Há 10 anos, abril de 2003, quatro jovens foram executados no Morro do Borel. Os autores dos disparos, que atingiram as costas e as nucas das vítimas, foram policiais militares. Não há pena de morte instituída no Brasil; a execução de qualquer indivíduo, mesmo aqueles à margem da lei, é criminosa e indefensável. Mas neste caso vale destacar o perfil dos mortos, até para sublinhar o tamanho da tragédia: um era taxista; o outro, pedreiro; um terceiro, estudante; e o quarto sequer morava no Brasil, estava no Rio apenas para o alistamento militar obrigatório. Nenhum dos quatro era ligado às atividades do tráfico. Morreram sem poder se identificar.
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26/04/2013
02/04/2013
"Eu não tenho soluções. Eu só tenho opiniões"
Li duas entrevistas no início dessa semana que gostaria compartilhar. Uma lá da década de 70, com o grande Dom Helder Câmara, uma das vozes mais agudas em favor dos pobres e dos direitos humanos na história deste país; outra, mais recente, com a secretária de planejamento da prefeitura de São Paulo, Leda Paulani, em que ela dá uma grande esperança aos que acreditam em um Estado que (re) assuma seu papel de ordenador dos espaços públicos, para que sejam justos e igualitários. Ambas são longas e densas, e não têm necessariamente relação - ainda que dê pra fazer paralelos aqui e ali. Apenas li e fiquei com uma vontade imensa de indicar, compartilhar, discutir.
* o título do post, por falta de criatividade deste que vos escreve, é tirado da entrevista de Dom Helder.11/03/2013
Religião libertadora
É engraçado, mas todas as vezes que vou à Volta Redonda, o meu lugar, tenho a vontade de postar um trecho de uma canção religiosa em algum dos meus perfis nas redes sociais. Chego na casa de meus pais, abro o velho livro, já um pouco surrado, dos cânticos que entoávamos em uma época não tão distante, e fico escolhendo canções para recordar; cantarolo uma, redescubro outra e sempre me maravilho com a beleza, a riqueza e a força do que cantava.
22/08/2012
Tratado em Defesa do Sonho
Eu acho que a questão do sonho é que nos mantém vivos,
eu acho que não existe vida sem esperança e a
esperança tem essa versão do sonho, porque você imaginar
e agir somente em função do possível,
eu acho terrivelmente chato.
Betinho
No último mês, precisamente no dia 11 de julho, mais precisamente em um seminário promovido pelo Alto Comissariado da ONU, ouvi uma sentença que costuma me irritar. Foi assim: depois de eu fazer uma breve explanação sobre o tema do dia, insistindo incisivamente em um compromisso global para compartilhamento das responsabilidades na promoção dos Direitos Humanos mais básicos (tal como alimentação) nos países sem capacidade técnica/financeira/pessoal para fazê-lo, veio a maldita sentença. Mais ou menos desse modo: "Que lindo", um sorriso. "Que bom se todos pensassem assim". Sorriso amável. "Precisamos de sonhadores". Um risinho esganiçado. "Agora vamos voltar ao mundo real". Ponto.
01/08/2012
Pitacos
[Depois de muito tempo, resolvi voltar. Desculpem. Não prometo que isso não vai acontecer de novo. Mas vou me esforçar. Isso eu prometo. Neste pouco mais de um mês de ausência, tive algumas boas ideias e escrevi um ou outro texto (não finalizados) para postar aqui. Só que resolvi abandoná-los por um instante. Deu vontade de escrever "hard news". Dar uma pausa na subjetividade que repousava neste blog em seus últimos posts. Quebrar a cara com opiniões polêmicas que não rendem um só comentário ou previsões exageradas que não se confirmam. E então bateu uma dúvida: falar sobre o que? Tanta coisa que quero falar. E porque não falar de "tanta coisa", ora pois?! Depois de tanto tempo, acho que tenho direito a um post um pouco mais longo - e denso - que o comum, não? Talvez não seja uma boa ideia, um bom cartão de visitas para quem voltar a visitar este blog. Assim como certamente não foi uma boa ideia todo esse preâmbulo em que não digo nada, absolutamente nada. Mas espere! Agora sim é que vou começar...]
