06/06/2012

Por que não?

Entre o preto e o branco existem 256 tons de cinza. Esta é uma lição importante não apenas para quem trabalha com paletas de cores.  É um ensinamento que exige atenção. Existem muitos jornalistas arrogantes, mas nem todos são. Nem toda cultura neopentecostal é alienada (ou alienante) politicamente. Nem todas as feministas são histéricas. Nem todos os policiais são maus, ambientalistas não são chatos em sua totalidade . Lutar contra o maniqueísmo [fácil, simples, redutor] é um exercício diário.


Em certos momentos, jogar no lixo algumas de nossas verdades sobre o mundo pode ser um ato profundamente libertador. É isso, fundamentalmente, que tenho feito, ou procurado fazer, no último ano. Deixar de lado os “porquês?” que me guiaram por toda uma vida, e substituir por uma expressão parecida mas fundamentalmente distinta: “por que não?”. “Por que não?” é o reconhecimento das alteridades, das diferenças entre o eu e o outro como constitutivas deste mundo em que vivemos, como estranhos e familiares. 


Uma é prestigiada jornalista de Economia do principal jornal do maior conglomerado de comunicação do país. Outra é negra, suburbana, estudante de escola pública. Uma terceira é cidadã do mundo, tem dezenas de carimbos em seu passaporte, da França à África do Sul, Estados Unidos à China. Tem outra ainda que sobe favelas, conversa de igual para igual com a molecada, milita em várias frente sociais. Não se pode  esquecer daquela que é mãe, esposa, filha, abdica de compromissos por uma reunião de família. E todas elas são uma mesma pessoa. Porque então colocar um rótulo a partir de uma só face, que lhe seja mais conveniente criticar? Porque tratá-la como a jornalista-filha-da-puta-elitista-que-trabalha-num-jornal-filho-da-puta-elitista?

Mais que nunca, nossas identidades são múltiplas. Eu sou o Jader do Mestrado. O Jader jornalista. O Jader marido. O Jader do facebook. São tantos Jaders e é um mesmo Jader. Sou inteligente? Depende do lugar. Sou engraçado? Depende do contexto. Sou chato? Quase sempre. As minhas identidades são tão multifacetadas quanto os ambientes em que estou, as pessoas com que cruzo ou convivo. Quem vai conseguir me encaixar em um só rótulo? Duvido – e desafio.

Há algumas semanas, uma discussão tomou conta do país, nas ruas, nas casas e – sobretudo – neste terreno incrível que é a internet. A questão era séria e desafiava conceitos e verdades de todos os lados. O que fazer com os fetos anencéfalos e a legalização ou não do aborto nesses casos. O tema era rico, complexo, envolvia questões de muitas ordens. Mas o debate foi todo ele reduzido a dois pólos: de um lado, os que "defendiam a vida" acusavam os seus adversários de assassinos frios e crueis, matadores de criancinhas, monstros. De outro, os "defensores dos direitos humanos" classificavam os demais como fanáticos religiosos não dotados de razão, alienados e insensíveis ao sofrimento da mulher. 

Do meu lado, adotei uma postura incomum para "meus padrões": fiquei em cima do muro. Assumi publicamente esta postura. Não que não tivesse uma opinião, não que a questão me fosse indiferente. Mas eu não era um monstro nem um fanático religioso. Não encontrei espaço naquela discussão. Achei uma vitória ter ficado em cima do muro em debate tão repleto de paixões cegas e completamente ignorantes da visão do Outro. 

Cada vez mais acredito que as respostas (se elas existem) não estão nos pólos. Estão ali perdidas naquele bolo cinzento. Enquanto a gente não entender isso, acho que vai ficar cada vez mais intolerável entrar em qualquer discussão, debater o mínimo assunto com quem quer que seja. Cada um fechado em seu mundo, certo da sua verdade, enxergando o outro como o mau, o burro, o alienado, o manipulador, o alemão. Personagens tão maniqueístas só existem nos quadrinhos e folhetins. A vida real, felizmente, é um pouco mais complicada que isso. 

Um comentário:

Gabriel Araujo disse...

Dialogando em partes com um desabafo meu: http://www.ovencedornews.blogspot.com.br/2012/04/intolero-intolerancia.html

hehehe

Belo desabafo. E eu digo Amém!