20/12/2012

Passará!


O mundo vai acabar de novo. Decida como!

Foi inspirado por Giovana (mais uma vez) e pelo Gabriel (de novo também) que resolvi escrever este texto. Foram os dois que me inspiraram a abrir e manter esse blog, aliás, devo dizer. Bem, dizem por aí que o mundo vai acabar amanhã. Mas esse assunto é tão velho e batido que com apenas pouco mais de duas décadas de vida, já presenciei alguns finais de mundo.


O mais interessante talvez tenha acontecido há uns dez ou doze anos. Um grupo de jovens loucos religiosos, incluindo aí uns poucos amigos meus, fez suas contas e chegou à data exata da Parusia, a volta de Cristo, o fim deste mundo. Tudo isso a partir de uma interpretação meio torta de algumas passagens bíblicas. E no dia matematicamente contabilizado se reuniram, se ajoelharam, esperaram junto pelo messias que retornaria glorioso vindo das nuvens e montado em seu cavalo branco. Ele não veio. E, graças a Deus, nunca mais ouvi falar desse grupo, que chegou a amedrontar muita gente boa com suas previsões sinistras.


Uma matéria no Diário do Vale, no último domingo, lembrou uma série de outras profecias apocalípticas que também não se concretizaram e nos permitiram chegar aqui, hoje, vivos, sãos e salvos: a destruição pelo cometa Halley em 1910; o bug do milênio na virada de 1999 para 2000; as previsões de Nostradamus, em 2001; entre outros.

O assunto é velho, repito. Só que tem algo de novo neste fim do mundo de amanhã. Lendo um pouco sobre a tal profecia dos maias, entendi que eles não predizem um final apocalíptico e definitivo para a Terra. Eles falam de um "novo ciclo". Minha voz da razão, a parte de minha consciência que diz "não seja idiota", me alerta que é uma bobagem dissertar sobre isso. Contudo, achei interessante. O "novo ciclo" me ganhou.

Não que eu creia que os planetas se enfilerairão e os astros vão redesenhar os nossos destinos. Ou que o segundo sol vai chegar e entraremos, enfim, na era de aquário. A única diferença do dia de amanhã para o dia de hoje é que estaremos um pouco mais perto do Natal. Esse é o concreto. Mas a ideia do novo ciclo é muito boa. Muito oportuna. Muito instigante. Me ganhou, como já disse.

Na última semana, o padre carismático cravou uma expressão em sua longuíssima e performática homilia que disparou em mim uma série de reflexões: "Isso passará!". É simples, bem simples. E, ao mesmo tempo, me pareceu tão profundo que permaneci o resto do domingo com a advertência na cabeça. A consciência de que tudo é passageiro, as frustrações e as glórias, é fundamental para que a gente se mantenha no chão. Quando eu estiver na lama, um "vai passar" pode me trazer mais conforto à alma. Quando meu sucesso for aclamado por todos e eu estiver na crista da onda, "isso passará" sossega meu ego e acalma minha vaidade.

Brinquei com Bia, no domingo após a missa, que já tinha encontrado a frase para minha tatuagem. Mas teria que ser na testa, para que eu visse sempre que olhasse no espelho. Resolvi adotar como filosofia de vida. Se hoje Marília Gabriela me perguntasse, já no seu tradicional desfecho de entrevista: uma frase, um trecho de música, um poema... já tenho a melhor entre todas as respostas que um dia pensei para a questão. Isso passará! (e como sou tão inconstante, na semana que vem pode ser que eu descubra outra frase melhor, da minha vida, rs).

Já escrevi bastante aqui sobre o que penso da vida e sua volatilidade. Talvez seja um dos meus temas preferidos. Falei de seu brevíssimo segundo, de sua estupidez, do trio tempus fugit-vita brevis-carpe diem. Admito que posso estar parecendo repetitivo, então. Mas não é disso (ou ao menos não somente disso) que estou tratando agora.

O que estou partilhando aqui é que amanhã, quando der meia-noite e tivermos a certeza de que ainda não foi desta vez, talvez seja o momento de entendermos o texto maia com maior profundidade. Não como uma profecia apocalíptica sobre o fim dos tempos. Profecias assim já temos inúmeras. O que estou buscando apreender disso tudo - e agora posso parecer maluco, por estar levando essa loucura muito a sério - é sobre os ciclos, novos ciclos, novas eras, as reinvenções que podemos dar para as nossas vidas. Ciclos profissionais, pessoais, reinvenção de sentido. Vida nova, na mesma vida. Terra nova, na mesma Terra. O fim e o (re) começo em um único instante.

Não que o dia 21 de dezembro seja o predestinado para se pensar tudo isso, para se iniciar o novo ciclo. Pode ser, como também pode ser o 6 de janeiro, 1º de março, 26 de julho, 13 de fevereiro. Aliás, acho que a maioria de nós já se reinventa cotidianamente, com todo o potencial criativo que temos ou forjamos. Agora, que tal fazermos dessa reinvenção algo mais consciente? Nos forçarmos a sair da zona de conforto e buscarmos novos caminhos? Ou então, porque não?, sairmos um pouco da turbulência e procurarmos a paz e o conforto, ao menos por uma temporada?

Que tal abrirmos mão das nossas verdades e nos arriscarmos mais, experimentarmos mais, duvidarmos mais, quebrarmos mais a cara? Porque as nossas verdades também são passageiras, também podem se esvair de um dia para o outro, nossas certezas são um tanto quanto incertas. 

Que tal fazermos de "isso passará!" nossa palavra de ordem? Levantarmos nossa bandeira contra o comodismo, a mesmice, a segurança que aprisiona? Reinventar nossa trajetória. Construir, nós mesmos e por nós mesmos, nossos novos ciclos. Ao contrário do ditado, construir novos começos e novos fins.

Talvez estas sejam minhas metas pouco ousadas para o próximo ano. Meu retrospecto não é favorável pois este ano, quando pela primeira vez fiz promessas na hora da virada, não consegui cumprir uma sequer. Nenhuma. Em 2013, quero reinventar, descobrir outros caminhos, sair do lugar. O fim do mundo será apenas o começo.



[por fim, para descontrair e terminar bem o ano, Adriana Calcanhoto reinterpretando Carmem Miranda - que em 1938 cantou que... anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar!]

2 comentários:

Giovana Damaceno disse...

Aprendi algo semelhante quando estava me tratando de câncer: "Isso também passa!", uma frase de Chico Xavier, que nos alerta que tudo na vida é transitório, inclusive os momentos de alegrias, de euforia, de satisfação. Enfim, a única coisa que não muda na vida é a mudança.

Gabriel Araujo disse...

"E o tal do mundo não se acabou..." Li sobre esta parte "mística" da profecia e confesso que também foi a mais plausível pra mim. Até porque a necessidade de "reinventar-se" nunca foi tão latente (nos sentidos mais amplos). A data é apenas uma data, mas que vai ter que mudar por bem ou por mal em várias coisas isso vai (um exemplo é essa crise toda do capitalismo que tá durando mais do que se imaginava)... só especo que a reinvenção seja pro bem!