06/09/2011

Reflexões sobre a guerra particular

Na última semana, assisti mais uma vez o ótimo documentário “Notícias de uma guerra particular”, de João Moreira Salles e Kátia Lund. O filme é um soco no estômago menos pelo que é dito e mais por quem diz. Não são estudiosos teorizando sobre a violência. São policiais, traficantes e moradores falando da guerra a partir de seus ângulos.

O documentário é direto, franco, não aponta culpados nem indica soluções. Apenas escancara uma realidade vivenciada nos morros do Rio de Janeiro a partir das falas de quem vive essa realidade, em qual lado do front esteja. Quero propor, então, algumas reflexões a partir do filme. São pequenos pontos que fui anotando enquanto assistia ao longa e gostaria de compartilhar. 

O texto está dividido em cinco pontos: Mulheres, Criminalização da Pobreza, Motivações, O Mito CV e Os Discursos. Inicialmente iria publicar este texto em partes. Fui desaconselhado. É grande, mas acho que não está cansativo. Os cinco pontos, de qualquer forma, podem ser lidos de forma independente, se não for possível lê-los de uma vez. Vamos lá:

* Por vezes serei um pouco irresponsável na utilização de termos e conceitos aqui. Os mais xiitas podem ficar bravos com o emprego de expressões como “direito de significar” ou mesmo com o uso indiscriminado da palavra “guerra”, só para ficar em dois exemplos. São questões problemáticas, admito. Eu mesmo sou crítico ao emprego do conceito de guerra para se falar do confronto entre Estado x Poder Paralelo. Mas aqui usei algumas dessas palavras/conceitos para simplificar e também reproduzi para ficar em consonância com o discurso dos personagens do filme. Espero que não fira os ouvidos (ou olhos) mais sensíveis.



1. MULHERES: salta-me aos olhos a força do feminino nas comunidades periféricas dominadas pela violência. Já havia presenciado no Borel, onde trabalho, ao ouvir os relatos das mulheres da favela tijucana. No filme, isso fica ainda mais claro. 

Quando os policiais pegam um moleque, supostamente “bandido”, são elas que vão atrás, não desgrudam dos homens de farda, para garantir que eles levem o garoto em segurança à delegacia. “Se não formos atrás, eles levam lá pra cima e matam”, relata uma. Então elas perseguem os PMs, brigam, obstruem sua passagem, xingam... encontram força sabe-se lá de onde para resistir aos arbítrios e impedir que aconteça o “mal maior”. 

Também são essas mulheres que sobem o morro correndo para impedir que seus irmãos, maridos, vizinhos sejam julgados pelo poder paralelo. Impedem a execução, clamam por justiça, conseguem evitar o pior. É impressionante. É comovente. É desafiador.


2 – CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA: o problema maior não é o tráfico, não são as drogas, não é a violência. O problema é a favela, é ela que precisa ser controlada. Ela representa o perigo, ela representa a desordem. Tem que segurar o morro.                

Logo de cara, o filme traz um dado, dito por um dos entrevistados: há estimativas de que haja 100 mil bandidos no Rio, a maioria deles em favelas. Logo mais, já pro fim do filme, uma outra fala: “São dois milhões de pessoas morando em favelas no Rio, como você controla esse povo todo?”. Há uma discrepância entre os tais 100 mil bandidos e os dois milhões de habitantes das favelas. Se todos esses supostos bandidos morarem em favelas, são apenas 5% da população. O número é infinitamente menor, acredito. Mas mesmo que seja este mesmo, são CINCO POR CENTO. 

Lembro-me de um artigo do Jailson de Souza e Silva, que até utilizei em minha monografia, em que ele citava que o número de universitários da Maré (1,67% da população em 2000) era maior que o de traficantes – apesar da comunidade ser definida, na mídia e pelo Estado, apenas como um dos redutos mais perigosos do tráfico carioca. Um tipo de discurso que interessa a quem (vamos lembrar que todo discurso tem caráter de construção social, já dizia Foucault) e serve a que interesses, a que tipo de política? A resposta vem da boca do chefe da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro na época, Hélio Luz, um dos entrevistados para o filme:         

“Nós fazemos a segurança do Estado (...) Temos que manter os excluídos sob controle. Vivemos numa sociedade injusta e a polícia garante essa sociedade injusta”, disse ele, de forma nua e crua. Nem é preciso dizer que foi exonerado pouco tempo depois...


3 - MOTIVAÇÕES: outra questão suscitada no documentário é sobre as motivações para a entrada do jovem no tráfico. É um desejo de transformação social coletiva ou apenas necessidade econômica individual? Essa questão também se fez latente nos protestos que acontecem na Inglaterra: os jovens estão nas ruas porque querem mudar a sociedade injusta ou apenas querem se incorporar à sociedade do consumo, de onde hoje são excluídos? As duas questões, distintas, apontam para um mesmo fato: a sociedade é desigual e isso acaba sendo gerador de tais movimentos, de uma forma ou de outra. Mas vamos pensar um pouco mais especificamente sobre o tráfico.            

