05/09/2010

O dia em que a Folha virou piada...

O jornalismo não tem a obrigação de ser imparcial. Tem de ser honesto. A frase é repetida algumas vezes por um dos grandes jornalistas da imprensa brasileira, Ricardo Noblat, mas parece estar meio esquecida nas grandes corporações de mídia do país.

Há pouco tempo, falei aqui da alta carga de jornalismo panfletário assumido por alguns grupos nesta época eleitoral. Não que seja errado o jornal possuir um lado. Pelo contrário, é direito da empresa. Mas é direito do público saber de que lado aquela publicação está.

A Carta Capital, e cito ela porque foi a única que vi fazer, assume em editorial que apoia determinada candidatura. Pode-se discutir se o jornalismo, como formador de opinião, pode abraçar de tal forma determinado candidato. Mas certamente é muito mais honesto com o leitor que, ao ler a revista, sabe exatamente em que posição do campo político ela está situada.

A manchete de domingo (05/09) da Folha de São Paulo, um dos mais respeitados jornais do país, foi lamentável. Jornalismo panfletário da pior espécie. Certamente (como dois e dois são quatro) será utilizado pela propaganda eleitoral de um dos candidatos – e dá até pra suspeitar se não seria este o objetivo quando tal manchete foi produzida.

E a resposta à manchete, quase imediata, veio da forma mais democrática possível: através da internet, do microblog twitter, espaço livre de circulação de ideias. A hashtag #DilmaFactsByFolha, que rapidamente se transformou numa das expressões mais postadas pelos internautas brasileiros (TTBR), foi um indicativo de que a falta de honestidade do veículo teve um preço. E o preço que o jornalismo paga por faltas como essa é a gradual perda da credibilidade – o bem mais precioso de todos.

Repito: Jornalismo não precisa ser imparcial. Tem que ser honesto. Melhor dizer "apoiamos fulano" que simular uma falsa isenção. Jornalismo que tenta ludibriar a opinião pública com imparcialidade inexistente não merece crédito.

Tomara que o movimento ajude o jornalismo brasileiro a repensar alguns pontos. Porque não foi uma resposta exclusiva a uma manchete da Folha, mas sim uma crítica dos que já estão saturados da forma com que a imprensa vem se comportando nos últimos meses – quiçá, nos últimos anos.

Até torço para que os jornalistas (da Folha, da Veja, do Globo, da Carta, do Ig, das academias, de onde quer que seja) aprendam alguma coisa com o episódio. Mas, sinceramente não creio que os jornalistas deem o braço a torcer, revejam os erros e passem a andar por outra trajetória. Afinal, evocando mais uma vez a figura do Noblat, cientista é que pensa que é Deus. Nós, jornalistas, temos certeza.
E não daremos o braço a torcer, mesmo que os fatos mostrem que estamos no caminho errado...


A manchete da Folha

A reação em tempo real

Um comentário:

Giovana Damaceno disse...

Simplesmente SENSACIONAL a reação no twitter. Como diz Ricardo Kotscho, "Foram-se os tempos em que eles faziam ou derrubavam presidentes e se julgavam os verdadeiros donos do poder, os formadores de opinião, os únicos proprietários da verdade(...)Quem sabe agora tenham a humildade e o bom senso de reconhecer que acabou a época dos formadores de opinião abrigados na grande imprensa, que perde circulação e audiência a cada dia. Novos meios e novos agentes multiplicaram-se pelo país, democratizando a informação e a opinião. Ninguém mais precisa dizer o que devemos pensar, como devemos votar, o que é melhor para nós. A liberdade de imprensa e de expressão não tem mais meia dúzia de donos. É um direito conquistado por todos nós."
Valeu, Jader. animou ainda mais o meu final de domingo!