Em meu último post, já havia feito uma despedida, acreditando, pelo meu próprio retrospecto, que não voltaria aqui antes do fim do ano. Mas voltei. Metamorfose ambulante, vocês sabem. Voltei porque assistindo alguns vídeos e lendo alguns textos, resolvi fazer uma pequena retrospectiva do meu ano.
Dessa vez quero lembrar meu ano através de algumas coisas que me emocionaram.
Foi inspirado por Giovana (mais uma vez) e pelo Gabriel (de novo também) que resolvi escrever este texto. Foram os dois que me inspiraram a abrir e manter esse blog, aliás, devo dizer. Bem, dizem por aí que o mundo vai acabar amanhã. Mas esse assunto é tão velho e batido que com apenas pouco mais de duas décadas de vida, já presenciei alguns finais de mundo.
Era uma vez um empregado. Mas não era um empregado qualquer.
Era um empregado daqueles que mandam em outros empregados. E era um dos
empregados preferidos do chefe. Discreto, seriíssimo, acima de todas as suspeitas
– até prova em contrário.
Era uma vez um chefe. Era do tipo malandro, metido a esperto
e não tinha qualquer respeito por seus clientes. Dizia que tinha, fingia que
tinha, mas estava mais interessado em si mesmo. Aumentar seu poder, multiplicar
seus lucros, tornar-se imbatível, este era seu objetivo.
Atravessa o salão lotado e entrega nas suas mãos. Pede desculpas por eventuais erros de português. Aí você abre a carta:
(...) eu peço a ajuda de vocês para que essas diferenças acabem e que nossos jovens e adolescentes possam sair de casa sem medo de serem agredidos ou extorquidos.
Eu acho que a questão do sonho é que nos mantém vivos,
eu acho que não existe vida sem esperança e a
esperança tem essa versão do sonho, porque você imaginar
e agir somente em função do possível,
eu acho terrivelmente chato.
Betinho
No último mês, precisamente no dia 11 de julho, mais precisamente em um seminário promovido pelo Alto Comissariado da ONU, ouvi uma sentença que costuma me irritar. Foi assim: depois de eu fazer uma breve explanação sobre o tema do dia, insistindo incisivamente em um compromisso global para compartilhamento das responsabilidades na promoção dos Direitos Humanos mais básicos (tal como alimentação) nos países sem capacidade técnica/financeira/pessoal para fazê-lo, veio a maldita sentença. Mais ou menos desse modo: "Que lindo", um sorriso. "Que bom se todos pensassem assim". Sorriso amável. "Precisamos de sonhadores". Um risinho esganiçado. "Agora vamos voltar ao mundo real". Ponto.
Elisa Lucinda ministra aula aberta de
Poesia Viva em sua Casa Poema, no Rio de Janeiro
Fotos: Natássia Carvalho
Rio
É como se fosse uma pregação religiosa.
Hipnotizados, em profundo silêncio – quebrado aqui ou ali por gargalhadas e
comentários bem pontuais -, todos ouvem atentamente a poetisa: “A palavra
também faz parte da estética. Pode enfeitar ou enfeiar a pessoa. A poesia é o
instituto de beleza das palavras”, começa Elisa Lucinda, para os trinta pares de olhos atentos a cada
traço, à sua menor expressão.
[Depois de muito tempo, resolvi voltar. Desculpem. Não prometo que isso não vai acontecer de novo. Mas vou me esforçar. Isso eu prometo. Neste pouco mais de um mês de ausência, tive algumas boas ideias e escrevi um ou outro texto (não finalizados) para postar aqui. Só que resolvi abandoná-los por um instante. Deu vontade de escrever "hard news". Dar uma pausa na subjetividade que repousava neste blog em seus últimos posts. Quebrar a cara com opiniões polêmicas que não rendem um só comentário ou previsões exageradas que não se confirmam. E então bateu uma dúvida: falar sobre o que? Tanta coisa que quero falar. E porque não falar de "tanta coisa", ora pois?! Depois de tanto tempo, acho que tenho direito a um post um pouco mais longo - e denso - que o comum, não? Talvez não seja uma boa ideia, um bom cartão de visitas para quem voltar a visitar este blog. Assim como certamente não foi uma boa ideia todo esse preâmbulo em que não digo nada, absolutamente nada. Mas espere! Agora sim é que vou começar...]
Entre o preto e o branco existem 256 tons de cinza. Esta é uma lição importante não apenas para quem trabalha com paletas de cores. É um ensinamento que exige atenção. Existem muitos jornalistas arrogantes, mas nem todos são. Nem toda cultura neopentecostal é alienada (ou alienante) politicamente. Nem todas as feministas são histéricas. Nem todos os policiais são maus, ambientalistas não são chatos em sua totalidade . Lutar contra o maniqueísmo [fácil, simples, redutor] é um exercício diário.
Vencer a violência, vencer essa tristeza. É só uma parte deste começo.
Trecho de uma canção do CD Minha Vida, Minha Música (Borel)
Amantes das Artes - Dança de Rua
Não tem jeito, vira e mexe a gente acaba retornando ao lugar onde estamos. Mais uma vez, falarei sobre o Borel. Já contei aqui sobre as mulheres, os meninos, a comerciante prestes a ser despejada. Hoje não quero falar de um grupo específico. E me desculpem se restar a impressão de samba de uma nota só. É que determinados acontecimentos, determinadas coisas, determinados lugares nos tocam de forma tão profunda que vira uma quase obrigação compartilhar com o mundo.