23/03/2012
A Cidade dos Outros
Comentava neste fim de semana com a Bia, enquanto passávamos por uma obra na região portuária do Rio, próximo à rodoviária: "Acho que passadas todas as turbulências, o Rio será uma cidade melhor para se viver. Mais organizada, melhor planejada, com mobilidade mais simples. Acho que será uma cidade mais moderna. Para quem conseguir sobreviver a ela".
Acredito mesmo que o Rio será, do ponto de vista urbanístico, uma cidade melhor pós-2016. Mas não será uma cidade para os que a construíram (o que, admito, é um contra-senso, pois o melhor dessa cidade é seu povo - e isso não é um clichê). Será uma cidade melhor, mas destinada a outro povo, construída para uma outra classe. Neste novo Rio não caberão os cariocas da gema que hoje andam pelas quebradas da cidade. Não caberão os malandros, a não ser aqueles de terno e gravata. Não caberão as mulatas dos requebros febris. Este Rio que está sendo construído, da forma com que está sendo construído, é para uma outra gente.
Não é uma previsão apocalíptica, antes fosse essa minha mania de ser exagerado. Desta vez, apenas me reporto aos fatos. Vamos a eles:
O Morro da Providência é a primeira favela do Brasil. Guarda um pouco da história do Rio e da cultura brasileira em suas casas, em sua gente. Casas que vão ser demolidas, gente que vai ser removida. Pois pasmem: mais de oitocentas casas estão previstas de serem derrubadas, por baixo pode-se pensar em três ou quatro mil moradores. Serão mandados para algum ponto da cidade. No lugar do imóveis que vão para o chão, passará um teleférico. Lá em cima onde os garotos jogam bola, será construído um mirante. Os turistas certamente vão adorar a vista.
O porteiro trabalha em um prédio na Vila Isabel. Foi no bairro que ele cresceu e morou por muitos anos, pagando um módico aluguel em um apartamento perto do Morro. Mas de repente Vila Isabel deixou de ser um bairro que cabia em seu bolso. Comprar seu próprio lugar virou tarefa impossível depois que o preço dos imóveis triplicou em curto espaço de tempo. Foi para Campo Grande, do outro lado da cidade. Para chegar ao seu trabalho, acorda quatro e meia da manhã. Vem de trem porque "só demora uma hora para chegar". A filha insiste em ficar por aqui e alugou uma casinha no Engenho Novo. De vez em quando vai visitar os pais na longínqua Zona Oeste. Só de vez em quando.
A dona da venda também vai ser removida. Ela mora na Indiana, uma das favelas que integram aquilo que o poder público agora resolveu chamar de Complexo do Borel, um aglomerado de sete favelas na Tijuca. Moradora da região há quase trinta anos, agora a pequena comerciante vê-se na iminência de ser mandada para um dos imóveis que o governo construiu em Triagem. Não me pergunte onde fica. "O apartamento até que é bom", começa o filho, "mas nossa vida está construída aqui", completa a mãe. Por vida, entenda-se a escola, os familiares, o posto de saúde, o espaço onde eles resolveram vender seus produtos artesanais há poucos meses para compor a renda familiar. "Nem regularizamos ainda porque dizem que vão nos tirar daqui, remover. Depois vou ter que pagar tudo de novo se eu for para outro lugar?", pergunta. A alternativa para a família, se não quiser ir para Triagem, é receber uma indenização do governo para procurar um imóvel por conta própria. O valor da indenização parece piada. E deve ser: entre dez e vinte mil reais. "Só este ponto custou trinta", revela a mulher, enquanto enumera as economias, empréstimos e prestações que fez para comprar o espaço de dois metros quadrados.
O Maracanã! Maior templo do esporte mais popular do país. Quase um bilhão em obras, cerca de trinta meses parado. Quando chegar ao fim, será um dos estádios mais modernos do mundo. O campo, explica o repórter, vai ser rebaixado em tantos centímetros, a arquibancada estará a apenas tantos metros do campo, a cobertura será totalmente nova em material sustentável de última tecnologia, os cento e dez camarotes serão mais espaçosos, mais luxuosos, com melhor visão de campo. E a Geral, seu repórter? Onde ficarão as arquibancadas populares? Me explica nesta sua reportagem: povo vai sentar em que lugar? O anjo rubro-negro, o Barack Obama brasileiro, o papa tricolor, os caixões dos adversários, as faixas "mãe, to na Globo", nada disso terá espaço na arena? Não combinam mais com o Novo Maracanã?
