22/05/2011

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

(Manuel Bandeira)


Esses versos sempre me impressionaram. A primeira vez que li, foi ainda no Ensino Fundamental, no início da minha adolescência. Nunca mais saíram da minha cabeça. Até que essa semana os versos do poeta se materializaram a poucos metros de mim. O jovem rapaz, quase um menino, revirava de maneira voraz o lixo à minha frente. E eu, na minha impotência, somente observava com os versos de Bandeira vindo à mente, mais chocantes que nunca: Meu Deus, era um homem!

25/04/2011

Mulheres do Borel


Meu primeiro trabalho, de fato, no Complexo do Borel aparecia no horizonte como algo tedioso: inscrições para o programa Mulheres da Paz, do Ministério da Justiça. Mas pobre Jader, entende tão pouco da vida... como poderia ser chato ou tedioso o exercício de ouvir histórias das mulheres da comunidade durante todo o dia? Definitivamente, não entendo de nada.

Jovens, às vezes muito jovens, com preocupações de adultas: filhos, casa, trabalho. Idosas com o mesmo fio de esperança do futuro que as crianças. Vidas diversas, com histórias distintas, mas um ponto comum: o desejo de construir uma vida nova a partir da mudança de ares vivenciada nestes últimos tempos. Mas ainda com receio; ainda com medo; ainda com desconfiança de que a paz esteja apenas passando uma temporada por aquelas bandas.

Entre tantos rostos, tantas histórias, uma mulher em especial me chamou a atenção. Seu nome? Maria da Paz - tão clichê que não caberia sequer numa novela de Manoel Carlos. Maria é uma síntese de todas aquelas mulheres que passaram por ali naquela tarde: trabalhadora, mãe, moradora do morro e agarrada à única perspectiva qe lhe apareceu em muitos anos, um curso para terminar o ensino fundamental e, quem sabe, reescrever seu futuro.

Maria é uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta.

30/03/2011

Viva a hipocrisia (ou Cegueira Coletiva)


Jair Bolsonaro diz que não corre o risco de ter o filho casado com uma negra – mas ele confundiu a pergunta, foi isso.
Torcedor joga banana para Neymar – mas era um adolescente, foi apenas um enorme mal entendido.
Afinal, não somos racistas. Temos horror ao racismo. Não queremos ver racistas na nossa frente nem pintados de ouro.

“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que vêem. Cegos que, vendo, não vêem”
(José Saramago)

17/03/2011

Sobre Maria Bethânia e o MinC

Reproduzirei um texto desses que pipocam no twitter. Dinâmico, ótimo, e põe os pingos nos 'is'.
A autoria é de :

Caso Maria Bethânia, alguém realmente sabe do que está falando?

Gente, tá todo mundo descendo a lenha na Maria Bethânia.

Mas não é exatamente um blog, né? São 365 vídeos, dirigidos pelo Andrucha e produzidos pela conspiração.
Sabe quando custa uma diária de câmera 5D com lentes, operador, tripé? Coisa de mil reais por dia.
Sabe uanto custa uma diária do Andrucha? OU de uma figurinista? De um maquiador? De um editor?
Sinceramente, está até barato.

E ela não está tirando dinheiro dos cofres públicos. Ela apenas recebeu autorização do ministério para captar, o que significa que ela tem um documento do ministério que a habilita para pedir dinheiro em empresas privadas para o projeto.

OUTRA COISA IMPORTANTE

É que mesmo sendo ativistas na internet, sempre achamos que internet é um meio menor né? Se ele colocasse a Maria Bethânia recitando num documentário no cinema ou vendesse pro canal brasil seria tudo certo 1,3 milhão. Cinema onde se paga ingresso. Canal Brasil que só pega em tv a cabo, paga.

Agora, um site que vai disponibilizar o mesmo material. Aí não pode. Vira "blog". Lembrem-se, se cada vídeo durar 1 minuto serão 365 minutos de material, o que siginifica muito mais que um longa metragem que tem hj em dia uma média de 120 minutos. Um longa de 120 minutos fica no mínimo 3, 4 meses em produção, e com tecnologias digitais, geralmente temos brutos de 10, 15 horas. SE CADA VÍDEO da Bethânia tiver 1 minuto, serão 3 longas metragem! E são cerca de 3 mil e 500 reais por vídeo. Sabe o que você faz com R$ 3.500 em audiovisual? Nem um clipe. Nem um institucional. Praticamente nada.

