "tempo" que nos separa (uns 15 anos, bobagem...rs), em que não era proibido ter fé. Não era "feio" acreditar em Deus. E ter fé não era contraditório com desejar um mundo mais justo, igualitário, respeitoso. Mudou o mundo, mudei eu? Não sei. Sei do Deus em que creio, e Ele é amor, perdão, consolo. Tá, fui longe. Mas precisava te dizer isso. E dizer também obrigada por me fazer lembrar do coral, das aulas de catecismo, das missas, do tempo em que ficava na casa dos padres do meu colégio depois da aula ouvindo suas histórias, aprendendo novas canções, e em segurança - tempos mais ingênuos, mais verdadeiros, mais guiados pelo Deus em que creio. Enfim, querido... Como repito sempre para mim, nas horas boas e especialmente nas horas más, "Confia no Senhor de todo teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e Ele endireitará as tuas veredas." (Provérbios 3:5-6) Beijo!

Insight cultural disse...

Você como sempre, fazendo-nos refletir, mesmo aqueles (as) que tem no catolocismo um certo distanciamento.
Sábias e belas palavras!!!!!
bjosssss

Giovana Damaceno disse...

Francisco é o cara! Não sou católica, mas é ele quem está comigo desde que conheci sua oração lá nos meus seis anos de idade.
Bacana, Jader. Que mundo diferente teríamos se todos os jovens tivessem este pé no chão na sua relação com Deus e/ou sua religião.
Beijo grande!

Jader Moraes disse...

Obrigado, gente! Todos! Obrigado por partilharem comigo também suas memórias, seus afetos, suas impressões.

Ane, especialmente, que lindas palavras! Legal que mexa tão profundamente com você também. "Vai ser tão bonito se ouvir a canção..." sempre me emociona e foi ouvindo-a, chorando também com ela, que me veio o impulso para esse texto.

♪ Quando as armas da destruição
destruídas em cada nação
eu vou sonhar

E o decreto que encerra a opressão
assinado só no coração
vai triunfar ♪

Rafael Clemente disse...

Apesar das visões de mundo opostas ao pensamento eclesial que hoje povoam meu intelecto, confesso que o coração falou alto nessa breve leitura. Então contribuo com uma canção. Obs: na voz de Dona Luiza!

Irá chegar um novo dia.
Um novo céu, uma nova terra,
um novo mar.
E nesse dia, os oprimidos,a liberdade a uma so voz irão cantar.

Na nova terra o negro não vai ter corrente e o nosso índio vai ser visto como gente.
Na nova terra o negro, o índio e o mulato,o branco e todos vão comer no mesmo prato.

Na nova terra o fraco, o pobre e o injustiçado,serão juízes deste mundo de pecado. Na
nova terra o forte o grande e o prepotente irão chorar até ranger os dentes.

Na nova terra a mulher terá direitos. Não sofrerá humilhações e preconceitos. O seu trabalho todos irão valorizar, das decisões ela irá participar.

Na nova terra os povos todos irmanados, com sua cultura e direitos respeitados, farão
da vida um bonito amanhecer. Com
igualdade no direito de viver.

IRÁ CHEGAR...