No filme, vemos alguns dos “soldados” do tráfico reclamarem das injustiças do mundo e de como a favela é discriminada e desassistida. Acreditam que o tráfico ajuda a mudar essa realidade, ao garantir ao menos que algumas das necessidades dos moradores serão atendidas (a oferta de gás e medicação para a população são os exemplos mais clássicos). Eles estariam, desse modo, ocupando um espaço que o Poder Público não ocupa. Suprindo uma lacuna que o Estado deixou.

Por outro lado, os discursos revelam um desejo de “significar”: entram no tráfico para serem respeitados, para poderem comprar tênis da Nike, para que as garotas (do morro e do asfalto) olhem para eles, afinal “as cocotas ficam doidas quando veem um cara com arma”. Sem acesso à escola, ao mercado de trabalho formal, à “porta da frente” da sociedade do consumo, optam pela “via alternativa”.       

Não é simples pensar essa questão. Corre-se o risco de romantizar essas histórias e isso definitivamente não contribui para refletir sobre o quadro. E existe outro ponto importante que gostaria de considerar ainda neste tópico: para além das questões de mudança social nas comunidades ou ascensão econômica individual, o crescimento das facções mudou o caráter do tráfico e a guerra, outrora entre o poder paralelo e o poder “oficial” (por negligente que fosse), se transforma sobretudo numa disputa de poder, de ocupação de territórios. 

As favelas se transformam, mais que nunca, em campos de batalhas de facções rivais e os moradores são, sem dúvida, os que mais saem perdendo. E essa guerra entre facções também é um fator motivador, uma vez que ao ingressar nessa guerra, o jovem pertence a um grupo, faz parte de uma comunidade e batalha pela supremacia deste seu grupo. O Estado, para não perder o costume, se torna ainda mais ausente (é possível?) e utiliza a violência entre as facções como justificativa para não entrar nessas comunidades.        

Então, acho que as motivações para a entrada dos jovens no tráfico precisam ser vistas a partir desses três aspectos: são causas sociais, econômicas e políticas (no sentido de disputa de poder). Complexo. Bem complexo.


4 – O MITO CV: todos sabemos a história de criação do Comando Vermelho. Os presos políticos e os presos comuns que, postos num mesmo espaço, conceberam uma das principais organizações não governamentais (rs) da história recente do estado do Rio. A mistura explosiva teria resultado em lideranças com forte crítica política ao Estado e também bastante eficientes em práticas consideradas criminosas. Mas o CV cresceu, se tornou uma mega estrutura e enquanto a face “criminosa” ainda assusta a sociedade, o viés político ficou em segundo plano. Se perdeu? Acabou? Nunca houve? É, mais uma vez, romantizar a história e transformar bandidos em heróis populares?   

Não sei e nem quero entrar nessa discussão. Só se sabe que com o crescimento, a organização criou ídolos e admiradores, sobretudo entre aqueles garotos com desejo de significar, como falei acima. E o que acontece é que tudo é CV. Os garotos dizem: “Sou CV”, “CVRL”, “Vermelhooo”. Muitos sequer já chegaram perto da organização. Outros, mesmo que façam parte, nem desconfiam de como o Comando surgiu, quem eram seus líderes.

A questão é outra: ser do Comando Vermelho concede uma posição de destaque. Os garotos querem dizer que são CV, como se significasse que pertencem a uma linhagem real, são puro sangue, mangalarga. Assim como estudar na PUC ou morar no Leblon, ser Comando Vermelho concede status. Simples assim.


5 – OS DISCURSOS: me impressiona, ainda, a semelhança entre os discursos dos soldados do tráfico e os soldados da PM. Em determinada sequência do filme, o repórter pergunta: “e qual é a sensação quando você mata o ‘inimigo’?”. Primeiro o bandido: normal, às vezes tem até comemoração. Depois, o policial: é sensação de dever cumprido.              

Em uma palestra que assisti recentemente, o comandante geral das UPPs, coronel Robson, falava disso, comparando um funk proibidão ao filme Tropa de Elite (I). É cruel e revelador. Quem viu o filme (quem não viu?) vai se lembrar da cena final, em que André é considerado policial de verdade por executar, a sangue frio, o inimigo. O funk falava algo neste sentido também, não me recordo a letra. Mas é esse o espírito.           
Ambos os lados vão para a batalha vestidos com a capa da insensibilidade. Ambos acreditam estarem indo para uma guerra. Matar inimigos são apenas ossos do ofício. No caso do bandido, os inimigos são os policiais ou mesmo outros bandidos, de facções rivais. No caso do policial, os inimigos são os bandidos.               