Está nascendo uma nova cidade. A dos milionários que gastaram meio milhão de reais na noite de inauguração da Daslu carioca. A dos empresários que escondem bem escondido o dinheiro da propina na garrafa de whisky. A do filho de empresário dono de uma fortuna de trinta bilhões de dólares que vai ao twitter dizer que vai fazer caridade por pagar o enterro de oito mil reais do ciclista pobre que ele matou. A da madame que mora numa cobertura em São Conrado, a cem metros da maior favela da América Latina, e acha um absurdo o traficante preso ter uma mansão de dois quartos e uma piscina enquanto pessoas a seu lado vivem em condição de miséria.
Um novo Rio está nascendo. Mas não se alegre, ele não foi feito para você.
Tá vendo aquele edifício moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão
E me diz desconfiado, tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer
Cidadão - Zé Geraldo
27/09/2011
Lula e a ira do andar de cima
Lula, silêncio por favor. Os da Casa Grande estão irritados.
Assim um jornalista argentino termina seu artigo sobre a posição da imprensa brasileira em relação ao título de Doutor Honoris Causa recebido por Lula essa semana. Explico: o ex-presidente foi escolhido por unanimidade para receber a homenagem pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris - o Sciences-po. O instituto é um dos mais prestigiados do mundo e em seus 140 anos já abrigou “a nata da elite francesa”, como os ex-presidentes Jacques Chirac e François Mitterrand. Apenas 15 pessoas já haviam sido contempladas com a honraria e Lula foi o primeiro latino-americano a recebê-la.
Enfim, imaginam a histeria por aqui, não é? Porque o torneiro mecânico não se contentou em ser presidente. Foi presidente, tirou 30 milhões da miséria, saiu com 80% de popularidade, se tornou prestigiado em todo o mundo. E isso irrita. Irrita porque, parafraseando-o, esse país não foi pensado para ser governado pelos que estão no andar de baixo. E quem ousa desafiar essa regra não pode ficar impune.
Em uma entrevista coletiva concedida pelo diretor do instituto, Richard Descoings, a primeira pergunta, vinda de um grande e respeitado jornal brasileiro, foi a seguinte: “Por que Lula e não Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor, para receber uma homenagem da instituição?”. Não é mentira. Está no site do jornal. A pergunta seguinte, também de jornalistas brasileiros, questionava do motivo de um prêmio entregue a alguém que se orgulhava de nunca ter lido um livro. Em seguida, no mesmo tom: “Por que premiam a um presidente que tolerou a corrupção?”. O nível continuou o mesmo e outro coleguinha brasileiro foi ao ponto, usando-se de ironia: seria essa premiação do Lula parte da política de ação afirmativa do Sciences Po?
O Brasil avançou muito nesses oito anos, mas parte da elite brasileira segue estagnada, sem ter movido um músculo, dado um passo sequer rumo à superação da pior das mazelas e misérias de uma nação, o preconceito. Separei quatro comentários de leitores à notícia da premiação de Lula. Ilustram bem o que digo. Vejam:
1 - “Gostaria de saber quanto o metalúrgico/enganador está pagando para receber "eçças" honrarias. Pois não tem outra explicação”
2 - “O mais novo símbolo do Brasil, um jegue”
3 - “Ovacionar uma toupeira dessas, é o fim da picada”
4 - “Vou tirar o meu título da parede e deixar só o de pós-doutorado. Se até o Lula (...) é doutor, me sinto diminuído”
Não são críticas políticas, apenas. Estas são legítimas e precisam ser feitas (na dúvida, leiam meu último post). Os comentários dos leitores, as perguntas dos jornalistas, as reações em alguns círculos sociais, demonstram um ranço preconceituoso que ainda persiste e um ódio de classes longe de ser superado.
Eu tenho orgulho. Independente de posição política – ou mesmo da avaliação que se faça sobre seu governo – tenho orgulho de viver em um país que elegeu para o cargo máximo da República um retirante saído do Nordeste em pau-de-arara, torneiro mecânico e líder metalúrgico, fundador do maior partido de massas da América Latina. Isso é prova de um povo maduro, que soube que somente um dos seus poderia entender suas dores. E isso, repito, me enche de orgulho.
