09/03/2011

Descompassos

Samba e futebol, eis uma combinação brasileiríssima. E eis que interrompo minhas boas férias, para escrever sobre esses assuntos que tanto me animam. São duas pequenas observações, microtextos, sobre certos descompassos que assisti (e tenho assistido) nesses dias. Espero que gostem – e discutam:

1. Poucas vezes vi um descompasso tão grande entre a opinião pública e os “formadores de opinião” como nesse imbróglio envolvendo a volta do Adriano. Sim, pois se para a imprensa especializada é uma loucura o Flamengo pensar em repatriar o atacante, para a torcida seria um sonho.
Basta ver qualquer enquete, em qualquer site, que a massa rubro-negra deixa claro: sim, queremos o Imperador de volta! Basta ver qualquer mesa redonda, em qualquer canal, que os jornalistas se perguntam: quem em sã consciência gostaria de ter Adriano?
Os formadores de opinião, nesse caso, estão em posição diametralmente oposta à opinião pública. Não que seja um erro isso – pelo contrário. Mas é curioso: o povo quer Adriano, apesar da negativa tão firme dos jornalistas.
E é impressionante mesmo a discrepância: a massa jornalística abomina o Adriano; a massa torcedora idolatra. E os jornalistas não conseguem entender como uma torcida deseja um jogador que se envolve em problemas uma semana sim, outra também, e acaba manchando a imagem do clube. E os torcedores não entendem como podem questionar essa paixão por um jogador que foi o grande artilheiro e ídolo recente do time, é flamenguista legítimo, cria da base, e deu à Nação o título mais importante do país, que não comemoravam há 17 anos.
Sou jornalista e torcedor. Neste caso, estou mais alinhado à torcida que aos colegas. Mas não deixo de ver graça nisso tudo. Só que existe um argumento muito utilizado pelos jornalistas que, dado esse quadro que descrevi, é falho: dizem que a imagem de Adriano é ruim para o marketing, é ligada a problemas, investidores terão receio. Enfim, não vende mais. Agora eu pergunto, não vende para quem, cara-pálida? Se precisa vender para alguém, é para a torcida rubro-negra. E existe dúvida de que o Imperador ainda é um bom produto para essa massa?

2. Não estou torcendo para a Unidos da Tijuca. Foi um belo desfile, mas acho uma pena se a agremiação do Borel vencer. Faltou samba. E isso, para uma escola de Samba, deveria ser imperdoável.
Vejam que não sou tradicionalista ou avesso às inovações. Sou super fã de Renato Lage, que aborreceu sambistas mais tradicionais com seu estilo high tech na década de 90, e também sou grande fã de próprio Paulo Barros desde a monumental alegoria do DNA, na mesma Tijuca, em 2004.
Mas achei que esse ano o carnavalesco passou do ponto. Se o desfile foi tecnicamente perfeito, plasticamente irretocável (pela primeira vez em sua carreira), achei que a escola atravessou o samba. Não no sentido tradicional, quando as alas de outrora cantavam os versos em tempos diferentes umas das outras. Antes fosse!
Achei que faltou carnaval mesmo! Sobrou espetáculo (de encher os olhos) e faltou carnaval. Ano passado, foi o máximo, o apogeu, a consagração do grande carnavalesco que é Paulo Barros. Adorei e fui árduo defensor contra aqueles (poucos) críticos ao show da Tijuca. Era extremamente carnavalesco, tudo se justificava, a comissão de frente era um primor e totalmente encaixada no enredo, o samba era ótimo, a escola estava leve. Foi campeã com louvores. Como o próprio Renato Lage admitiu, Paulo Bareros havia acertado na veia. Este ano, ele exagerou na dose.
Todas as alas coreografadas. TODAS. É demais. Além disso, um enredo confuso, que inicialmente se destinava a falar do “medo” no cinema, com referências a filmes de terror – o título do enredo era “Esta noite levarei sua alma”, em homenagem ao filme do Zé do Caixão. Mas o que vimos na avenida? Priscila, a Rainha do Deserto, Harry Potter, A Fuga das Galinhas, Avatar, Carros... onde está o medo, onde está o terror?
Não vi uma escola de samba, não vi a leveza do carnaval e não acho uma boa que este desfile sirva de referência para outros carnavais. Repito: sou fã de Paulo Barros, adoro suas inovações, acho um carnavalesco excepcional. Mas esse ano ele passou do tom. E consagrar esse exagero pode ser danoso ao próprio carnaval.
Os desfiles de 2011 foram marcados sobretudo por muita emoção e por baterias que arrepiaram, com paradinhas e paradões à la Mestre André* que levantaram a Sapucaí. Se a Mangueira vencer, por exemplo, isso será exaltado – e as escolas irão prosseguir inovando, alguém tem dúvidas? Agora, se a Tijuca vencer, a emoção, a alegria, a bateria, o samba vão se tornar coadjuvantes ao se analisar o carnaval que se passou. O que é uma injustiça ao belíssimo espetáculo que tivemos neste ano no Sambódromo.
* Mestre André, da minha Mocidade, que inventou a paradinha. Aliás, minha Mocidade... que tristeza! Antes, um passo à frente. Hoje, um passo atrás.** Três escolas me encantaram: Mangueira, com enredo monumental e uma bateria fantástica; União da Ilha, leve, livre, solta e linda; e Salgueiro, que soube equilibrar as inovações com um carnaval alegre, irreverente e belíssimo! Renato Lage continua sendo o grande carnavalesco do Rio de Janeiro.*** Escrevo minutos antes da apuração. Enquanto você lê, provavelmente a Tijuca já se sagrou campeão do carnaval.

Um comentário:

Giovana Damaceno disse...

Ouvi recentemente de um profissional de jornalismo ENVOLVIDÍSSIMO com o futebol uma das explicações para tal comportamento de cartel da imprensa contra ou a favor de jogadores. Trata-se de dinheiro. Quem paga é exaltado; quem não paga é execrado. Assim, mesmo, simplíssimo. Pode ser jogador ruim, bom, mais ou menos, não importa. Repórteres e comentaristas são muito bem pagos para 'formar opinião favorável' de quem despende a maior quantia, enquanto os desafetos, que se recusam a esta prática, são ácida e permanentemente criticados.
Quanto ao carnaval carioca, não venceu a melhor, nem a que fez a melhor exibição, ou o que fosse. Ganhou a que foi mais esperta. Rica, a Beija-flor decidiu homenagear uma das maiores unanimidades nacionais (concorde você ou não com isso) e ainda contou com o apoio total e irrestrito da TV Globo. Eu não tinha dúvidas quanto ao resultado.