Afinal, “homens de preto, qual é sua missão? Subir pela favela e deixar corpo no chão!”. O grito de guerra, entoado pelos de farda, também vale para os descamisados. Em meio a tantas aparentes diferenças, os dois lados do front de batalhas se igualam – e não só em seus objetivos. Nas favelas do Rio de Janeiro, nas batalhas cariocas transmitidas em forma de espetáculo mundo afora, a tragédia se dá em tons dramáticos: são pobres matando pobres. Jovens matando jovens. Preto morrendo e preto matando. Cada um sob sua farda, portando seu emblema, vai eliminando seu rival, tão oposto, tão parecido! É ou não é de fato uma grande tragédia?


(Um  agradecimento especial à titia Giovana Damaceno, que revisou esse texto e me deu coragem para publicar!)

12/08/2011

Salve a Mocidade (a primeira vez ninguém esquece)

“Quem nasce na Vila nem sequer vacila ao abraçar o samba”
Noel Rosa

Não nasci em Vila Isabel, bairro onde hoje moro. Talvez por isso vacilei ao abraçar o samba. Mas eis que em um primeiro de maio, em 2008, Beth Carvalho me trouxe à luz – e desde então o samba faz parte de mim.

O samba é meio sobrenatural. Religião, na raiz da palavra, tem a missão de “ligar”. Os homens uns aos outros, e também à transcendência. Não seria heresia dizer, portanto, que o samba também é minha religião. O pai do prazer, o filho da dor, é o grande poder transformador.

Bem, faço todo esse prólogo para explicitar um pouco do que o samba representa para mim. E sobretudo para lhes contar, logo em seguida, que no último fim de semana fui a um dos grandes templos do samba carioca: a quadra da minha amada Mocidade Independente de Padre Miguel.

(Desde 1995 sou Mocidade. Pode parecer contraditório ser fanático torcedor de uma escola de samba desde os sete anos, exaltar todos os seus hinos, saber de cor os enredos das últimas décadas, se emocionar com suas passagens pela avenida, e só me apaixonar pelo ritmo em si mais de uma década depois. E talvez seja uma contradição mesmo. Eu sou uma. Todos somos.)

Quem me conhece sabe que tipo de emoções a visita à quadra de minha escola pode me proporcionar. Acompanhe se quiser:

13:20 – Chego à estação de trem. Minha primeira

vez sobre trilhos também. A composição vai partir apenas 13h47.

13:48 – Entro no trem e sei que agora será quase uma hora de viagem ao meu destino. Até lá, ansiedade (cabe dizer que a viagem de trem daria uma crônica à parte. Deixo para a próxima).

15:00 – Peço a benção a todos os deuses do samba. Cartola e Mestre André à frente. Hora de entrar na quadra. Alô meu povão de Padre Miguel...

15:34 – Já de posse da feijoada, a primeira grande emoção: Ziriguidum 2001 entoado no palco. Na mesa à minha frente, um senhor dribla sua deficiência visual, dribla sua dificuldade em pronunciar palavras, e canta. E chora. E me arrepia.

16:00 – Ainda no palco, a banda toca sambas-enredo de várias escolas. Muitos torcedores destas escolas estão na quadra. Impossível não fazer uma analogia com o quão impensável seria executar um hino de exaltação ao Vasco em uma festa do Flamengo...

16:20 – Ouço a primeira... deixa pra lá!

16:30 – A bateria da Beija Flor chega à quadra e é reverenciada como vencedora do carnaval carioca. Impossível não fazer analogia...

17:00 – Uma família se senta na minha mesa. Dois casais, quatro Independentes. Me dizem um sincero seja bem vindo. Enfim, duas horas depois, me sinto inteiramente em casa.

17:16 – Não preciso conhecer nenhuma outra escola, nenhum outro povo, nenhum outra quadra. Não existe mais quente, estou certo!

18:10 – Estrelinha da Mocidade, a escola mirim, dá show ao som de O Grande Circo Místico. Outra lembrança inevitável: Renato Lage e tudo que ele representa para essa geração que aprendeu a gostar de carnaval (e a ser Mocidade) através da magia que ele fez na avenida. Saudades!

18:30 – E as baianas, no canto do salão, fazem sua festa, depois de terem feito bonito na cozinha. Elas e outros integrantes da escola começam a se montar. Em instantes, Mocidade entra em cena.

18:40 – Expectativa: bateria se posicionando no palco. Adrenalina alta. Lá vem a bateria da Mocidade Independente!

19:06 – A bateria já arrepia tocando Parabéns para Você, amigo. E o que veio a seguir é impossível de ser descrito. O Mestre André sempre dizia / Ninguém segura a nossa bateria / Padre Miguel é a capital / Da escola de samba que bate melhor no carnaval...

20:10 – Me despeço depois de uma hora de show da bateria nota 10. A Beija Flor se prepara para subir ao palco, encerrando a noite com chave de ouro. Mas minha noite não precisa de mais nada a uma hora dessas. O sonho já havia virado realidade. Meu batismo estava completo. Mais do que nunca, pude cantar com imensa verdade: sou Independente, sou Raiz também, sou Padre Miguel, Sou Vila Vintém...