Por fim, deixo o próprio Lula dar uma resposta a tanto preconceito. É uma resposta-desabafo. Esse vídeo é indispensável. Espero que vocês tenham paciência de ver até o fim. Um grande amigo, quando viu, soltou essa: “cara, sempre fiquei pensando se conseguiria explicar ao meu filho o que significou eleger o Lula presidente do Brasil. Para ele compreender a dimensão do que significa, agora já sei o que fazer: vou mostrar esse vídeo”. É exatamente isso.
(Lula fala adevogado. Fala "autoestima por si mesmo". Como alguns
devem se contorcer assistindo esse vídeo. Quem esse "anarfa" pensa que é?!)
devem se contorcer assistindo esse vídeo. Quem esse "anarfa" pensa que é?!)
22/09/2011
Sobre os Diferentes e os Antagônicos...
Em política, tem que se tomar cuidado com o que se diz. Agora o mais novo alvo de seu próprio palavrório é o PSOL...
Há menos de um ano, Jefferson Moura, candidato do partido ao Governo do Estado e atual presidente da sigla, criticava duramente o "ex-Gabeira", em referência ao abandono de princípios ideológicos de seu oponente, o Verde Fernando Gabeira. Ao mesmo tempo, Plínio de Arruda chamava sua adversária Marina Silva de "eco-capitalista", colocando em polos opostos suas candidaturas, no que tange à temática ambiental.
Agora estarão todos eles no mesmo palanque para tentar eleger Marcelo Freixo prefeito do Rio: Jefferson, Plínio, o ex-Gabeira e a eco-capitalista. Vão usar o mantra "unir-se aos diferentes para combater os antagônicos" tão utilizado por Lula para justificar o injustificável (Sarney, Jader e etc)?
A questão aí é: quem são os diferentes? E quem são os antagônicos? Essa separação se dá por questões programáticas ou pragmáticas? O Gabeira que era antagônico na eleição passada pode ser apenas diferente nesta? Ou nunca foi antagônico? E agora, José?
06/09/2011
Reflexões sobre a guerra particular
Na última semana, assisti mais
uma vez o ótimo documentário “Notícias de uma guerra particular”, de João
Moreira Salles e Kátia Lund. O filme é um soco no estômago menos pelo que é
dito e mais por quem diz. Não são estudiosos teorizando sobre a violência. São
policiais, traficantes e moradores falando da guerra a partir de seus ângulos.
1. MULHERES: salta-me aos olhos a força do feminino nas comunidades periféricas dominadas pela violência. Já havia presenciado no Borel, onde trabalho, ao ouvir os relatos das mulheres da favela tijucana. No filme, isso fica ainda mais claro.
O documentário é direto, franco,
não aponta culpados nem indica soluções. Apenas escancara uma realidade
vivenciada nos morros do Rio de Janeiro a partir das falas de quem vive essa
realidade, em qual lado do front esteja. Quero propor, então, algumas reflexões
a partir do filme. São pequenos pontos que fui anotando enquanto assistia ao
longa e gostaria de compartilhar.
O texto está dividido em cinco pontos: Mulheres, Criminalização da Pobreza, Motivações, O Mito CV e Os Discursos. Inicialmente iria publicar este texto em partes. Fui desaconselhado. É grande, mas acho que não está cansativo. Os cinco pontos, de qualquer forma, podem ser lidos de forma independente, se não for possível lê-los de uma vez. Vamos lá:
* Por vezes serei um pouco
irresponsável na utilização de termos e conceitos aqui. Os mais xiitas podem
ficar bravos com o emprego de expressões como “direito de significar” ou mesmo
com o uso indiscriminado da palavra “guerra”, só para ficar em dois exemplos.
São questões problemáticas, admito. Eu mesmo sou crítico ao emprego do conceito
de guerra para se falar do confronto entre Estado x Poder Paralelo. Mas aqui
usei algumas dessas palavras/conceitos para simplificar e também reproduzi para
ficar em consonância com o discurso dos personagens do filme. Espero que não
fira os ouvidos (ou olhos) mais sensíveis.
1. MULHERES: salta-me aos olhos a força do feminino nas comunidades periféricas dominadas pela violência. Já havia presenciado no Borel, onde trabalho, ao ouvir os relatos das mulheres da favela tijucana. No filme, isso fica ainda mais claro.