E outra coisa:

Ando um pouco de saco cheio da galera do twitter que retuíta qualquer porcaria sem ler e desce o pau sem a menor idéia do que está falando. E de jornalistas que só reproduzem matérias, um ctrl c crlt v safado, que não tem compromisso de informar ninguém, só de jogar materiazinha no ar.

09/03/2011

Descompassos

Samba e futebol, eis uma combinação brasileiríssima. E eis que interrompo minhas boas férias, para escrever sobre esses assuntos que tanto me animam. São duas pequenas observações, microtextos, sobre certos descompassos que assisti (e tenho assistido) nesses dias. Espero que gostem – e discutam:

1. Poucas vezes vi um descompasso tão grande entre a opinião pública e os “formadores de opinião” como nesse imbróglio envolvendo a volta do Adriano. Sim, pois se para a imprensa especializada é uma loucura o Flamengo pensar em repatriar o atacante, para a torcida seria um sonho.
Basta ver qualquer enquete, em qualquer site, que a massa rubro-negra deixa claro: sim, queremos o Imperador de volta! Basta ver qualquer mesa redonda, em qualquer canal, que os jornalistas se perguntam: quem em sã consciência gostaria de ter Adriano?
Os formadores de opinião, nesse caso, estão em posição diametralmente oposta à opinião pública. Não que seja um erro isso – pelo contrário. Mas é curioso: o povo quer Adriano, apesar da negativa tão firme dos jornalistas.
E é impressionante mesmo a discrepância: a massa jornalística abomina o Adriano; a massa torcedora idolatra. E os jornalistas não conseguem entender como uma torcida deseja um jogador que se envolve em problemas uma semana sim, outra também, e acaba manchando a imagem do clube. E os torcedores não entendem como podem questionar essa paixão por um jogador que foi o grande artilheiro e ídolo recente do time, é flamenguista legítimo, cria da base, e deu à Nação o título mais importante do país, que não comemoravam há 17 anos.
Sou jornalista e torcedor. Neste caso, estou mais alinhado à torcida que aos colegas. Mas não deixo de ver graça nisso tudo. Só que existe um argumento muito utilizado pelos jornalistas que, dado esse quadro que descrevi, é falho: dizem que a imagem de Adriano é ruim para o marketing, é ligada a problemas, investidores terão receio. Enfim, não vende mais. Agora eu pergunto, não vende para quem, cara-pálida? Se precisa vender para alguém, é para a torcida rubro-negra. E existe dúvida de que o Imperador ainda é um bom produto para essa massa?