05/08/2011

Meninos do Borel

Quando ele nasceu, a guerra já havia começado há pelo menos 15 anos. Oficialmente, ela nem existe mais. Mas o menino ainda vive a guerra, que nunca foi dele e que ele não escolheu participar.

Para os Meninos do Borel ir à Casa Branca é mais que simplesmente atravessar os poucos metros que separam as duas comunidades, vizinhas. É cruzar um muro simbólico (e, portanto, real) construído sob a lógica de uma guerra que, é importante repetir, os garotos não pediram para entrar, nem ao menos sabem seus reais motivos. Só sabem que é prudente ficar do Lado de Cá do muro.

“Vai que eles ainda estão olhando”, levanta um. “Se eu subir, vão me hostilizar”, acredita outro. “Lá são todos ‘alemão’”, sentencia um terceiro. Medo, dúvidas, temor do que existe do Lado de Lá – e de como o Lado de Cá vai reagir à travessia.

Mas alguns meninos resolveram desafiar a ordem imposta seja lá por quem. Decidiram caminhar alguns metros, cruzar as fronteiras, derrubar o muro. E então, neste processo, descobriram muitos outros muros erguidos para eles. E resolveram derrubar também.

Uma marretada e, bum!, a indiferença começa a ir para o chão. Outra marreta e colocaram o funk no último volume. Mais uma marreta e, pasme!, começaram a “invadir” um Rio de Janeiro que aparentemente não havia sido construído para eles: foram a cinemas, museus, teatros, até mesmo (olha que audácia!) pontos turísticos. Mexeram com as pessoas nas ruas, escandalizaram os mais "puros" e bradaram aos construtores e, sobretudo, aos mantenedores do mito da cidade partida: "Vocês vão ter que me engolir!"

E são tantos os muros erguidos, são tantas as marretas, são tantos os meninos... que não sei onde isso vai dar. Incendiarão a cidade? Unirão os rivais? Tomarão o poder? Não há quem saiba, afinal. Só sei que é bonito de se ver.

Em sua principal obra, Guimarães Rosa profetiza que “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Hermano Vianna, o antropólogo de sabedoria ímpar, traduz para a contemporaneidade a frase de Rosa: a periferia vai virar centro. Os meninos do Borel, mais simples, apenas desejam que essa divisão na faça mais sentido. Periferia e centro, favela e cidade, Borel e Casa Branca passem a ser a uma coisa só. Por que não?

29/07/2011

Ele não é comum (por Ricardo Vieira)

Peço licença ao meu amigo Jader Moraes para usar o espaço de seu blog. Sei que não tenho a mesma facilidade com as palavras, mas é por uma boa causa, por um bom assunto. Sei que o próprio Jader iria gostar de saber e de propagar a postura elogiável do Dedé. Espero que os visitantes daqui não se decepcionem, o Jader volta logo. Boa leitura.

Veio, viu e...

O repórter perguntou: “O que você diria para os jogadores que estão começando, para um dia chegarem a ser como você, como um vencedor?”. “Vencedor, eu? Falta muita coisa ainda”. Foi a resposta, sem nenhum tipo de arrogância, do Dedé, que aos 23 anos chega à Seleção Brasileira e que até ontem estava torcendo pelo Brasil com a camisa pirata, já que a oficial “não tinha condições de comprar”.

Na continuação da resposta, um conselho que ouviu de um ex-jogador, Élson, seu treinador nas categorias de base: “Não desperdice o seu dia, aproveite cada treinamento. Faça render”. Dedé sabe ouvir, por isso tem muito a crescer na seleção. Com Júnior Baiano (independente do que você pense dele, bagagem ele tem) também aprendeu muito, desde posicionamento até modo de agir. Baiano se esforçou pelo sucesso de Dedé. Agradecido, tomou a atitude como lição de vida, que leva e repassa para os mais novos.

Lembro-me de sua namorada dizendo que os meninos que vinham dos juniores no Vasco eram grandes amigos de Dedé. Achei curioso. Em um clube recheado de jogadores badalados como Felipe, Zé Roberto (ano passado) entre outros, o cara fica amigo da molecada? Esse é o Dedé, que o Brasil vai conhecer melhor agora. Mas os amigos do Parque das Ilhas já o conhecem há anos. São os mesmos. Desde que Dedé começou a aparecer no futebol, desde que entrou no Volta Redonda, desde que entrou na Escolinha do Nelson, desde que jogou no Sepinho (peço perdão se a grafia estiver errada) eles já estavam ali do lado dele, os mesmos amigos. Sinal de caráter.