Quando os policiais
pegam um moleque, supostamente “bandido”, são elas que vão atrás, não desgrudam
dos homens de farda, para garantir que eles levem o garoto em segurança à
delegacia. “Se não formos atrás, eles levam lá pra cima e matam”, relata uma.
Então elas perseguem os PMs, brigam, obstruem sua passagem, xingam... encontram
força sabe-se lá de onde para resistir aos arbítrios e impedir que aconteça o
“mal maior”.
Também são essas mulheres que sobem o morro correndo para impedir
que seus irmãos, maridos, vizinhos sejam julgados pelo poder paralelo. Impedem
a execução, clamam por justiça, conseguem evitar o pior. É impressionante. É
comovente. É desafiador.
2 – CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA: o
problema maior não é o tráfico, não são as drogas, não é a violência. O
problema é a favela, é ela que precisa ser controlada. Ela representa o perigo,
ela representa a desordem. Tem que segurar o morro.
Logo de cara, o filme traz um
dado, dito por um dos entrevistados: há estimativas de que haja 100 mil
bandidos no Rio, a maioria deles em favelas. Logo mais, já pro fim do filme,
uma outra fala: “São dois milhões de pessoas morando em favelas no Rio, como
você controla esse povo todo?”. Há uma discrepância entre os tais 100 mil
bandidos e os dois milhões de habitantes das favelas. Se todos esses supostos
bandidos morarem em favelas, são apenas 5% da população. O número é
infinitamente menor, acredito. Mas mesmo que seja este mesmo, são CINCO POR
CENTO.
Lembro-me de um artigo do Jailson de Souza e Silva, que até utilizei em
minha monografia, em que ele citava que o número de universitários da Maré
(1,67% da população em 2000) era maior que o de traficantes – apesar da
comunidade ser definida, na mídia e pelo Estado, apenas como um dos redutos
mais perigosos do tráfico carioca. Um tipo de discurso que interessa a quem
(vamos lembrar que todo discurso tem caráter de construção social, já dizia
Foucault) e serve a que interesses, a que tipo de política? A resposta vem da
boca do chefe da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro na época, Hélio Luz, um dos
entrevistados para o filme:
“Nós fazemos a segurança do
Estado (...) Temos que manter os excluídos sob controle. Vivemos numa sociedade
injusta e a polícia garante essa sociedade injusta”, disse ele, de forma nua e
crua. Nem é preciso dizer que foi exonerado pouco tempo depois...
3 - MOTIVAÇÕES: outra questão
suscitada no documentário é sobre as motivações para a entrada do jovem no
tráfico. É um desejo de transformação social coletiva ou apenas necessidade
econômica individual? Essa questão também se fez latente nos protestos que
acontecem na Inglaterra: os jovens estão nas ruas porque querem mudar a
sociedade injusta ou apenas querem se incorporar à sociedade do consumo, de
onde hoje são excluídos? As duas questões, distintas, apontam para um mesmo
fato: a sociedade é desigual e isso acaba sendo gerador de tais movimentos, de
uma forma ou de outra. Mas vamos pensar um pouco mais especificamente sobre o
tráfico.
No filme, vemos alguns dos
“soldados” do tráfico reclamarem das injustiças do mundo e de como a favela é
discriminada e desassistida. Acreditam que o tráfico ajuda a mudar essa
realidade, ao garantir ao menos que algumas das necessidades dos moradores
serão atendidas (a oferta de gás e medicação para a população são os exemplos
mais clássicos). Eles estariam, desse modo, ocupando um espaço que o Poder
Público não ocupa. Suprindo uma lacuna que o Estado deixou.
Por outro lado, os discursos
revelam um desejo de “significar”: entram no tráfico para serem respeitados,
para poderem comprar tênis da Nike, para que as garotas (do morro e do asfalto)
olhem para eles, afinal “as cocotas ficam doidas quando veem um cara com arma”.
Sem acesso à escola, ao mercado de trabalho formal, à “porta da frente” da
sociedade do consumo, optam pela “via alternativa”.
Não é simples pensar essa
questão. Corre-se o risco de romantizar essas histórias e isso definitivamente
não contribui para refletir sobre o quadro. E existe outro ponto importante que
gostaria de considerar ainda neste tópico: para além das questões de mudança
social nas comunidades ou ascensão econômica individual, o crescimento das
facções mudou o caráter do tráfico e a guerra, outrora entre o poder paralelo e
o poder “oficial” (por negligente que fosse), se transforma sobretudo numa
disputa de poder, de ocupação de territórios.