2. Não estou torcendo para a Unidos da Tijuca. Foi um belo desfile, mas acho uma pena se a agremiação do Borel vencer. Faltou samba. E isso, para uma escola de Samba, deveria ser imperdoável.
Vejam que não sou tradicionalista ou avesso às inovações. Sou super fã de Renato Lage, que aborreceu sambistas mais tradicionais com seu estilo high tech na década de 90, e também sou grande fã de próprio Paulo Barros desde a monumental alegoria do DNA, na mesma Tijuca, em 2004.
Mas achei que esse ano o carnavalesco passou do ponto. Se o desfile foi tecnicamente perfeito, plasticamente irretocável (pela primeira vez em sua carreira), achei que a escola atravessou o samba. Não no sentido tradicional, quando as alas de outrora cantavam os versos em tempos diferentes umas das outras. Antes fosse!
Achei que faltou carnaval mesmo! Sobrou espetáculo (de encher os olhos) e faltou carnaval. Ano passado, foi o máximo, o apogeu, a consagração do grande carnavalesco que é Paulo Barros. Adorei e fui árduo defensor contra aqueles (poucos) críticos ao show da Tijuca. Era extremamente carnavalesco, tudo se justificava, a comissão de frente era um primor e totalmente encaixada no enredo, o samba era ótimo, a escola estava leve. Foi campeã com louvores. Como o próprio Renato Lage admitiu, Paulo Bareros havia acertado na veia. Este ano, ele exagerou na dose.
Todas as alas coreografadas. TODAS. É demais. Além disso, um enredo confuso, que inicialmente se destinava a falar do “medo” no cinema, com referências a filmes de terror – o título do enredo era “Esta noite levarei sua alma”, em homenagem ao filme do Zé do Caixão. Mas o que vimos na avenida? Priscila, a Rainha do Deserto, Harry Potter, A Fuga das Galinhas, Avatar, Carros... onde está o medo, onde está o terror?
Não vi uma escola de samba, não vi a leveza do carnaval e não acho uma boa que este desfile sirva de referência para outros carnavais. Repito: sou fã de Paulo Barros, adoro suas inovações, acho um carnavalesco excepcional. Mas esse ano ele passou do tom. E consagrar esse exagero pode ser danoso ao próprio carnaval.
Os desfiles de 2011 foram marcados sobretudo por muita emoção e por baterias que arrepiaram, com paradinhas e paradões à la Mestre André* que levantaram a Sapucaí. Se a Mangueira vencer, por exemplo, isso será exaltado – e as escolas irão prosseguir inovando, alguém tem dúvidas? Agora, se a Tijuca vencer, a emoção, a alegria, a bateria, o samba vão se tornar coadjuvantes ao se analisar o carnaval que se passou. O que é uma injustiça ao belíssimo espetáculo que tivemos neste ano no Sambódromo.
* Mestre André, da minha Mocidade, que inventou a paradinha. Aliás, minha Mocidade... que tristeza! Antes, um passo à frente. Hoje, um passo atrás.** Três escolas me encantaram: Mangueira, com enredo monumental e uma bateria fantástica; União da Ilha, leve, livre, solta e linda; e Salgueiro, que soube equilibrar as inovações com um carnaval alegre, irreverente e belíssimo! Renato Lage continua sendo o grande carnavalesco do Rio de Janeiro.*** Escrevo minutos antes da apuração. Enquanto você lê, provavelmente a Tijuca já se sagrou campeão do carnaval.

14/02/2011

Elas chegaram...

Desci do ônibus e o senhor, carregando algumas caixas de isopor em um carrinho de supermercado, me disse, num lamento:
"Trabalhar empobrece, enfraquece e envelhece".
A afirmação, tão direta e lacônica, me pegou de surpresa. Em sua homenagem então, decidi que usarei os 30 dias que ganhei para "rejuvenescer".
Férias, amigos. Enfim férias!!!

P.S.: Alguma dica?

03/02/2011

O que Marx realmente disse

Karl Marx era um feroz crítico da religião. Disso não há dúvidas. Mas é preciso fazer justiça ao comunista.

Talvez a frase mais conhecida de Marx seja “a religião é o ópio do povo”. Ele disse isso. Mas disse mais que isso. E tirar essa frase de contexto devia ser um crime lesa-pátria (ou "lesa-humanidade"). O trecho completo é bem mais rico e diz, entre outras coisas, que a religião é o coração de um mundo sem coração.

Ademais, repete-se essa frase sem a real consciência do que seja esse tal de ópio. Ópio é uma droga que anestesia a dor. A crítica de Marx se baseava nisso: a religião distrai, pacifica os oprimidos, faz com que os explorados acreditem que o sofrimento terá um recompensa futura. Inibe os homens de brigar pela justiça.

Nesse ponto, minha experiência religiosa me faz discordar frontalmente de Marx. Aliás, as práticas religiosas da igreja latinoamericana bastariam para desmoralizar essa crítica marxista. Contudo, sei que, fora das experiências libertadoras deste continente, a crítica do comunista faz muito sentido.

Mas sem aprofundar na crítica marxista, porque não sou, nem de longe, um conhecedor do tema, queria apenas trazer aqui o contexto em que a tão famosa frase foi dita. Ei-la em sua completude:

A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de situações desalmadas. A religião é o ópio do povo.


Aqui, o texto completo de onde se tirou a frase acima: http://migre.me/3Og1G
E aqui, um artigo bem interessante sobre a questão. Quando o li, este texto já estava praticamente fechado, mas me ajudou a solidificar algumas posições: http://migre.me/3OfZq

Como se não houvesse amanhã...