A vida dele mudou, tenho certeza. Ele nunca me disse, mas é óbvio que mudou. Se há alguns anos ele não podia comprar a camisa da seleção, hoje se junta ao milionário esquete canarinho. Se há alguns anos ele jogava com a chuteira doada por Felipe Melo (de quem também tem muita gratidão), hoje, com papéis invertidos, agracia os meninos do Voltaço. Se há alguns anos ele era apaixonado pela menina bonita do bairro, hoje... hoje continua apaixonado. Tem em Patrícia um porto seguro. É possível notar em suas palavras que agradecem o apoio incondicional de sua namorada.

Dedé hoje virou orgulho de uma cidade com mais de 250 mil habitantes, de uma torcida com cerca de oito milhões de membros. Mas para Dona Lena (Maria Helena Vital da Silva), o pequeno Anderson (ele não se chama André) já é motivo de orgulho faz tempo. Ela comemorou cada defesa do goleiro (“bom goleiro, por sinal”, segundo o próprio) no futebol de salão. Deve ter acompanhado com angústia as idas e vindas ao Rio, quando ainda era garoto e imaturo, na sua primeira chance no Fluminense. Imagino que tenha dado colo após a primeira dispensa do Tricolor. Posso até vê-la enlouquecendo com o susto na tentativa frustrada de ir jogar no Udinese, em que Dedé, com seus 18, 19 anos, se viu sozinho e outra vez dispensado (com apenas três treinamentos) na Itália. Também vejo a raiva dela quando uma infundada acusação de indisciplina quase o tirou do Volta Redonda.

Mas posso imaginar o orgulho quando o filhão foi eleito o terceiro melhor zagueiro do Campeonato Carioca de 2009. A esperança na chegada ao Vasco. O medo de outra dispensa e sensação de dever cumprido quando o jogador se estabeleceu no clube carioca. Mas como boa mãe, felicidade mesmo deve ser quando o ‘meninão’ bate um prato de inhame, ou de quiabo, feito com todo carinho pela Dona Lena.

A trajetória, cheia de percalços, é comum no meio do futebol. Dedé não é comum. Ele não se iludiu, não se deixou levar. Tem gratidão. E aprendeu lições importantes com os erros (talvez esse seja o aspecto mais difícil de ser encontrado em um meio repleto de ‘reincidentes’).

É uma alegria e um orgulho (confesso) conhecer e poder dizer que já joguei (uma peladinha, mas tá valendo) com um jogador de seleção. Torço de coração, para que não perca a essência e que continue enchendo de orgulho a Dona Lena, a Patrícia, o Gleidson, o Joãozinho, o André, o Ricardo, a Lívia, o Felipe, o Jader...

“Vencedor, eu?”. É, você mesmo. Boa sorte

Ricardo Vieira

24/07/2011

Coadjuvante de luxo

Juro solenemente que não pretendo fazer nada de bom

Sinto que, para falar deste assunto, preciso começar do começo. Mas prometo ser o mais breve quanto possível, afinal isso aqui é um blog. Por mais que o tema mereça, não posso escrever aqui um tratado.

Aconteceu no fim do ano 2000 (ou seria no início de 2001?). O fato é que aos doze anos recebi o primeiro exemplar. Incentivado por uma prima, comecei a me aventurar pela leitura de meu primeiro livro. E gostei.

O segundo, lido pouco depois, também me agradou – não tanto quanto o primeiro, deve confessar. E então veio o terceiro, com todas as suas nuances, suas surpresas, seus viratempos. Aí, sim, nasceu o fascínio.

Hoje, dez anos depois de abrir a primeira página de Harry Potter, sinto-me na obrigação de narrar um pouco da aventura de assistir seu “último capítulo”. Mais que isso: de fazer um registro do quão importante a série criada por Joanne Kathleen Rowling foi para mim.

Sou da geração que cresceu junto com as obras. Livro por livro, ano por ano, filme por filme, os mesmos dilemas, as mesmas angústias. Não sei se há precedentes na história literária, ou se um dia haverá fenômeno parecido.

Para você, que agora me lê, talvez isso faça pouco sentido. É só um livro, dizem alguns. Um livro infantil, constatam outros. Com um universo completamente frágil, finaliza orgulhoso um terceiro. E talvez seja mesmo tudo isso. Mas não é apenas isso.

Nestes últimos meses, estudiosos têm reconhecido a série como um fenômeno cultural, o que me deixa muito feliz por colocar a obra de Rowling em seu devido lugar. Tal qual os Beatles ou os Hippies ajudam a entender suas gerações, entender HP pode nos dar uma pista sobre a sociedade contemporânea e os valores cultivados pelos jovens desta geração. São os especialistas que dizem, não eu.

O que eu digo apenas é que, num plano muito mais pessoal, sei o que HP representa para mim (e desconfio sobre o que ele queira dizer para uma geração).

Como eu, creio que muitos tomaram gosto pela leitura a partir de J. K. Rowling[1]. Aprendemos com Dumbledore algumas das lições que foram importantes para momentos-chave de nossas vidas[2]. Mergulhamos em algumas culturas e filosofias apreendidas de diversas partes do mundo[3]. Entendemos, desde cedo, o quão destrutivos podem ser sentimentos como o preconceito e a intolerância[4]. Reforçamos, por fim, aquela crença que já havia sido pregada por Jesus, Gandhi, Che, Francisco de Assis e tantos outros: a verdadeira revolução, o sentimento mais nobre, aquilo que realmente pode salvar o mundo... é o amor[5].