As favelas se transformam, mais
que nunca, em campos de batalhas de facções rivais e os moradores são, sem dúvida,
os que mais saem perdendo. E essa guerra entre facções também é um fator
motivador, uma vez que ao ingressar nessa guerra, o jovem pertence a um grupo,
faz parte de uma comunidade e batalha pela supremacia deste seu grupo. O Estado,
para não perder o costume, se torna ainda mais ausente (é possível?) e utiliza a
violência entre as facções como justificativa para não entrar nessas
comunidades.
Então, acho que as motivações
para a entrada dos jovens no tráfico precisam ser vistas a partir desses três
aspectos: são causas sociais, econômicas e políticas (no sentido de disputa de
poder). Complexo. Bem complexo.
4 – O MITO CV: todos sabemos a
história de criação do Comando Vermelho. Os presos políticos e os presos comuns
que, postos num mesmo espaço, conceberam uma das principais organizações não
governamentais (rs) da história recente do estado do Rio. A mistura explosiva
teria resultado em lideranças com forte crítica política ao Estado e também
bastante eficientes em práticas consideradas criminosas. Mas o CV cresceu, se
tornou uma mega estrutura e enquanto a face “criminosa” ainda assusta a
sociedade, o viés político ficou em segundo plano. Se perdeu? Acabou? Nunca
houve? É, mais uma vez, romantizar a história e transformar bandidos em heróis
populares?
Não sei e nem quero entrar nessa
discussão. Só se sabe que com o crescimento, a organização criou ídolos e
admiradores, sobretudo entre aqueles garotos com desejo de significar, como
falei acima. E o que acontece é que tudo é CV. Os garotos dizem: “Sou CV”,
“CVRL”, “Vermelhooo”. Muitos sequer já chegaram perto da organização. Outros,
mesmo que façam parte, nem desconfiam de como o Comando surgiu, quem eram seus
líderes.
A questão é outra: ser do Comando
Vermelho concede uma posição de destaque. Os garotos querem dizer que são CV,
como se significasse que pertencem a uma linhagem real, são puro sangue,
mangalarga. Assim como estudar na PUC ou morar no Leblon, ser Comando Vermelho
concede status. Simples assim.
5 – OS DISCURSOS: me impressiona,
ainda, a semelhança entre os discursos dos soldados do tráfico e os soldados da
PM. Em determinada sequência do filme, o repórter pergunta: “e qual é a
sensação quando você mata o ‘inimigo’?”. Primeiro o bandido: normal, às vezes
tem até comemoração. Depois, o policial: é sensação de dever cumprido.
Em uma palestra que assisti
recentemente, o comandante geral das UPPs, coronel Robson, falava disso,
comparando um funk proibidão ao filme Tropa de Elite (I). É cruel e revelador.
Quem viu o filme (quem não viu?) vai se lembrar da cena final, em que André é
considerado policial de verdade por executar, a sangue frio, o inimigo. O funk
falava algo neste sentido também, não me recordo a letra. Mas é esse o espírito.
Ambos os lados vão para a batalha
vestidos com a capa da insensibilidade. Ambos acreditam estarem indo para uma
guerra. Matar inimigos são apenas ossos do ofício. No caso do bandido, os
inimigos são os policiais ou mesmo outros bandidos, de facções rivais. No caso
do policial, os inimigos são os bandidos.
Afinal, “homens de preto, qual é sua missão? Subir pela favela e deixar corpo no chão!”. O grito de guerra,
entoado pelos de farda, também vale para os descamisados. Em meio a tantas
aparentes diferenças, os dois lados do front de batalhas se igualam – e não só
em seus objetivos. Nas favelas do Rio de Janeiro, nas batalhas cariocas
transmitidas em forma de espetáculo mundo afora, a tragédia se dá em tons
dramáticos: são pobres matando pobres. Jovens matando jovens. Preto morrendo e
preto matando. Cada um sob sua farda, portando seu emblema, vai eliminando seu
rival, tão oposto, tão parecido! É ou não é de fato uma grande tragédia?
(Um agradecimento especial à titia Giovana Damaceno, que revisou esse texto e me deu coragem para publicar!)
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