02/04/2013

"Eu não tenho soluções. Eu só tenho opiniões"

Li duas entrevistas no início dessa semana que gostaria compartilhar. Uma lá da década de 70, com o grande Dom Helder Câmara, uma das vozes mais agudas em favor dos pobres e dos direitos humanos na história deste país; outra, mais recente, com a secretária de planejamento da prefeitura de São Paulo, Leda Paulani, em que ela dá uma grande esperança aos que acreditam em um Estado que (re) assuma seu papel de ordenador dos espaços públicos, para que sejam justos e igualitários. Ambas são longas e densas, e não têm necessariamente relação - ainda que dê pra fazer paralelos aqui e ali. Apenas li e fiquei com uma vontade imensa de indicar, compartilhar, discutir.

* o título do post, por falta de criatividade deste que vos escreve, é tirado da entrevista de Dom Helder.
"Meu socialismo é especial, é um socialismo que respeita a pessoa humana e remonta aos Evangelhos. Meu socialismo é a justiça"


Dom Helder fala à jornalista italiana Oriana Fallaci e quem recupera essa belíssima entrevista é a também jornalista Cynara Menezes, que traz em seu blog a íntegra do texto. Durante a conversa, o arcebispo, único brasileiro indicado quatro vezes ao Nobel da Paz, fala sobre igreja, política, juventude, ditadura, de sua (boa) relação com o papa Paulo VI e as constantes ameaças de morte que recebia. Veja aqui: Entrevistas históricas - Oriana Fallaci entrevista Dom Helder Câmara.

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"Está na hora de o poder municipal começar a exercer seu papel de ordenador, pautando o setor imobiliário, em vez de ser pautado por ele"

A secretária de Planejamento da cidade de São Paulo deu essa belíssima entrevista à Folha de São Paulo no dia 28 de março. Cheguei a ela por meio do blog da Raquel Rolnik, urbanista e relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada, uma figura interessantíssima que tem ecoado os protestos contra as violações de direitos humanos que tem acontecido no país em nome dos grandes eventos. E a entrevista com Leda Paulini é um bálsamo nesses tempos em que, especialmente aqui no Rio, nos apavoramos com o  um verdadeiro imobilismo dos governos para intervir em algumas situações gravíssimas de proponderância de interesses privados ao interesse público (e humano, em muitos casos!). Temos a impressão que o poder público perdeu o controle e está paralisado frente a um domínio do setor privado sobre a vida da cidade. Vide o mercado imobiliário carioca, que segue expulsando moradores da cidade nessa escalada de especulação que não parece ter limites. Se de fato o governo paulistano conseguir reorientar a política municipal, como a secretária defende ("numa direção menos opressiva, de mais liberdade e generosidade), vai ser muito bom para o país. Mas, para além da questão governamental apenas, a entrevista é boa por discutir questões profundas que cotidianamente são discutidas apenas na superfície. Dá pra ler aqui: Pinheirinho 2 mostra lógica mercantil, diz secretária de SP

3 comentários:

Anônimo disse...

jader, aqui é carla rocha do globo. gostaria de conversar com vc. o tel da redação do jornal é 25345341. abs.

Gabriel Araujo disse...

Finalmente terminei de ler as entrevistas e achei legal compartilhar algumas impressões:

O Dom Helder trata questões importantes sobre como deveria ser a atuação de um servo ante as opressões vividas pelo povo. As opressões mudam com o passar do tempo, mas elas ainda estão aí, fazendo vítimas, oprimindo e calando, matando e violentando. Muita opressão física, como o caso da chacina do Borel, da qual você tratou no seu artigo mais recente aqui no blog, mas também muita opressão 'moral', velada em suposta liberdade de expressão. Enfim, Dom Helder deu voz aos oprimidos de sua época, um exemplo para os servos (todos e não apenas padres) que eu acredito que você e muita gente segue muito bem com suas atitudes e palavras...

A entrevista da Leda é ainda mais abrangente. Trata de mudanças estruturais que poderiam desarticular outras opressões de maneira mais ampliada e permanente, em forma de políticas públicas.

Nos dois casos, o embate com um sistema nem sempre é fácil e permite os resultados esperados. Mas parece ser uma luta necessária.

Gabriel Araujo disse...

"Parece" não! "É" uma luta sempre necessária! hehe