Assistir o oitavo filme de Harry Potter significou o fim de um ciclo. Um ciclo em que me tornei uma pessoa melhor. Não por causa dos livros, claro. Por causa da minha mãe, dos meus amigos de faculdade, de tantas obras que li depois de HP, das missas, da Bia, das minhas vivências profissionais, de meus relacionamentos e de uma porção de outras coisas que não cabem aqui (já disse, é um post, não um tratado).

Mas sei que HP tem uma posição destacada neste acúmulo de experiências que vivi nos últimos dez anos. Se não foi protagonista das minhas mudanças (este papel não abro mão de ser executado por mim mesmo), foi ao menos um coadjuvante de luxo. Daqueles que às vezes roubam a cena e dão mais emoção ao filme, fazendo com que ele valha um pouco mais a pena. Um coadjuvante, enfim, que faz toda a diferença.

Acho que é bem capaz de você ter chegado ao fim do texto (agora sim quase um tratado) sem ter realmente entendido o que significa HP pra mim. Lamento que minhas palavras não sejam tão mágicas quanto as de Joanne – e até aceito que continue achando que se trata apenas de “um livro infantil com universo extremamente frágil”.

No entanto, aos poucos dos meus leitores que vão me entender plenamente, aqueles que também reviram sua adolescência ao findar dos créditos de HP7-2, que se emocionaram com cada diálogo da última película, só gostaria de dizer algo: somos privilegiados! Uma geração que desperta para o mundo através da leitura tem o mundo nas mãos. Parabéns a todos. Obrigado Joanne Kathleen Rowling. Palavras são uma inesgotável fonte de magia.

Mal feito, feito.



Para os trouxas, essse texto chegou ao fim
(se você não entendeu ou sentiu alguma ofensa pela palavra ‘trouxa’ ali em cima, acho que não vai querer ler. Para quem estiver interessado, resolvi aprofundar algumas questões sinalizadas no texto).

[1] Harry Potter foi o primeiro livro da vida de mais de 80% de deus leitores. Eu faço parte desta estatística, embora na escola sempre tenha gostado de ler e escrever (principalmente).

[2] Através de Dumbledore, J.K. inseriu um pouco da ‘filosofia’ que rege a série. Listei aqui uma série de frases, que em sequência podem parecer apenas uma sequência de clichês. Mas são lições valiosas, sobretudo para quem está em um período de formação, no início da adolescência e juventude. Veja só: “Em breve nós teremos que escolher entre o que é facil e o que é certo”; “São as nossas escolhas, Harry, que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades”; “Não faz diferença quem a pessoa é ao nascer, mas o que ela vai ser ao crescer”; “Não vale a pena mergulhar nos sonhos e esquecer de viver”; “A verdade é uma coisa bela e terrível, por isso deve ser tratada com grande cautela”; “Você acha que os mortos que amamos realmente nos deixam?”; “A indiferença e o abandono muitas vezes causam mais danos do que a aversão direta”; “Você não está entendendo? O próprio Voldemort criou seu pior inimigo, como fazem os tiranos em todo o mundo! Você tem ideia do medo que os tiranos sentem do povo que eles oprimem? Todos eles percebem que, um dia, entre suas muitas vítimas, com certeza haverá uma que rebelará e revidará!”; e minha preferida: “[É real ou está acontecendo apenas em minha mente?] Claro que isso está acontecendo em sua mente, Harry, mas por que isto significaria que não é real?”

[3] Um dos grandes segredos de HP foi a capacidade de JK trazer para os livros aspectos relevantes de diversas culturas diferentes. À uma fabula já conhecida (a base da história de Harry não é absolutamente nova), ela adicionou detalhes que dialogam com culturas de todas as partes do globo – e à despeito de uma crítica voraz de certos setores cristãos, não é preciso muito aprofundamento para perceber que a autora claramente permeia a série de valores e metáforas do cristianismo, especialmente no desfecho da saga.

[4] Os livros têm teor político muito forte. Sobretudo a partir do quinto, quando a trama fica mais adulta, e o regime de Voldemort se aproxima cada vez mais do nazismo. O vilão é o próprio Adolf Hitler e sua crença na supremacia dos sangues-puros está em paralelo com as teorias sobre a “raça ariana”. A sua derrota, no fim, representa a derrota de regimes totalitários, dos fundamentalismos e intolerâncias. HP aponta para a diversidade, para a convivência harmoniosa entre os diferentes, e essa talvez seja uma das lições mais valiosas da série.