"Não se ama porque é fácil; ama-se porque é preciso"
Pe. Zezinho, SCJ

O último post do blog da titia, sobre o grandioso trabalho realizado pela galera do Loved – grupo do qual um dia quero fazer parte –, me impulsionou a escrever este pequeno texto.

Na verdade, um comentário do Calino, no tal post, foi o que me despertou para uma coisa: os maiores revolucionários que já pisaram nesta Terra, de Cristo a Guevara, passando por Francisco de Assis e Mahatma Gandhi, pregavam uma revolução muito simples – a do Amor.

Acima dos dogmas religiosos, ideológicos ou culturais, o que une todas essas figuras emblemáticas é justamente a vontade de construir uma sociedade do bem comum, do fazer o bem sem olhar a quem, do amai ao próximo como a si mesmo.

Não foi Jesus Cristo quem pregou que o maior mandamento era o amor? Gandhi não declarou que não existia nada mais importante que o calor do coração? Francisco, o pequeno gigante de Assis, não dedicou sua vida inteira a isso?

E chegamos a Che, o guerreiro, o revolucionário, homem forte, líder de uma legião de jovens idealistas. O que foi que ele disse? O que pregou? Nada menos que isso: “Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionario é movido por grandes sentimentos de amor”.

Amar, essa é a revolução. Amor, pois, não é só um sentimento. É uma ação. Amor é prática, minha gente. E é essa prática, e somente ela, que pode realmente mudar o mundo. Parece piegas, mas essa me parece ser a verdade fundamental (a minha, ao menos).

01/02/2011

Sarney é um símbolo, assim como o ato de destruí-lo (II)

Escrevi esse texto em julho de 2009. Infelizmente, poderia ter escrito hoje.
Só para atualizar: na época, havia um movimento que pedia sua renúncia da presidência do Senado, por conta da crise com os atos secretos.
Vou repetir o texto. Sem nenhuma alteração. Infelizmente, repito, é atualíssimo!
(a imagem também é a mesma)



Não acho que o Sarney é o maior culpado pela crise no Senado. Muitos outros fatores explicam a situação de descrédito que a casa chegou. Mas acho que ele deve renunciar, é o melhor a ser feito.

Sarney é um símbolo. Símbolo do atraso, do arcaico, do pior que existe na política brasileira. Sua eleição para a presidência do Senado simbolizou um passo atrás da política brasileira. Derrubar esse símbolo pode ser um recomeço nas relações do Senado com a Opinião Pública.

Sarney está certo quando diz que a crise não é dele, é do Senado, pois não é correto personificar uma instituição - e que instituição!
Mas sua saída é um ato simbólico que certamente irá representar uma mudança de rumo, um avanço, uma esperança. A queda de Sarney é o símbolo de um nova democracia - sem coronéis, sem mandatários, sem salafrários.

OBS.: Um símbolo apenas, minha gente. Tem muita gente ruim lá, pior que ele até. Mas derrubar o símbolo é o primeiro passo. Um passo que, contariando o ditado, tem que ser dado com o pé esquerdo (Acorda PT, acorda Lula!!!!!)

Julho, 2009

25/01/2011

Circo?

De um gaiato, na comunidade de Volta Redonda no orkut, ao responder sobre a existência de um Escola Circense no município. Vale a pena pela crítica e criatividade:


Funciona no Teatro do Aço, que é ao lado do Aeroporto da cidade.
Para chegar, é mais rápido pela rodovia do contorno.
Se vier de fora, desce na parada do Trem Bala.
Tem toda estrutura possível, inclusive apoio de profissionais do Hospital Regional.
Os artistas ali formados tem pautas e empregos garantidos, graças ao grande esforço da Secretaria de Cultura em fomentar a prata da casa.
Maiores informações, pode buscar no quiosque turístico da área expandida do Sider Shopping.


[pra quem não é daqui, uma explicação: o cara conseguiu reunir um uma única resposta os principais projetos prometidos há anos para a população e não tirados do papel - ou, mesmo que tirados do papel, ainda muito longe de se concretizarem... São as lendas da cidade, em resumo]