O dia foi sábado. O local, a Praça Xavier de Brito - tradicional recanto da família tijucana que leva seus filhos para passearem a cavalo nos fins de semana, em um cenário quase bucólico, quase interiorano: um chafariz, um coreto, parquinho, árvores, os velhinhos jogando baralho. O objetivo eram vários e era um, integração. Entre as sete favelas, entre as favelas e o bairro, entre o Estado e as pessoas.
Ao construirmos o projeto, junto com as comunidades, a partir da comunidade, pensamos em invadir aquela praia. Chamar a atenção dos nobres tijucanos sobre a produção artística, social e de geração de renda existente nas favelas do entorno - que, anote-se, não foram inventadas após a "pacificação", mas já existiam e continuarão a existir com ou sem ela. Era um presente, na verdade, ao asfalto: com o "Comunidade na Praça", buscávamos (re)apresentar a parte alta do bairro, com todos os seus talentos e com o mínimo de estereotipia possível. E não é que conseguimos*?
E se não há como descrever com exatidão o que se passou, acho que algumas imagens dão conta de colorir esse meu relato: a artesã tijucana que descobriu que não precisa viajar mais à Copacabana em busca de costureiras, ao contrário, conheceu o grupo de artesãs comunitárias que se reúne a poucos metros de sua casa e contratou duas ali, no ato; o produtor cultural garimpeiro de jovens talentos que, estando na praça, descobriu algumas preciosidades, trocou contatos com os grupos e apresentou-lhes seu projeto de intercâmbio cultural com universidades americanas; a senhora, já bem velhinha, que descobriu, espantada, que aquela rádio que animava a praça [Rádio Comunitária Grande Tijuca] existia "de verdade"; a outra senhora, um pouco mais velha, que quis subir ao palco para dançar funk e dança do passinho com a molecada da Casa Branca; a piscina de bolinhas lotada de crianças e com uma coloração especial: pretos, brancos, ruivos, Estrada da Independência, Conde de Bonfim, Casa Branca, Borel, Chácara...
A todos estes, soma-se um momento, logo no início da manhã, em que a Praça parou para ouvir o que se passava no palco (palco, aliás, que muito me orgulho de termos conseguido reunir uma pluralidade incrível de grupos artísticos, da música gospel à black music, dança contemporânea à capoeira, todos daquelas sete favelas). Foi quando o baterista de uma das bandas deixou a batera e foi para o microfone. Em alto e bom som entoou o Funk do Borel, um hino que me emocionou e tocou todos que passavam pelo local. Foi o aplauso mais forte, mais sentido, mais consagrador que seu ouviu naquele dia. Não apenas pela (excepcional) banda que estava sobre o palco. Mas sobretudo porque a canção sintetizava um pouco daquilo tudo que estávamos fazendo ali.
Prazer, Tijuca, nós somos o Borel.
Funk do Borel. A praça parou. Para um segundo pra ouvir também.
Matéria sobre o evento. Dá pra ver um pouco do que escrevi aí em cima.
* quando estou falando em primeira pessoa (nós), não me refiro à equipe de trabalho da qual faço parte. Falo de nós todos envolvidos no evento - a equipe, as associações, ONGs, os grupos artísticos, todos nós.
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Em tempo: que belíssimo o julgamento sobre as cotas raciais no STF. Emocionante a unanimidade. Juridicamente incontestável a decisão. Quebrou o coro dos intelectuais de "sofismas e argumentos tortos", como disse Miriam Leitão em brilhante artigo sobre as cotas. Uma por uma, as falsas questões foram sendo derrubadas. Foi emocionante! Uma vitória sem precedentes!
Meia-noite de 23 de abril e no céu do Rio de Janeiro começam a pipocar fogos. A cidade é despertada para celebrar o santo guerreiro, Jorge de Capadócia, mártir venerado na igreja católica e cultuado como Ogum nas religiões afro-brasileiras.
Durante muito tempo vivi alheio à figura São Jorge. Devoto de Francisco de Assis e Nossa Senhora Aparecida, nunca entendi o fascínio que o guerreiro exercia sobre uma multidão que enchia as ruas e as telas da TV em que assistia, à distância, com procissões, cultos, festas. Hoje compreendo. E também faço parte da massa.
Quero ser breve, porque um dia pretendo escrever de forma mais profunda sobre isso, mas acredito que a devoção a Jorge tem muita relação com a metrópole. Se antes o culto me intrigava, depois que passei a morar no Rio de Janeiro ele me pareceu muito natural. Como se, ao viver neste lugar, automaticamente me tornasse devoto deste santo protetor.
Retornando à questão que quero tratar neste post: acho que a metrópole te obriga a empunhar as armas de Jorge. Sei que é uma fé que existe em todas as regiões do país (e do mundo), inclusive aquelas rurais e periféricas, contudo acredito que na metrópole, em especial, estamos expostos a tantos perigos, tantos riscos, são tantos os dragões, que vestir essa armadura se impõe como uma necessidade primária - não só na metrópole, na sociedade moderna como um todo; mas especialmente na metrópole, me entendam.
Diante de todos os dragões, a invocação a Jorge é uma arma a mais para a luta. Junto com o terço mariano, para uns; as guias dos orixás, para outros. É no sincretismo tão tipicamente brasileiro que a fé em Jorge floresce.
Hoje é dia de Jorge. Dia dos guerreiros. Daqueles que têm que vencer um dragão por dia para sobreviver. Têm que se desviar da bala, dos carros, do prédio e até do bueiro. Da vizinha fofoqueira, do colega invejoso, do patrão mau caráter. Dos inimigos inimigos visíveis e invisíveis. Hoje é dia de comemorar a luta, a vitória nossa de cada dia nesta terra louca para nos devorar.