[5] Porque a lição mais forte, sem dúvida, é sobre o poder do amor. Sobre como o amor é a ferramenta mais poderosa. Harry, ainda bebê, sobrevive graças ao amor de sua mãe, que dá sua vida por ele. Voldemort (o mal) é destruído por esse mesmo amor. É o amor que impede o vilão de tocar Harry. É o amor pelos amigos que impede o herói de ser possuído. É o amor pelo filho que faz outra mãe (Narcisa) salvar mais uma vez a vida de Harry. É o amor, mais uma vez, a grande diferença entre o herói e o vilão, aquele que nunca amou ou foi amado. Na batalha final, é o amor que vence o mal, enfim. De volta à Dumbledore, ele reitera a todo tempo: “Você está protegido por sua capacidade de amar” ou ainda “Não tenha pena dos mortos, Harry. Tenha pena dos vivos e, acima de tudo, daqueles que vivem sem amor”.Já havia feito um post aqui no blog sobre a “Revolução do Amor”. Acredito mesmo que este é o sentimento e a prática mais revolucionária entre todas. E agora talvez deva incluir HP na lista daqueles personagens que tão bem fizeram ao mundo ao pregar esta revolução.

08/07/2011

As lições do Congresso - Pt. 2

Tudo o que vem escrito “parte 1” terá uma “parte 2”. Nada mais lógico e óbvio.
Eis, então, a segunda parte do meu apanhado de frases do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo (para saber mais, leia o post anterior):


“Nunca foi melhor querer ser jornalista do que hoje. Podemos ser os protagonistas desse mundo novo”
Rosental Calmon Alves, otimista sobre as novas tecnologias da informação

“O que eu mais ouço é mentira. As pessoas mentem muito para mim”
Renata Lo Prete, sobre a relação com as fontes

“Sempre desconfie daquele que te oferece a informação. Em geral, as melhoras notícias são aquelas que você vai atrás”
Gerson Camarotti (O Globo)

“Cada vez mais é preciso treinar jornalistas para perceber as coisas onde aparentemente elas não estão (...) O leitor tem o direito de saber o que fazem com a paixão dele”
Juca Kfouri (ESPN), sobre a cobertura dos bastidores do mundo esportivo

“Não devemos nos esquecer da regra de ouro: siga o dinheiro”
Matheus Leitão (Folha), sobre a cobertura dos escândalos políticos

“Nós contamos a história do Brasil contemporâneo, o que produzimos é documento histórico. O jornalismo convencional tem deixado a maior parte das pessoas que constroem a nossa história de fora”.
Eliane Brum, sobre sua busca por retratar a vida cotidiana

“O futuro finalmente chegou”
Brant Houston

“Os deuses do jornalismo, se existem, estão sendo muito generosos com o Brasil”
Fernando Rodrigues (Folha), comparando a crise vivida pelos impressos nos Estados Unidos e a boa fase dos veículos tupiniquins

“Infelizmente, muitos jornalistas têm fascínio pela ‘estética da guerra’”
João Paulo Charleaux (IG)

“As brigas políticas dizem respeito à vida das pessoas, não está apenas no plano simbólico, mas também no material. Se não estamos conseguindo explicar isso ao leitor, então é uma falha nossa”
Renata Lo Prete

“O erro no jornalismo não tem reparação. Por isso que a gente precisa ter cuidado. O que se escreve, está escrito”
Eliane Brum

05/07/2011

As lições do Congresso - Pt. 1

Na última semana, participei de um evento que deveria ser obrigatório para todos aqueles que se aventuram nessa profissão tão apaixonante que é o jornalismo: Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.
Ao contrário do que se pensa à primeira vista, o evento não trata apenas de investigação criminal, câmeras escondidas, denúncias ou coisas assim. Como “jornalismo investigativo” é quase um pleonasmo, o congresso se propõe a discutir o fazer jornalístico, de forma geral.
Reproduzo, a seguir, algumas das principais falas que registrei nas dez mesas que participei. Foram todas muito boas. Algumas, excepcionais. Espero que gostem:


“Tem riscos. Dá para entrar”
Andrei Netto, repórter preso na Líbia, em email ao Estadão antes de entrar no país conflagrado


“A revolução digital impõe mudanças radicais e cria um novo ecossistema de mídia. Não dá pra continuar fazendo jornalismo do mesmo jeito
Rosental Calmon Alves - O Cara (busque no Google)


“A nossa obrigação como repórter é captar a complexidade da realidade. O silêncio, os gestos, os cheiros falam muito sobre o real. Não podemos ser meros reprodutores de aspas
Eliane Brum – A Musa Inspiradora


“Não existe ninguém sem interesse. Se não tem interesse, provavelmente não vai te servir. O seu trabalho não é descartar quem tem interesse, mas sim cruzar as versões e descobrir o que há de fato ali”
Renata Lo Prete (Folha de São Paulo), sobre a relação com as fontes


“É a forma mais cruel de intimidar a imprensa, pois o assassinato não silencia apenas o repórter morto”
Rodney Pinder (INSI), sobre os homicídios contra jornalistas


“A imprensa vai servir ao interesse público ou aos interesses comerciais?”
Jens Sejer Andersen (Play the Game*), sobre a cobertura dos grandes eventos esportivos – Copa 14 e Rio 2016


“O ‘outro lado’ não é apenas uma etapa formal, é primordial, pois às vezes te ajuda a ver o que não viu. Temos que esgotar a investigação”
Marta Salomon (Estadão)


“Só permaneçam nesta profissão se tiverem amor por ela”
Mônica Puga (SBT)


“A primeira ideia é sempre ruim. A segunda e a terceira também. Talvez a quarta seja boa”
Eliane Brum, sobre o difícil processo de construção de uma pauta


“Cinco minutos de planejamento podem salvar a sua vida”
Marcelo Moreira (Globo)


“O jornalista tem que ser um sujeito indignado. Um eterno indignado com as situações”
Bette Luchese (Globo)

08/06/2011

Somos todos bombeiros


Todos os que têm a oportunidade deveriam passar em frente às escadarias da Alerj. O que acontece lá por estes dias é destes eventos raros (e históricos) que não se repetem a todo o momento. Há uma vida que pulsa, vermelha, no Centro do Rio.

Estive por lá hoje. Ao contrário do que Cabral falou, não vi vândalo algum. Tampouco covardes. Vi trabalhadores, homens, mulheres e jovens, que estão sendo condenados apenas por exigirem o mais básico dos direitos: dignidade.

Mas eles resistem, eles combatem, eles lutam. E é impossível ficar indiferente à essa luta, sobretudo quando se está lá, no palco onde a História está se escrevendo. Tão impossível quanto segurar as lágrimas (que não segurei!) ao ouvir o grito, ver as faces, mirar a faixa que lá do alto sinaliza o essencial desta e de qualquer luta: “Resistir é preciso!”

Resistam, bombeiros. Vosso heroísmo não se dá apenas quando sobem a Serra e retiram a lama para que este mesmo governador que hoje os chama de covardes possa brilhar sob todos os holofotes. Vocês são heróis também quando resistem à tirania e nos ensinam que, sim, é preciso lutar.

Para quem acreditava que não existiam presos políticos ou crime de opinião no país, o episódio serve para lembrar o quanto ainda é frágil a democracia nesta Terra de Santa Cruz. Até o momento, são 439 trabalhadores presos por protestarem. Outras dezenas de policiais respondendo a processo por terem se negado a centrar fogo em seus companheiros de farda.

Na manifestação de hoje, um líder religioso citou o alcorão para lembrar que “Quem salva uma vida, salva toda a humanidade”. Eu não sou bombeiro, não tenho familiares bombeiros, sequer grandes amigos na corporação. Mas diante de tudo que vi, de tudo que este movimento representa, da luta legítima pelo pão... junto-me a eles e, tal qual um de seus gritos de ordem proclama, permito-me também me manifestar: Somos Todos Bombeiros. Mexeu com eles, mexeu comigo!


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22/05/2011

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

(Manuel Bandeira)


Esses versos sempre me impressionaram. A primeira vez que li, foi ainda no Ensino Fundamental, no início da minha adolescência. Nunca mais saíram da minha cabeça. Até que essa semana os versos do poeta se materializaram a poucos metros de mim. O jovem rapaz, quase um menino, revirava de maneira voraz o lixo à minha frente. E eu, na minha impotência, somente observava com os versos de Bandeira vindo à mente, mais chocantes que nunca: Meu Deus, era um homem!

25/04/2011

Mulheres do Borel


Meu primeiro trabalho, de fato, no Complexo do Borel aparecia no horizonte como algo tedioso: inscrições para o programa Mulheres da Paz, do Ministério da Justiça. Mas pobre Jader, entende tão pouco da vida... como poderia ser chato ou tedioso o exercício de ouvir histórias das mulheres da comunidade durante todo o dia? Definitivamente, não entendo de nada.

Jovens, às vezes muito jovens, com preocupações de adultas: filhos, casa, trabalho. Idosas com o mesmo fio de esperança do futuro que as crianças. Vidas diversas, com histórias distintas, mas um ponto comum: o desejo de construir uma vida nova a partir da mudança de ares vivenciada nestes últimos tempos. Mas ainda com receio; ainda com medo; ainda com desconfiança de que a paz esteja apenas passando uma temporada por aquelas bandas.

Entre tantos rostos, tantas histórias, uma mulher em especial me chamou a atenção. Seu nome? Maria da Paz - tão clichê que não caberia sequer numa novela de Manoel Carlos. Maria é uma síntese de todas aquelas mulheres que passaram por ali naquela tarde: trabalhadora, mãe, moradora do morro e agarrada à única perspectiva qe lhe apareceu em muitos anos, um curso para terminar o ensino fundamental e, quem sabe, reescrever seu futuro.

Maria é uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta.